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A lenda das paredes que choram – parte II

700 anos depois do sultão Yusuf, percorri eu os pátios do seu palácio testemunhando a beleza criada pelos arquitetos e artesãos da sua dinastia. A sua contribuição recaiu sob a beleza de um pátio específico. O pátio onde era feliz, onde se escondia dos afazeres do reino. O pátio onde se deitava nas noites quentes e acordava nas manhãs amenas com a sua amada Zaida a seu lado. O pátio onde se banhavam nas águas frescas e límpidas como só o infinito pode ser. O infinito que era o amor deles. Um pátio assim apenas se pode justificar com algo maior que a própria beleza. E apenas o amor é maior do que o belo.

Para mandar edificar aquele local com tamanha beleza, Yusuf tinha que ser um exemplo vivo de um homem apaixonado. A percorrer aquele espaço atento às explicações do guia, tive a certeza que o era. E também tive a certeza da sua dor quando cheguei com o grupo ao fundo das escadas da torre mais alta do palácio. Ali o chão é revestido de grandes lajes de pedra calcária emprestando o tom creme que ameniza o tamanho das construções. Apenas uma laje tem um cor diferente, aquela que fica colada ao primeiro degrau de acesso à torre. Essa laje é escura, com um tom rubro negro. Diz o guia que foi ali que Zaida perdeu o seu filho e aquela laje ganhou aquele tom por ter absorvido o sangue negro da sua tragédia.

O passeio continuou no cimo da torre. O guia era exímio nas suas funções. Conseguia explicar cada sala e pormenor do monumento enquanto contava uma história que agarrava as pessoas e fazias-as ficarem mais atentas à beleza do palácio. Mas eu quis voltar ao pátio de Zaida. Fugi do fim do grupo e recuei. Algo estranho senti naquele espaço.

Felizmente ninguém me viu e depressa ali me encontrava. Parei junto do tanque de águas limpas, o padrão geométrico dos mosaicos repetia-se de tal forma que parecia que não tinha fundo. Num curto momento, enquanto ali estava só, ouvi algo estranho. Um choro fundo, longínquo, quase abafado. Procurei com os sentidos e então percebi que eram as paredes que choravam.

700 anos antes, Yusuf confrontou ali as suas mulheres. Quem teria empurrado Zaida e assassinado o seu filho? Uma a uma, todas negaram e pediram clemência. Nunca se soube quem fora. Todas perderam a voz quando Yusuf as degolou uma a uma, fazendo-as tombar no tanque. Os seus gritos entranharam-se nas paredes decoradas ficando reféns no tempo. O sangue delas encontrou-se na superfície da água e aos poucos tingiu as paredes e o fundo formando o padrão que hoje causa admiração a turistas como eu.

Zaida quando soube do brutal castigo aplicado pelo seu amor perdeu a luz que ainda iluminava o seu caminho. O seu amado era agora uma figura cruel com quem não se conseguia deitar e o seu útero aos poucos sucumbiu às feridas do aborto trágico. Nunca mais seria capaz de conceber vida. A tristeza levou-a a deitar-se nas águas do seu pátio, nua como nasceu, rosto mergulhado, vida terminada. Zaida conheceu a paz momentos depois.

Agora percebia eu como um pátio, apenas um espaço de um palácio edificado há mais de 700 anos, podia ser tão belo. Foi construido com o amor e conservado com a tragédia.

Os gritos que ouvia no fundo das paredes foram de repente cortados por um ainda mais forte. Assustei-me, pensei que alguém me tinha visto ali sozinho. Já me preparava para ser expulso e enfrentar as demais consequências quando percebi que ainda estava só. O grito ainda o ouvia Era o grito de Yusuf quando encontrou Zaida sem vida. Um grito que perdura no eterno, como eterna é a beleza e o amor.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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