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A lenda do tesouro do sultão

Deixou para trás o pequeno povoado junto às salinas. A estrada de terra seca e pedras soltas impunham uma marcha lenta. O calor seco surgiu ainda mal a noite se escondia do sol. A visão do velho farol animou-o, estava perto. Queria chegar depressa para estar sozinho naquele local, naquela pequena praia.

Depois de passar o farol, redobrou cuidados a descer para a pequeníssima praia escondida entre duas falésias. Logo deixou-se encantar pela beleza do local. À sua frente uma estreita praia de seixos onde morriam as ondas calmas de um mar inóspito. Nas águas nasciam rochas sólidas desenhadas pela mão um mestre e tocadas por finas faixas de espuma salgada. O céu tão azul como só o céu pode ser era o remate perfeito.

Sentiu estar no local certo. Sabia que estava no sítio certo. Muito leu sobre a lenda de um sultão que escondeu um valioso tesouro numa gruta aquática protegida pelos quatro lados da paisagem que a tornavam quase inacessível. Soube de quem tivesse tentado encontrar o tesouro. Leu sobre aqueles que pereceram atirados contra as rochas por um mar irritado e sobre os que simplesmente desapareceram sem deixar rasto depois de um mergulhado sem regresso. Encontrou as águas calmas e convidativas, as rochas ameaçavam imponentes mas não atemorizavam. O desconhecido é que o fez pensar mais um pouco. Equipou-se para mergulhar, pisou as pedras de seixos da praia, passou por dois pequenos barcos que cheiravam a novo e subiu ao metal dos recentes carris instalados para retirar as embarcações das águas. Olhou o céu, depois o mar e mergulhou.

Procurou brechas entre as rochas fundas e foi-se apaixonado pela beleza daquelas rochas, daquele recife. Antes de qualquer gruta ou indícios do tesouro da lenda, ele descobriu uma beleza que nunca havia testemunhado em qualquer outro lugar. As formações rochosas, as algas, o chão de areia em constante mutação. Parecia estar num aquário decorado a rigor. Os raios de sol  se tornavam-se visíveis quando trespassavam a água por cima de si, formando uma paleta de luz em tons de azul. Por momentos até esqueceu o tesouro e apenas nadou a observar encantado. Voltou à superfície e descansou. Ninguém em volta, o local era ainda apenas seu.

Voltou a mergulhar tentando chegar mais fundo para tocar nos cantos escondidos. Depressa encontrou uma abertura e arriscou. Entrou e viu-se numa gruta iluminada ao fundo por uma luz intensa. Sem pensar avançou até a luz, Vinha de uma brecha e projectava-se concentrada quase o cegando. Meteu a mão na brecha tentando sentir algo na ponta dos dedos. Sentiu energia, uma energia que lhe cercou o corpo e o animou. Depois um objecto, algo redondo, metálico, mágico. Segurou-o com uma mão e puxou-o para si. Viu uma moeda de ouro, apenas uma de um tesouro que agora era dele. Apenas uma para levar à superfície e reivindicar os seus sonhos futuros.

Nadou de volta à pequena praia guiando-o pelos de carris de ferro que penetravam o mar. Respirou por fim o ar num longo gesto interior e depois assustou-e. Os carris de metal polido estavam agora pintados de ferrugem. Os dois barcos eram os mesmos mas estavam agora visivelmente violentados pelo tempo. Tinta gasta, nomes meio apagados e pontos de ferrugem a denunciarem uso e idade avançada. Toda uma sensação de desconforto e insegurança se apoderou dele. O sol estava lá no alto perto do meio da manhã, o calor era igualmente forte, o horizonte era o que vira quando ali chegara nessa mesma manhã. Apenas o tempo era diferente, era outro. Sentiu ter passado em toda à sua volta excepto no recife que se levantava do leito do mar ali mesmo à sua frente. A beleza que encontrara era a mesma que via neste tempo diferente. Assustado mergulhou de novo, nadou, percorreu todos os cantos de recife submerso mas não voltou a encontrar aquela gruta nem aquela luz intensa. Nadou respirando cada vez mais depressa. Ofegante, não sentiu o cansaço a esgotá-lo e sucumbiu nos seus próprios medos perdendo os sentidos.

Acordou aos solavancos rodeado de sons estranhos. Estava a ser transportado numa maca. Quis saber o que se passara, o que lhe acontecera mas não tinha forças para falar. Percebeu que tinha perdido os sentidos durante o mergulho e tudo o resto pareceu-lhe ser um sonho difuso. Sentiu alívio ao ver o mundo que sempre conhecera, no tempo que era o seu. Tudo tinha sido um sonho. Então levou a mão ao pequeno bolso onde no seu sonho guardara a moeda que encontrara. Sentiu-a, olhou-a e viu uma fina pedra de seixo. Acalmou-se e sorriu recordando o local mais belo que já viu. Então percebeu que lenda era uma história sobre a magia daquele local. O tesouro era a pequena praia e o recife que e beleza neles contida. A beleza que o encantou e sobre a qual voltou a adormecer.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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