PolíticaPortugal

A linha (invisível) que separa a(s) Direita(s)

Se há uma palavra que define a direita política portuguesa, essa seria tradição. Ainda há dias vimos o que se ocorreu no Parlamento. A eleição de Ferro Rodrigues para presidente da Assembleia foi “uma quebra da tradição parlamentar portuguesa,” segundo as bancadas parlamentares da direita.

Contudo, vamos lá à definição do que é mesmo a direita. A concepção dicotómica da política (divisão entre direita e esquerda), tal como defende Norberto Bobbio, remonta há já vários séculos. Mesmo antes da revolução francesa, já se verificava esta tendência de divisão das águas políticas deste modo antagónico. Nos Comuns britânicos, a própria sala onde, ainda hoje, se sentam os deputados, divide-se em dois lados opostos. Isto encorajou a divisão antitética da política e levou à criação, ainda que algo informal, de duas forças políticas que se opunham: tories, que ainda hoje identificam os conservadores na Inglaterra, e os whigs, que correspondem hoje aos liberais, progressistas e radicais.

Isto era o que se passava em Inglaterra no longínquo século XVII. Estas coisas de política parlamentar só chegariam a Portugal no século XIX. As lutas liberais pelo fim do absolutismo foram a condição fundamental para o estabelecimento de um regime constitucional que consagrasse a democracia liberal parlamentar. A guerra civil criou duas direitas: uma derrotada (a direita tradicionalista, conservadora e autoritária) e uma vitoriosa (direita burguesa, liberal e moderada).

O regime que saiu da guerra civil foi o da monarquia parlamentar. Não era que todos queriam. Era o regime dos moderados que queriam que Portugal seguisse o modelo europeu de progressiva democratização do poder político. Nisto, tanto a direita moderada, como a esquerda moderada estavam de acordo. Seguir o modelo ‘das luzes’ europeu era o objetivo. Radicais, tanto à esquerda, como à direita, discordavam. Uns queriam o antigo regime: a monarquia absoluta – o quase regresso ao feudalismo e aos títulos nobiliárquicos medievais. Outros queriam a República da soberania popular – modelo tentado na Europa e só sobrevivente (de forma permanente) na Suíça e São Marino, mas já sólido no outro lado do Atlântico, nos EUA.

E isto ainda se vê hoje. Temos os partidos do modelo europeu: o PSD e o PS. Temos os partidos da soberania popular, contra a “submissão à Europa”: o BE e a CDU. Temos ainda outro partido, o CDS-PP, que, um dia já foi antieuropeísta, algo que custou ao partido, nos anos 90, a expulsão do Partido Popular Europeu (PPE). Foi readmitido na década seguinte, após ter renunciado ao euroceticismo.

Hoje, observa-se uma aproximação das direitas. Serão mais uniformes que as esquerdas? Creio que não. Durante muitos anos, a direita liberal, parlamentar e moderada submeteu-se à direita autoritária e conservadora. Os tempos eram outros e, nos anos 30, depois dos últimos anos de desastre da República, o Estado Novo era, para muitos, uma necessidade. E nesta conversa os moderados de direita deixaram-se ir. Um regime que ‘arrumasse a casa’ não era uma ideia que, a muitos democratas, fosse completamente má.

O Estado Novo encerrou o período do liberalismo em Portugal, presente não só pela Primeira República, como também o constitucionalismo monárquico. Era o triunfo da direita derrotada em 1834 na Guerra Civil. A direita antiparlamentar, absolutista, autoritária, conservadora e ultracatólica.

O 25 de Abril não foi só a libertação da esquerda. Foi também a da direita moderada e liberal que viveu, mais de 40 anos, subjugada ao domínio impiedoso da direita radical e autoritária. A criação do PPD foi o marco de libertação daqueles que, ainda que dentro do regime, ambicionavam mudanças significativas do estado de coisas. Exemplo disso, foi a criação do jornal semanário Expresso (expressão mediática da Ala Liberal), uma lufada de ar fresco num regime já com sinais de vida muito frágeis.

A queda do regime seria apenas o início do declínio da direita conservadora. Esta, para sobreviver nos anos seguintes, teve de se reinventar. Isto é, colou-se à direita moderada. Adaptou-se e deixou para trás um mundo que tinha deixado de existir.

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Jorge Nicolau Magalhães

Nascido ‘lá fora’, mas criado em terras lusas desde tenra idade.
Desde cedo demonstrei interesse pela comunicação. Talvez por causa disso eu tenha optado por estudar comunicação.
Gosto de ler, ler e ler. Escrever… vou-me safando.
Gosto de política, muito mesmo.
Não sou utópico. Sou profundamente (neo)-realista. E, por isso, mudar o mundo não é comigo; contem comigo apenas para o consertar aos poucos.
Sou apenas um observador e um crítico algo compulsivo.

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