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A inevitabilidade da perda

O Sr. Adalberto ouviu a campainha da porta e levantou os olhos do jornal. Dobrou-o e colocou-o de lado. Ajeitou o bigode gigante com um movimento do nariz e limpou os óculos, para ver melhor. A seguir, voltou a colocar os óculos, para ter a certeza que tinha visto bem. Não estava à espera de clientes, infelizmente há muito que não abundavam, por isso olhou para o que tinha acabado de entrar com curiosidade e receio.

“Deseja alguma coisa?” perguntou, tentando manter um tom amável.

O cliente virou-se para ele e apontou para uma foice.

O Sr. Adalberto sentiu um arrepio. Pensou que assim deveria ser como se sentiam os familiares de assassinos quando percebem que podiam ter parado um crime. Saiu de trás do mostrador e tirou a foice. Entregou-a ao cliente, que a olhou com apreço e anuiu com a cabeça.

“São duzentos euros” esclareceu.

O preço não era esse, e ele nem era de enganar ninguém, mas sentiu que tinha de aumentar o preço para, talvez, dissuadir o cliente. Este deu-lhe duas notas para a mão, e o Sr. Adalberto sentiu que era dinheiro negro, de sangue, e automaticamente devolveu uma das notas ao cliente, balbuciando algo sobre uma promoção.

O cliente pareceu olhar para ele, com uns olhos negros escondidos pelo capuz, e o Sr. Adalberto sentiu-se chorar. Pensou em perda. Pensou naquela perda próxima que nos arranca a pele sem nos levar, que tem uma forma de nos tocar que nos dá vida. A morte faz com que a vida se torne mais real, mesmo no meio da nossa dormência e da nossa perda. Não há dia em que estejamos mais conscientes, sensíveis, doridos, que sintamos cada som e cada toque como se queimassem, do que naquele em que perdemos alguém próximo.

Tudo parece diferente. Tudo é visto com outra luz.

Com a luz da nossa indignação observamos os carros a apitar em jeito de insulto, as pessoas apressadas para chegar a qualquer sítio, os miúdos a rirem-se na perspectiva de um fim-de-semana. Perguntamo-nos como é possível todos viverem, sorrirem, continuarem a sua jornada. Perguntamo-nos como é que o mundo todo não parou quando o nosso mundo parou, congelou, e está um caos. E, por mais vivos que nos sintamos, ironicamente sentimos também que o nosso mundo caótico e congelado se aproxima de um fim. De um final além do fim daquela vida que tanta falta nos faz, daquela perda que nos corrói a alma dorida. De um qualquer fim, com todas as possíveis simbologias associadas.

O Sr. Adalberto gritou de desespero e chorou, porque foi isto que sentiu nos olhos do cliente.

O cliente virou costas, para sair, e o Sr. Adalberto sentou-se no chão, a soluçar. Não conhecia as pessoas que iam morrer, mas sentiu o coração chorar e lamentar. No fundo, pensando bem, sabia que a morte era necessária e inevitável, mas nem por isso era um pensamento que custasse menos. E quando olhou para a porta, como se procurasse uma explicação, um arrependimento, uma mudança, já só viu o manto negro da Morte a desaparecer para a rua, com a foice nova que ele lhe tinha vendido.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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2 Comments

  1. Muchas felicidades por tu texto, me gustó. Lo único que me extraña es que no pongan el nombre del autor del texto al principio o al final del mismo….ya vi que ponen la foto y algo sobre el autor, pero por poco no bajo el cursor y veo que este texto era tuyo… por aquí estaré leyendoles….Andiamo!!

    1. Gracias, me alegro mucho 🙂 sí, es cierto, ahora la página web está diferente y se direcciona más para el artículo. Un beso, y muchas gracias de nuevo

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