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A Lenda da Porta do Inferno

No topo de uma serra havia um portão sempre aberto. Um portão que nenhum lugar parecia guardar. A visão que dele poucos tinham era a de uma entrada para o vazio, nenhum muro existia a proteger o que não existia.

A serra protegia-se e evitava a agressão do homem. Desenhou uma montanha alta e de difícil acesso, poucos a conseguiam subir e ainda menos eram os que o queriam fazer. Aqueles que o faziam quedavam-se atemorizados pelo desconhecido. As palavras que falavam de um portão no topo em especulação, por vezes fantasia, mas todos no lugarejo situado no sopé da serra sabiam que ele existia. E mais do que o portão em si, ninguém sabia o que havia do outro lado, escondido da vista. O desconhecido move temores e sustenta histórias, cria lendas. Em pouco tempo o lugarejo fez essa verdade cumprir-se.

Um dia a rotina do lugarejo alterou-se. Juan, na flor da juventude, teve uma violenta discussão com o seu irmão Javi por causa de uma mulher que enamorava. Falou-lhe do seu encantamento e mostrou-lhe os olhos vivos da paixão que sentia por ela. Mas ela amava Javi e um dia acercou-se dele e beijou-o nos lábios surpreendidos. Nesse instante Juan seguia com um ramo de flores e o seu melhor fato para a conquistar quando viu o beijo. Chorou por dentro e gritou por fora. Ofendido e ferido atirou-se com violência ao seu irmão ignorando a inocência dele. Ao vê-lo ensanguentado caído na estrada, sorriu e deixou o lugarejo para nunca mais voltar.

Juan teve o seu irmão a procurá-lo com forte dor no coração. Procurou-o durante dias a fio, escutando todos os cantos da região. Passaram semanas e meses. Já perto do desespero e ferido de saudade, Javi procurou-o no último local onde o irmão poderia ter ido. Subiu a serra e subiu a montanha. Então viu no topo, lá bem no ponto mais alto da montanha, um portão aberto que nunca ninguém vira. Ficou curioso mas chegar lá era tarefa nunca realizada antes dadas as dificuldades que a montanha entregava ao homem. Javi desceu a serra e indagou pelo lugarejo que portão era aquele, quem o teria construido, o que ele protegeria. Mas ninguém sabia, ninguém antes dele o vira.

Nos dias seguintes nenhum outro assunto se ouviu pelo lugarejo. Juan fora esquecido e agora só aquele portão importava. Todos o queriam ver mas poucos foram os que almejaram subir a serra para, exaustos, olharem o portão aberto e voltar a descer. Um dia alguém se encheu de coragem e subiu para pernoitar em plena serra e assim recuperar energias que o deixassem alcançar o portão no dia seguinte. No escuro da noite viu um coluna de luz do outro lado do portão. A luz de um fogo pacífico que tocava o céu quando altas labaredas se libertavam e subiam um pouco mais. Uma visão fria de algo que não sabia explicar. Em silêncio escutou o alto crepitar da madeira e respirou o odor do carvão. Amedrontado, o homem regressou ao lugarejo ansioso por ter algo mais que contar daquele local. De palavra em palavra a curiosidade aguçou-se e outros homens subiram a serra na noite para testemunhar o fogo. O desconhecido adensou-se ainda mais e da voz do povo surgiram razões para tentarem justificar o que não podiam saber. E como na dimensão humana o que não se conhece é obra do terrível, logo assumiram que aquela luz era fogo vindo das profundezas da Terra espiritual, aquele portão era uma entrada para o inferno.

Em pouco tempo, de palavra em palavra, de voz em voz, de conto em conto, a história do portão deu lugar à lenda da porta do inferno.

Meio século mais tarde foi essa lenda que apaixonou Paco. Ele chegou ao lugarejo e deixou que os locais lhe falassem da lenda para ler o temor nos olhos deles. A lenda crescera com o tempo e era já uma verdade que homens ousaram chegar ao portão mas nunca mais regressaram para contar o que viram. Todos lhe relatavam o mesmo, excepto um ancião de nome Javi que apenas lhe falou da dor em que vivia desde que o seu irmão Juan desaparecera por causa de um beijo e de uma rapariga atrevida. Entre a empatia que sentiu e a aura de senilidade que se lhe sobrepunha, Paco sorriu sem nada mais lhe dizer.

Preparado no espírito e munido de coragem, atacou a serra. Subiu e foi enganando o cansaço até por fim ver o portão aberto ao fundo da visão, no alto da serra. Recorreu às reservas de energia para continuar sem medo nem temor e aos poucos foi vendo o portão crescer para perto de si. A noite caía vagarosa e já se viam labaredas ainda difusas quando se sentiu perto de lá chegar, suficientemente perto para não fazer sentido parar agora. Os últimos metros percorreu já sob o peso da fadiga e do frio da noite. Por fim atravessou o portão. Logo ouviu o crepitar da madeira como que a chamá-lo.

Sem motivo para seguir noutra qualquer direção, perseguiu as chamas e começou a vislumbrar desenhos na negra noite. Primeiro uma pequena casa de pedra, depois uma fogueira bem viva. A alimentar-se do calor das chamas viu uma figura nascer.

– Boa noite, sou Paco. Posso aquecer-me um pouco junto da sua fogueira?

O homem anuiu com um gesto lento e sem desviar o olhar do lume apenas disse:

– Boa noite, sou Juan.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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