Desporto

A Liga de Futebol Feminino Allianz vai a meio

Após um defeso onde muito se discutiu sobre o novo campeonato nacional de futebol feminino, a Liga Allianz, importa, pelos olhos deste adepto, analisar o que de bom e mau trouxe a decisão polémica da Federação Portuguesa de Futebol.

Com a segunda volta da Liga já a decorrer, posso sem polémica afirmar que a FPF está a conseguir os seus intentos. Há maior atenção sobre o futebol feminino (para tal muito contribuiu a selecção feminina), há jogos na televisão, do Sporting e Sp. Braga, há resumos disponíveis para analisar, há lances nas redes sociais, imagens de grandes golos e de lances polémicos, conversas e discussões. A FPF ri-se de contente, mas poucos com ela.

A Liga Allianz prima pela ausência de grandes surpresas. Futebol Benfica e Valadares-Gaia mantêm viva a luta entre si, juntos dominaram os dois últimos anos e depois da segunda dobradinha consecutiva da equipa de Lisboa, a equipa de Gaia festejou a conquista da Supertaça no primeiro jogo da época. Na Liga estão separadas por quatro pontos com a turma do Norte à frente, depois de uma copiosa derrota do FóFó, no velho Estádio 1º de Maio frente a Sp. Braga. São o terceiro e o quarto classificados.

O Valadares-Gaia viu sair algumas das suas melhores jogadoras, mas a excelente organização do clube permitiu manter a ambição e a qualidade, para bem do futebol feminino.

Já o campeão em título, Futebol Benfica, o conhecido Fófó, apesar de manter o plantel praticamente intacto, sofreu um revés ainda cedo na competição com a saída do treinador bicampeão, Pedro Bouças. Assumiu o comando o ex-adjunto Manuel Cadete, jovem da casa. A equipa vai motivando os seus adeptos com futebol de primeira qualidade e grandes goleadas, mas é também um facto que nos momentos mais importantes a equipa perde forças e averba já quatro derrotas, todas contra as três equipas que se posicionam à sua frente. O quarto lugar actual decepciona depois de se ter mantido o plantel campeão, mas que aos poucos parece perder alguma estrutura. Apesar de alguns problemas internos, esta é uma classificação que também reflecte prejuízos motivados por decisões de arbitragem, mas este é um outro assunto.

O motivo de alegria da FPF são os dois primeiros classificados. Sporting e Sp. Braga dominam a Liga Allianz a seu belo prazer. A equipa do Minho tem em 17 jogos, 81 golos marcados (são 4,77 golos por jogo!) e apenas 2 sofridos. As leoas não se ficam muito atrás com 75 golos marcados e 9 sofridos. São números que evidenciam um desequilíbrio muito pouco saudável na Liga. Ambos os seguem com os mesmos pontos e vão-se encontrar no Estádio de Alvalade no próximo dia 25 de fevereiro. Este será o primeiro jogo disputado pelo Sporting em casa fora da longínqua Academia em Alcochete, e é também um golpe de mestre, usando os seus adeptos e restante público a quem prometeram jogo histórico. Vem trazer maior pressão sobre o seu adversário, algo que seria difícil de conseguir em Alcochete. Mas a pressão pode funcionar ao contrário.

A haver um vencedor neste jogo, provavelmente ele será o campeão.

Agradece a FPF, que vê a sua imoral e anti-desportiva estratégia resultar. Fugiu à responsabilidade de apoiar e investir nos clubes que são a razão por existir futebol feminino em Portugal, e entregou a Liga Allianz em bandeja de ouro a dois clubes que há menos de um ano não tinham sequer modalidade para se orgulharem. Felizmente investiram orçamentos que em cada um dos casos é superior à soma dos orçamentos de todos os outros clubes nacionais (informação sem rigor, claro, mas que dificilmente fugirá à realidade).

No plano do positivo, porque do mal por vezes resulta o bem, o adepto de futebol agradece. Sporting fez regressar a Portugal algumas das melhores jogadoras nacionais que evoluíam nas mais importantes ligas da Europa. Pratica um futebol de velocidade, de entrega aliando juventude a enormíssima qualidade técnica. Joga bonito e delicia os adeptos.

Já Sp. Braga fez uma aposta diferente com a contratação de algumas espanholas e brasileiras que vieram trazer experiência e muita qualidade, incluindo com internacionais pela fortíssima selecção do Brasil. A equipa minhota marca como ninguém mas nos jogos mais difíceis foi-lhes muito complicado não perderem, especialmente em casa contra Sporting e fora contra Fófó. Nestes jogos não foram melhores mas potenciaram uma sabedoria futebolística que não se via no futebol feminino, a “manha”. Com simulações e o recurso constante à falta e ao contacto físico, lograram enervar as adversárias fazendo-as jogar também elas menos bem. É uma evolução de um futebol que antes era jogado apenas pelo prazer e amor para um futebol onde existe uma necessidade de ganhar seja como for.

Entre as duas equipas de topo, pode-se afirmar que o Sporting foi formatado para jogar futebol e o Sp. Braga para ganhar.

Mas é inegável afirmar que há hoje duas equipas com um lote fantástico de jogadoras. Há melhor futebol e ainda bem. E começam a haver novos aliciantes para fazer crescer o número de adeptos nos jogos da Liga Allianz.

De novo a FPF fica a rir, mas não devia. Há ainda muito a fazer e um grande problema que se está a verificar é a qualidade baixíssima das arbitragens. É algo inegável e que todos já sentiram na pele (ler classificação).

Explicando. O aumento da qualidade global da Liga Allianz não foi protegido por um aumento da qualidade das pessoas do apito. Há hoje casos de jovens árbitros que num dia apitam jogos de futebol de 9 ou de 7 dos campeonatos regionais de formação, para no dia seguinte apitarem jogos que decidem a classificação da Liga Allianz. Estas jovens não têm culpa, simplesmente não estão preparadas para suportar as pressões de jogos importantes nem das cores de algumas camisolas. Sporting e Sp. Braga também já foram vítimas desta falta de qualidade, mas de goleada em goleada a influência nos resultados é zero. Já o campeão Fófó muito se tem lamentado. Dos jogos contra as minhotas, as leoas e especialmente contra o Clube Albergaria, retirou inegáveis prejuízos provocados por decisões incompreensíveis.

Fica um apelo à FPF. Reveja a estratégia encontrada para as arbitragens da Liga Allianz. O futebol feminino precisa de algo mais para ter um crescimento credível. Assim como está agora arrisca-se a não o ser.

Ainda uma palavra para Belenenses e Estoril, os outros dois clubes convidados pela FPF para jogarem a Liga Allianz, mas que já tinham futebol feminino. Ambos mantiveram a sua estrutura de modalidade amadora, igual à que antes tinham. A turma do Restelo, oitava classificada do escalão secundário da região de Lisboa da época passada, não desmascara evidentes dificuldades e é penúltimo classificando, longe de conseguir manter o lugar oferecido pela FPF na Liga Allianz. Já o Estoril tem méritos há muito reconhecidos na sua organização e investimento e encontra-se num fantástico quinto lugar, prometendo evoluir cada vez mais com o passar dos anos. Acredito que em pouco tempo Estoril-Praia será o terceiro grande clube do futebol feminino em Portugal.

Há muito ainda por falar sobre o futebol feminino em Portugal. A segunda liga, a Taça de Portugal, os escalões de formação e especialmente a nossa selecção que conseguiu o feito inédito de se apurar para a fase final do Campeonato da Europa.

Ficam para uma nova oportunidade.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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