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ArtesCultura

A justiça não é cega…

Diz-se que a Justiça é cega. Este dito popular deve-se a uma evolução na representação da estatuária romana, que apresenta ‘Ivstitia‘ como uma mulher com uma venda e uma balança com fiel no meio. Este fiel simbolizava precisamente o equilíbrio e o tratamento de todas as partes por igual. Esta era a reinterpretação das fontes gregas (como aconteceu com muita da arte romana) em que ‘Diké‘ (filha de  Thémis, a esposa e conselheira de Zeus, nestas matérias) não tinha venda, nem balança, mas os olhos bem abertos, para minuciosamente observar e analisar todos os dados, e uma espada, símbolo da força da lei. Este sentido e força gregos foram substituídos, então, pelo conhecimento e  ponderação, da balança, nas representações romanas.

Sabendo-se que a evolução das representações artísticas comportam muito da individualidade do artista, mas são sempre também um suporte onde estão vertidos todos os valores da sociedade que a produziu e a interpretação das que a antecederam… e muitas vezes daquilo que está para chegar,  considero uma nova representação para a Justiça, à portuguesa. Isto porque a nossa justiça, permite que:

– Em Portugal, um político julgado num processo com indícios fortes de favorecimento seja ilibado por erros de processo. Saindo da audiência, diz com a maior displicência que é o mesmo homem honesto de sempre e que está inocente.

– Em Portugal, altos dirigentes dos partidos fujam para parte incerta para não serem julgados por corrupção. Depois de terem sido, durante anos a fio, homens de confiança do actual presidente da república e membros do Conselho de Estado.

– Em Portugal,  uma Petição Pública para a reabertura da comissão parlamentar de inquérito à aquisição dos submarinos, entregue duas vezes na Assembleia da República, tenha sido perdida também por duas vezes, não havendo qualquer registo de entrada. Para quem se esqueceu do processo dos submarinos, na Alemanha, este levou à condenação de algumas pessoas por corrupção. Ora, alguém foi corrompido em Portugal.

Conservando, ou não uma balança, que já pode pesar, deveria incorporar-se em vez da espada grega, uma bengala articulada portuguesa, uma vez que, como a romana, a  nossa Justiça é cega, mas com uma diferença substancial: ela vê. Ou faz que não vê.

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Ricardo Jorge

Lisboa, 1978. Licenciado e mestre em Arquitectura pela Universidade de Lisboa, estudou também Design e Ensino das Artes. Paralelamente a estas áreas desenvolve trabalho em Ilustração e Desenho com exposições regulares em Portugal.

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