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A irreverência da escrita

Sempre acreditei que escrever é a melhor forma de mudar o mundo. Já Luís Vaz de Camões defendia que a luta devia ser feita com uma arma numa mão e uma pena na outra – uma arma, claro está, para combater fisicamente, e uma pena para derrubar intelectualmente o inimigo, para dizer as verdades nuas e cruas de uma forma que jamais alguém ousa dizer em voz alta.

Escrever é a forma mais potente de gritar, de reclamar, de espernear, se assim for preciso. Mário de Andrade, um poeta, escritor e ensaísta brasileiro, afirmou, um dia, que “escrevo sem pensar, tudo o que o meu inconsciente grita. Penso depois: não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi.” Ora, é exactamente isto que um escritor faz quando redige uma obra ou uma simples crónica: deixa que o seu inconsciente grite, toma uma posição perante algo, perante a vida, perante o mundo.

Sendo a escrita uma arma, é usada por todos (escritores e não escritores) para expressar opiniões, muitas vezes controversas, e para tentar, de alguma forma, mudar o que está menos bem ou aplaudir o que merece ser aplaudido. Exemplo disto são os milhões de posts diários nas redes sociais, de pessoas que são meros cidadãos, mas que se sentem no direito de usar a sua liberdade de expressão para dizerem aquilo que pensam. No entanto, a diferença entre o cidadão comum e o escritor é que este último tem poder sobre o público, tem um maior alcance e, consequentemente, está susceptível a causar uma maior mudança ou um maior impacto.

Todos os dias, e restrinjo-me apenas a Portugal, vemos crónicas publicadas nos mais diversos tipos de jornais, por pessoas das mais diversas áreas: da literatura, da música, da política, das artes em geral. Um desses exemplos – e talvez, a meu ver, um dos mais marcantes – é o escritor Miguel Esteves Cardoso. A sua crónica diária no jornal Público é a sua maior arma, no sentido em que apesar de todos os seus livros serem formas de se expressar, as crónicas lhe permitem dar uma opinião mais directa acerca dos temas da actualidade. Com a ironia que tanto o caracteriza e a sua habilidade com as palavras, Miguel Esteves Cardoso chega diariamente a milhares de pessoas, podendo influenciar a opinião de umas e reforçar a de outras.

No entanto, não é só com as crónicas que os escritores mudam o mundo. Luís Vaz de Camões, por exemplo, o expoente máximo da nossa literatura, mudou o mundo ao escrever Os Lusíadas, a epopeia que conta os feitos da História dos portugueses. Com isto, conseguiu mudar o mundo, porque desde a publicação da obra (1572), pessoas de todo o mundo a lêem, principalmente estudantes de Língua Portuguesa. A influência que a obra de Camões tem na opinião pública é fácil de perceber: além das narrativas da História de Portugal e de alguns factos que sabemos como certos, Os Lusíadas são uma das principais formas de conhecermos a nossa História e o significado que os descobrimentos tiveram para a mesma, com opiniões implícitas de um autor da época, o próprio Camões.

Com estes dois exemplos podemos perceber claramente que a escrita nos influencia diariamente e que os escritores têm, entre o público, um estatuto de opinion makers, na medida em que nos deixamos levar muitas vezes pelas suas opiniões e pelas suas perspectivas do mundo.

Quantas vezes nos sentimos decididos a dar determinado passo depois de lermos um livro? Quantas vezes nos sentimos inspirados a mudar o mundo após lermos uma história, verídica ou ficcional, de uma pessoa que o conseguiu mudar? Quantas vezes colocamos em causa as nossas próprias opiniões ao lermos uma crónica ou um livro de determinado autor? E como “escrever é uma maneira de falar sem ser interrompido” (Jules Renard), é essa a razão pela qual damos tanta atenção aos escritores e ao que eles dizem.

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Joana Veríssimo

Licenciada em Jornalismo e Comunicação e com uma paixão enorme pela escrita.

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