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A imitação como forma de vida

No ano de 1848, dois jovens ingleses, Henry Walter Bates e Alfred Russel Wallace, chegaram à Amazónia brasileira para ampliar os seus conhecimentos sobre a Natureza e para procurarem por espécies para vender aos colecionadores europeus e, assim, pagar todas as despesas da viagem, que durou cerca de 11 anos.

MG_aiimitacaocomoformadevida_1Estes dois naturalistas, durante esta longa viagem, fizeram um estudo sobre grupos de borboletas e observaram que, pelo processo da evolução, um grupo de borboletas comestíveis pelas aves “imitavam” nas suas asas as cores e desenhos de espécies que não eram alvo das aves, por terem um sabor desagradável. Ou seja, uma ave que tenha comido uma borboleta de sabor desagradável, no futuro, evitará alimentar-se de borboletas que tenham a aparência das borboletas de mau sabor. Foi a partir deste estudo que se documentou a chamada Teoria do Mimetismo. Após esta viagem de Bates e de Wallace, vários naturalistas começaram também a estudar esta teoria, que é uma actualmente considerada uma das bases da Ecologia.

O Mimetismo consiste na presença, por parte de certas espécies, de características que imitam de um outro grupo de organismos, sendo esta uma adaptação evolutiva de sobrevivência que confere certas vantagens, como, por exemplo, a proteção contra a predação.

É comum, porém, não devemos confundir o Mimetismo com a Camuflagem. A diferença entre ambos os termos é que o primeiro consiste no facto de que um ser vivo assemelha-se a outro, enquanto que na camuflagem o ser vivo assemelha-se ao ambiente em que vive.

Existem vários tipos de Mimetismo, como é o caso do Mimetismo Batesiano, que ocorre quando a espécie imitadora e a espécie imitada vivem no mesmo espaço geográfico ao mesmo tempo, contudo, não interagem entre si diretamente. Um exemplo deste tipo de adaptação é o caso do animal mostrado na seguinte foto:

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E bem, que animal é este? Poderíamos dizer que é uma formiga, mas as formigas pertencem a uma classe em que os seus indivíduos têm 6 patas no total. Observem melhor a foto e podem ver que este animal tem 8 patas no total. Na realidade, trata-se de um indivíduo da classe Aracnhida, ou seja, trata-se de uma aranha que aparenta ter um corpo semelhante ao das formigas, com um corpo alongado e fino, assim como as suas pernas. Esta aranha, por se parecer com formigas de comportamento agressivo, mantém possíveis predadores bem longe.

Existe ainda o Mimetismo Peckhamiano, no qual a espécie imitadora, na realidade, é um predador que engana a sua presa. Por se parecer com a sua presa, ou por aparentar ser de outra espécie inofensiva para a presa, pode aproximar-se suficientemente do alimento, ao ponto de captura-lo sem muita dificuldade nem resistência. Como exemplo disto, está também a nossa aranha imitadora de formigas, que por parecer uma formiga, pode aproximar-se sem alarmar as suas presas, ou no caso do fascinante louva-deus Hymenopus Coronatus, que se assemelha a uma orquídea, para atrair as suas presas.

O Wasmanniano é outro tipo de Mimetismo que ocorre entre espécies que não competem entre si. Este tipo de mimetismo varia muito e pode ser defensivo, ofensivo, ou reprodutivo. Neste caso, as duas espécies, a original e a imitadora, convivem entre si e, muitas vezes, há até benefícios com esta convivência. É o caso do ácaro do género Planodiscus, que imita a grossa pele e a forma da perna da formiga de género Eciton, para conseguir ter transporte, pois são tão semelhantes à perna da formiga que passam despercebidos.

O Mimetismo Mülleriano é parecido com o Mimetismo Batesiano, mas, neste tipo de mimetismo, a espécie original e a espécie imitadora compartilham sinais defensivos, de coloração, de forma e de odores, fazendo com que o predador associe a imagem da presa como imprópria para consumo. Porém, esta imagem é compartilhada entre duas espécies, muitas vezes bastante diferentes, fazendo com que nenhuma das duas seja alvo de algum predador. É o caso da lagarta Euchelia Jacobea, com faixas amarelas e negras, e que é rejeitada por aves que se alimentam de insectos, após um contacto mínimo, por causa das secreções malcheirosas que estas lagartas emitem pela pele. Assim como há vespas que possuem o mesmo padrão de coloração e que são de mau sabor para as aves. Desta forma, as aves, depois de terem atacado vespas ou lagartas destas espécies, rejeitam qualquer insecto que tenha o mesmo padrão cromático.

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Finalmente, está o Mimetismo Mertesiano, onde o imitador, que não tem veneno, imita as cores de um animal venenoso. É o caso da serpente falsa-coral, que é parecida com a coral-verdadeira e, desta forma, consegue afastar e assustar possíveis predadores.

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Esta curiosa estratégia, que pode ter função defensiva, agressiva ou reprodutiva, desenvolveu-se nos seres vivos pelo processo de evolução ao longo de milhares e milhares de anos, garantindo o sucesso de sobrevivência das espécies e estabelecendo estranhas e diversas relações de padrões entre seres vivos. Assim, é fascinante a grandeza do mundo natural.

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Maria J Gutierrez

Bióloga de profissão, amante da natureza e de todas as suas formas de vida, desde os seres mais gigantes até aos mais pequeninos. Não há nada como estar com a família, descobrir o mundo, aprender, ler um bom livro e cervejinhas com os amigos.

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