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A lavoura, o vinho, o cão e o gato

Só para chatear, vou abordar o tema do vinho numa perspectiva histórica, que vai longe. Do berço humano até à revolução agrícola. É que anda tudo ligado, desde há muitos anos. Se a leitura chegar ao fim do texto, merece um copo de bom vinho!

Todos temos momentos de pensamento e reflexão acerca de diversos assuntos. Dos mais comezinhos aos que exigem atenção do que dizemos a nós mesmos. A profundidade da meditação não tem a ver com educação formal e académica, mas com curiosidade sobre o que nos rodeia.Vi a colecção de episódios televisivos acerca do conhecimento e progresso humano, em que especialistas de várias áreas elegiam os objectos mais significativos da vida. Foi muito triste assistir a um conjunto de banalidades e de falta de perspectivas. Só para dar um exemplo: esqueceram-se da roda.É doloroso, porque aqueles senhores foram à escola e não aprenderam “nada”. Depois tornam-se líderes de opinião. Triste vai o mundo da televisão. Não sei se foi no canal tangas (História), ou se foi no seu irmão (que transmite mais assuntos históricos) Odisseia.

Muito antes de chegar ao vinho

O Homem tem as mesmas necessidades que um leão, lagartixa, ou galinha: precisa de comida e de água para sobreviver. Remotamente, temos o mesmo antepassado dos chimpanzés e bonobos, e bla, bla, bla… As linhagens separam-se e, não sendo ainda um Homo, o Australopithecus (australopitecos para os amigos) teve de deixar a vida nas árvores. O eixo da Terra não pára quieto e lentamente causa perturbações no clima e desenha continuamente alterações na abóbada celeste.Uma dessas manobras causou aridez no Corno de África, que perdeu as florestas luxuriantes. O australopiteco foi obrigado a descer ao chão para procurar comida. Isso aconteceu há entre 3,9 milhões de anos e 2,9 milhões de anos. A espécie evoluiu, já se sabe.

Hoje existe apenas o Homo Sapiens Sapiens, embora uma “ciência”, a Criptozoologia, dá como verdadeiros o Yeti (Himalaias), ou o Sasquatch (América do Norte), entre outros. Somos os mais inteligentes e inventivos, mas quem criou objectos pela primeira vez – embora outros animais usem instrumentos – foi o Homo Habilis, que viveu entre 1,8 milhões de anos e 300.000 anos.Terá sido ele o primeiro hominídeo a usar o fogo, aproveitando lumes naturais, como os resultantes de raios. O primeiro a controla-lo e a fabrica-lo foi o Homo Erectus, que viveu até há 143.000 anos.

O homem moderno terá surgido, na África oriental, há perto de 195.000 anos. Daí saiu para todo o mundo. Análises ao ADN mitcondrial, transmitido por via materna, dão conta que as actuais mais de 7.000 milhões de pessoas derivam da mesma mãe – criou-se a “Teoria de Eva”.Quando chegou, mais ao menos, à Palestina encontrou-se com o primo Homo Neanderthalensis (Homo de Neandertal, ou Neandertais, para os amigos). Este parente viveu há 350.000 anos e 29.000 anos. Há várias teorias para a sua extinção, desde a perseguição do Homo Sapiens Sapiens, competição pelos alimentos e cruzamento.Provavelmente todas. Há fósseis que indicam miscigenação, como o “Menino de Lapedo”, encontrado perto de Leiria. Escavações noutros locais, como nos Balcãs, apontam também nesse sentido. Sabe-se que os últimos viveram no Ocidente da Península Ibérica.Alguns cientistas afirmam haver provas no ADN dos europeus, restinhos, que confirmam essa junção – os Neandertais apenas viveram na Europa e Próximo.

A origem remota

O Homo Sapiens Sapiens começou por ser caçador e recolector. Como omnívoro é facilmente adaptável às disponibilidades alimentares. Há cerca de 100.000 anos, o Homem fez amizade com o lobo, animal social, com estrutura aparentada, modo de caçar com semelhanças… A parceria deu resultado e foi nascendo o cão. O lume aquecia e a carne cozinhada é de melhor digestão.

Não é por acaso o excelente entendimento entre humanos e canídeos. Já o gato… lá irei. A domesticação – há quem diga mútua – deu mais tempo livre para o pensamento. Há cerca de 12.000 anos, um avô ensaiou esconder, no solo, umas sementes, provavelmente de cevada, para ver o que acontecia.Nasceu a agricultura! Alguns teóricos justificam a multiplicação das sementeiras para fabrico de cerveja, após alguém ter experimentado o líquido resultante da fermentação dos bagos. É uma hipótese que não partilho.

A agricultura deu-nos excedentes alimentares e criaram-se armazéns. Um outro avô lembrou-se de capturar herbívoros, alimentando-os e beneficiando de abastecimento regular de carne. O certo é que a dieta foi empobrecida e o Homo Sapiens diminuiu de tamanho, só voltando a crescer com a Revolução Industrial, quando aumentou sustentadamente a quantidade de alimentos e uma oferta mais variada.

Os celeiros chamaram os ratos, que atraíram o Felis silvestris catus. Consta que aconteceu há 5.000 anos, mas descobertas recentes, em ilhas do Mediterrâneo oriental, sugerem que foi há 8.000 anos. O gato domesticado é basicamente o mesmo, mas dá-se-lhe o nome de Felis catus. Ora, sendo esta parceria mais recente, é normal que o entendimento seja menor. A sedentarização, pela agricultura e pela pecuária, trouxe também doenças, ligadas, nomeadamente, a factores de higiene.

Agricultura inteligente

A“agricultura inteligente”é aquela que serve de base a alimentos transformados. Os cereais dão o pão, as azeitonas geram o azeite, a cevada cria a cerveja, a vinha dá à luz o vinho.Oficialmente, a cerveja surgiu há 9.500 anos no Crescente Fértil. Já a domesticação da videira terá ocorrido há 6.000 anos. Desde então, o álcool tem servido múltiplos fins.

Penso que a persistência em fabricar cerveja e a insistência em melhorar o sumo fermentado das uvas se deveu a vontades de vivenciar estados modificados de consciência, tendo, por isso, características mágicas, ou míticas. Ainda hoje, o vinho é sagrado para judeus, cristãos e muçulmanos (no Paraíso). Além de servir propósitos espirituais, o vinho (o álcool) foi uma bebida muito mais saudável do que a água, nomeadamente nas cidades com rio, para onde eram despejadas todas as imundices. Outro uso, que chegou ao presente, foi o alimentar, pois é rico em calorias.

JB_alavouraovinhoocaoeogato_6A maioria dos especialistas garante que a domesticação da videira terá ocorrido no Cáucaso, na actual Geórgia. Outros referem a Mesopotâmia e a Índia. Do Cáucaso alastrou para Ocidente. Os fenícios transportaram-no para comércio, na orla do Mediterrâneo.Os fenícios terão sido os introdutores do vinho na Ibéria, mas foram os romanos quem tratou de o impor na cultura alimentar dos povos conquistados, nomeadamente na Hispânia (começada a conquistar em 218 antes de Cristo), e de o levar aos confins da Europa.

Contudo, será verdade? Antero Martins, professor jubilado do Instituto Superior de Agronomia, de Lisboa, acrescenta um outro momento em que se começou a beber vinho no Ocidente ibérico. Professor de Genética Quantitativa e de Melhoramento de Plantas, o catedrático encontrou uma variedade de genes, em algumas castas portuguesas, maior do que em cultivares doutras paragens. Ao mesmo tempo, o número de videiras “exclusivas” é o segundo maior da Europa, depois de Itália, porém, proporcionalmente é o mais vasto.

Portugal tem a maior área de Vitis vinífera sylvestris. Embora com menor número de localizações, que é França, os vinhedos selvagens, no nosso país, são os mais vastos. Um dos trabalhos deste académico foi identificar na toponímia possíveis localizações, situadas quase sempre na orla de rios.Os estudos de Antero Martins sugerem que a domesticação da videira, no actual território português, se operou autonomamente, em paralelo. No entanto, terá sido muito mais tardia a transformação da Vitis vinífera sylvestrisemVitis vinífera sativa.

Após a calamidade da filoxera, no final do século XIX, descobriu-se que enxertando, na videira vinícola, raízes duma espécie selvagem norte-americana, resistente a esse insecto originalmente americano, a trepadeira europeia sobrevivia.É dessa videira americana que se fazem o vinhos morangueiro, em Portugal continental, e o de cheiro, nos Açores. O vinho da Vitis rupestris contém vários elementos nocivos à saúde humana, como o metanol, que causa maleitas no sistema visual.

JB_alavouraovinhoocaoeogato_7Vinho quer dizer?…

Os romanos foram os grandes difusores do vinho. A influência da cultura romana sente-se em toda a Europa e para onde migraram europeus. Daí, que os principais bebedores de vinho estejam na Europa e em países colonizados, nas Américas e na Oceânia.

A palavra tem também a assinatura dos romanos, em quase toda a Europa. Porém, a origem é bem mais remota. Olhando para um mapa linguístico, vê-se que a palavra “vinho” em diferentes idiomas deriva do latim, de vinum.No entanto, não terão sido os latinos quem criou a palavra.

As academias têm teorias para quase todos os gostos. O vinum do latim terá origem no grego, que a foi buscar ao arménio – todas línguas indo-europeias. É consistente com a localização da origem da bebida, visto a Arménia se situar junto à Geórgia.Outros assumem-na como suméria, uma família linguística extinta. Aí, as suspeitas recaem quer na língua suméria, propriamente dita, como na usava na civilização de Ur – no Norte da Mesopotâmia – estabelecida 3.000 anos antes de Cristo.Esta versão é parcialmente sustentada por quem coloca a raiz na família das línguas afro-asiáticas. Entre elas, estão as semitas, das quais faz parte o hebraico. Hoje sabe-se que os hebreus são originários do Norte do actual Iraque.

Seja da família suméria, seja indo-europeia, seja da afro-asiática – via hebraica –, a palavra vinho tem a mesma fonte, esteja ela onde for.

E para terminar, já agora o que está na génese. Se os peritos não sabem donde vem no mapa, menos saberão donde vem da boca. Duas correntes dominantes atribuem-lhe os significados “que faz bem” (corpo e espírito) e “retorcida” e a videira é uma trepadeira lenhosa e retorcida.

Após esta seca, deve o leitor beber um bom copo de bom vinho para esquecer. Se gostou, beba um copo de bom vinho para lembrar.

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa.

Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais.

Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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