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A Lenda da Mina de Ouro

Vargas acordou pesado. Os sonhos difusos ainda se confundiam com distantes memórias. Tinha o rosto sulcado por rugas de fadiga e os olhos dilacerados por uma longa escuridão. O primeiro vislumbre de luz que sentiu naquela manhã apunhalo-o, a visão deixou-o incrédulo. O sol abrasador atingiu-o e alarmou-o. Ofegante, olhou em redor com o sangue a gelar dentro de si. O quarto desaparecera, a cama eram farripas de madeira desgastadas e os lençóis eram trapos rasgados. Vargas olhou em redor e viu as paredes despidas de estuque e os tijolos a perderem a cor. O teto sobre si era era a abóbada azul do céu queimada pelo calor e riscada por uma única viga de madeira apodrecida.

De instinto, levantou-se num sobressalto e pisou o chão. Não sentiu a laje que antes pisava, apenas a terra irregular que o magoou. Arbustos num canto e altas ervas secas aqui a ali eram agora os seus pertences que antes estimava como objectos. Descalço, hesitante, foi percorrendo a casa com o olhar o temeroso. Vargas já não tinha dúvida que a sua casa era uma ruína derrotada pelo tempo e derrubada pelo abandono. Mas ele estava ali depois de acordar na mesma, casa, quarto e cama em que adormecera.

Saiu da casa e tudo o que viu foi um momento assombroso que o cercou vindo de todos os lados. Tudo o que viu foi o silêncio de uma povoação mineira que espalhava vida quando recolheu na noite anterior e agora jazia deserta, sem vestígios de vivência, sem alma nem imagem. Nada que lhe desse uma resposta. O silêncio quase o derrubou. As ruas eram terra como a que pisou dentro de casa e nada as distinguiam da paisagem, eram elas a paisagem e só se adivinhavam pelas fileiras de casas dos vizinhos, seus colegas na mina de ouro. Casas essas também sucumbidas àquele tempo que ele ainda não compreendia. Não compreendia o que lhe acontecera nem o que lhe estava a acontecer. Olhou em redor, respirou o intenso calor seco, sentiu ter acordado numa realidade que era irreal, um mundo que conhecia mas que nunca o vira. Sentia ter dormido meio século.

Percorreu a pouca distância que o separava da mina de ouro desejando acordar no tempo em que adormeceu. Queria chegar e ver a rude atividade da mina, o motivo de para ali ter ido viver. Mas Vargas sabia e não foi surpresa quando lá chegou e encontrou o mundo abandonado. A mina mais não era que uma ruína de paredes distorcidas e a cairem, ferros de ferrugem retorcidos, escadarias desniveladas. Todo um complexo a fundir-se na montanha esventrada por anos de labor. O seu labor, o labor de amigos, de anos de trabalho.

Sentou-se no topo da mina olhando as ruínas tentando racionalizar o que lhe era irreal. Sentiu algo que o magoou e levou a mão ao bolso de trás das calças. Retirou uma pedra que o deixou curioso. Era pontiaguda e retinha um brilho enclausurado que se tornou intenso quando a apontou ao sol. De repente soube o que era. Correu para um enorme tanque redondo que segurava alguma água das raras chuvas que caiam no local. Bateu a pedra no chão e limpou-a na água libertando-a de terra e impurezas. Repetiu e foi limpando-a cada vez mais rápido até ter pousada na palma da sua mão uma pepita ouro puro, a mais bela que já vira, um sol em miniatura.

Caiu em si, caiu sobre si. Caiu de joelhos e olhou o céu como que a olhar o tempo e por fim soube o que fizera: guardou para si maior pepita que alguma vez encontrara na mina. E Vargas percebeu o que lhe acontecera. Dizia a lenda que a riqueza da mina era de todos, quem ouro guardasse para si secaria o filão e dormiria durante meio século.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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