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A lembrança de alegria que nos traz quem já nos fez feliz

Mexia lentamente a meia-de-leite, lentamente a sentir os grãos de açúcar a desfazerem-se, a colher à raspar na loiça e a fazer o som que ela tão bem conhecia há anos. Não prestava atenção aos sons do café onde tentava apreciar um pouco a sua solidão, mas de vez em quando sobressaltava-se com um som qualquer familiar: a máquina a moer café, a loiça a bater, as pessoas a rir, a caixa registadora. Rapidamente voltava aos seus pensamentos. O marido tinha morrido de um ataque cardíaco há dois anos e nunca tinham tido filhos, por isso sentia-se cada vez mais sozinha e longe do mundo. Era nisto que pensava; na solidão, no amor enorme que sentia ainda pelo marido, e tentava esquecer-se da sua própria idade e da sombra da morte que parecia pairar sobre ela.

Olhou brevemente para fora, pela janela, e mordeu a torrada que tinha pedido. Limpou dos lábios a manteiga gordurosa que a incomodava – de vez em quando esquecia-se de pedir pouca manteiga.

Ouviu um bater no vidro. Do lado de fora, uma cara rechonchuda e sorridente.

“Lurdes?” ouviu, baixinho, uma voz abafada pelo vidro, mas que ela conseguiu ouvir bem, reconhecer bem, mesmo com todos aqueles ruídos à volta.

“Margarida?” sorriu.

A mulher que a olhava acenou e apressou-se a dar a volta ao café para entrar. Ela levantou-se, pronta a recebê-la, e quando se encontraram o abraço foi tão forte que ela teve vontade de chorar dores que nem sabia que tinha, alegrias que pareciam agora fazer sentido. Sorriu, em vez de chorar. Sentiam borboletas no estômago, de felicidade e entusiasmo, dessas alegrias passadas que chegam com as pessoas que nos fizeram sentir bem. Sentiram, como duas meninas pequenas, esse nervosismo feliz de reencontrar a alegria e de poder revivê-la. Conheciam-se desde pequeninas, eram melhores amigas desde a escola, mas depois de Margarida casar com um militar e ir viver para longe, tinham acabado por perder o contacto.

“Estás igual, mulher” disseram ao mesmo tempo, e riram-se da piada.

Continuavam as mesmas, mas muito tinha mudado. Podiam ver nas rugas dos longos, felizes e atribulados 74 anos que cada uma tinha no corpo; podiam vê-lo nos olhos transparentes, nos sorrisos felizes e magoados, nos movimentos lentos com destreza. A vida vai-nos desgastando e vai-nos alegrando, e todo esse brilho e essa escuridão ficam marcados na pele, no espírito, na personalidade.

Sentaram-se a rir e contaram-se as novidades. Jantaram juntas enquanto mostravam a vida uma da outra em fotos, ou pelo menos aquilo que parecia ter sido captado. Encontraram-se todos os dias a partir daí, voltaram ao tempo de solteiras em que eram as melhores amigas do mundo e não se largavam. Ora, e porque não? Eram duas viúvas solitárias; uma sem filhos, outra com filhos a viverem longe. Viviam sozinhas na cidade, bastante perto uma da outra, mas nunca se tinham conseguido reencontrar, fosse pelo destino, por preguiça ou por esquecimento. Tinham viajado muito, conhecido muito, encontrado e desencontrado muito. Vivido muito. Estavam prontas para continuar com o passado onde o tinham deixado, de uma forma diferente porque elas agora também eram diferentes. E estavam prontas para tanta coisa!

Comentaram histórias de velhos conhecidos que nunca mais tinham visto ou que tinham morrido, contaram histórias engraçadas que tinham passado uma sem a outra, lembraram as vezes que tinham gostado de ter a companhia da outra para viver o bom e o mau. Riram-se com recordações de velhos tempos, de namoricos antigos, de épocas diferentes – ou perdidas, como elas acreditavam. Contaram-se alguns segredos e mágoas, e celebraram-se, uma à outra, pela primeira vez, alegrias grandes que – algumas, como os netos – já tinham mais de uma década.

Às vezes, algumas noites, quando a saudade do marido falecido e dos filhos longe batia mais forte, adormeciam nos braços uma da outra em busca de algum aconchego, segurança e calor. E não foi com surpresa que Lurdes se deixou levar quando, numa noite, depois de jantar, Margarida a beijou nos lábios pela primeira vez.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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