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A Índia Mogol

A Biblioteca Britânica abriu as portas no passado dia 9 de Novembro para expor uma notável colecção, única no mundo, de manuscritos, pinturas e objectos de arte Mogol. A exposição, patente até ao próximo dia 2 de Abril, exibe, pela primeira vez, três séculos de reinado de um dos impérios mais pujantes e magníficos de todo o sempre, incidindo particularmente sobre a vida quotidiana no seio desta corte, através de objectos únicos: coroa, mata-moscas em joalharia, retratos imperiais, ou de cortesãos, armaduras equestres, mas também manuais domésticos, como livros de culinária ou autobiográficos.

O Império Mogol afirmou-se na Índia entre 1526 e 1857, data em que o então imperador foi deposto pelas forças britânicas. De origem muçulmana e descendentes de outros grandes conquistadores –  Gengis Cão, imperador mogol e Tamerlão, de origem turca-mogol, a expansão territorial iniciou-se sob a égide de Zahir ud-din Muhammad Babur, o primeiro imperador. Foi, no entanto, na segunda metade do século XVI, com o imperador Akbar, que o império afirmou o seu poder cultural e económico, conseguindo também a harmonia religiosa. A herança cultural do império deveu-se ao quinto imperador, Xá Jahan, responsável pela construção do mais famosos monumento indiano, o Taj Mahal, em Agra, considerado património Mundial pela UNESCO, em 1983.

A curadora de Artes visuais de Biblioteca Britânica e curadora desta exposição, Dra. Malini Roy, quis afastar-se da abordagem tradicional da história do império, segundo a qual se costuma dar maior atenção aos primeiros seis imperadores e às suas conquistas, período coincidente com o apogeu do império. Na sua perspectiva, porém, é o colapso gradual no império, a partir do século XVIII, que as práticas artísticas e literárias, em vez de acompanharem a recessão, assistiram a um florescimento. De facto, a responsável pela exposição destaca como um dos mais interessantes documentos apresentados agora ao público, um poema do século XVIII que não é nada mais, nada menos que um manual acerca da criação de pombos, com instruções para o seu cuidado e reprodução. Além disso, possui ilustrações com estas aves e os seus percursos de voo.

Por abarcar um período bastante vasto, a exposição foi organizada por temas, abarcando áreas tão distintas como a ciência, a religião, a arte, sobretudo pintura, e também a vida cortesã.

O mausoléu Taj Mahal, em Agra, construído no século XVII
O mausoléu Taj Mahal, em Agra, construído no século XVII

O mais antigo manuscrito patente na exposição trata-se das memórias autobiográficas do primeiro imperador e fundador da dinastia, datando de 1526. Redigido em Chaghatay turco e traduzido para o seu neto Abkar em 1590-1593, em língua persa, relata diversos episódios da sua vida, desde a circuncisão do seu filho Humayum, a conquista da Índia e ainda relatos das suas observações da flora e fauna autóctones.

Dos materiais expostos, Malini Roy destaca também os retratos de inúmeros príncipes, nobres e mulheres, que desde os finais de século XIX os estudiosos procuraram identificar e que finalmente esta exposição permitiu a sua correcta identificação, como a do príncipe Dara Shikoh (n. 1618) e a sua esposa Nadira Banu Begum, com quem se casou em 1633.

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Pedro Urbano

Nasceu em Lisboa em 1979, tendo frequentado o antigo Liceu de Setúbal. Licenciou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é actualmente doutorado em História pela mesma Universidade, onde também concluiu o mestrado em História Contemporânea.

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