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Crónicas

A idade é apenas um número

Um destes dias um escritor, de quem nunca tinha ouvido falar e provavelmente a maioria das pessoas que têm o hábito de ler como eu também não, decidiu soltar umas declarações bem polémicas. Dizia ele que só se sentia atraído por mulheres de 25 anos e que as de 50 anos não podiam ser amadas. Claro que são dois assuntos bem distintos e sinceramente acredito que o senhor só queria era publicidade, o que conseguiu.

Era ler inúmeros insultos ao cavalheiro e a indignação era generalizada. Com razão. Sentir atracção é uma circunstância e amar é outra bem diferente. Deve ser a veia poética do senhor que está assim para o desgastado. Até posso entender que ele veja as mulheres como corpos só que se esqueceu que são pessoas e podem não o considerar nada atraente. Se ele se acha o melhor de todos é porque o seu ego está inchado. Contudo, isto é apenas um detalhe.

Toda esta situação me fez lembrar a bisavó duma antiga colega minha. Era uma senhora fora do comum e muito avançada para o seu tempo. Quando a conheci já tinha ultrapassado os 100 anos, mas quem olhasse para ela diria que era assim para o entradote, mas não mais que 70 anos. Pessoa dotada de uma clarividência extraordinária, criou os netos e bisnetos como se fossem os seus bens mais preciosos. A minha colega era a mais nova de todas e estava na sua primeira gravidez, ainda cheia de incertezas e receios.

Conduzia melhor que muitos profissionais e nunca tinha tido nenhum acidente. Claro que não tinha carta de condução, mas como nunca a tinham abordado nesse sentido esteve confortável nesta ilegalidade estúpida, como me dizia vezes sem conta. Dispensava o uso de óculos e via mesmo bem. Conseguia ler a uma distante enorme e não queria “aquelas cangalhas nas ventas” que só serviam para estorvar.

A sua indumentária variava entre Mary Quant, Coco Chanel e a costureira do bairro. De estilos diversos e muito coloridos era uma alegria para a vista. Muitas vezes lhe segredei que, quando fosse grande, queria ser como ela. Não tenho falhado a promessa e as cores são as minhas grandes amigas. As saias ficavam-se pelo joelho quando não o deixavam a descoberto. Decotes bem generosos acompanhavam-nas de muito boa vontade. E saltos altos que “mulheres são para dar nas vistas”.

Era uma pessoa adorável. Desabrida na linguagem e nos relatos, libertava tudo o que lhe apetecia e contava, para quem quisesse ouvir, que quando era nova tinha dormido com quase todos os homens importantes de Lisboa. Se dúvidas persistissem, relatava pormenores e detalhes dos corpos dos ditos senhores para averiguação futura. O que me divertia com ela! Nunca entendi como é que a bisneta era uma puritana cheia de manias com uma bisavó de mente tão aberta. Coisas da vida.

Os lábios, de vermelho vivo assim como as unhas, eram a sua imagem de marca. Os dentes, volta não volta, levavam uma besuntadela, mas até lhe dava graça. Felizmente que o apetite não a largava e “marchava tudo bem regadito com tinto para dar um ar saudável”. Limpava sempre “as beiças” com muita delicadeza e voltava a retocar a cor que até lhe sabia melhor. Já a conheciam há muito e aquelas frescuras eram vistas como excentricidades. Um autêntico delírio como devem imaginar.

Fazia voluntariado em muitas instituições e levava “os velhos (de 60 e 70 anos) a dar passeios que não sabem conduzir”. Sabia imenso sobre cães, gatos e os pássaros eram a sua conversa preferida. Andava sempre a tentar encontrar donos para bichos errantes e conseguia bons donos que os cuidavam à séria. Ia verificar como estavam os bichinhos e os seus olhos enchiam-se de lágrimas quando falava deles.

Referia-se aos médicos como se fossem uma espécie de diabos disfarçados de pessoas. As suas experiências negativas tinham-na deixado de pé atrás com aqueles senhores de bata branca. Não lhe consegui arrancar a origem de tanto ódio, mas sabendo como era tenho a certeza que foi mesmo grave. Levá-la a uma consulta era um drama em vários actos e tinha que ser preparado com uma certa antecedência. Sempre com umas palavritas menos simpáticas.

Vendia saúde e nem uma constipação a derrubava. Quase não dormia, por isso, podia-se contar com ela para tudo. Quando se combinava uma hora para algo, sabia-se logo que ela estava a chegar ao ouvir o chanato velho que conduzia com imenso prazer. Afirmava que era uma relação de amor e que tinham vivido muitos anos juntos. Entendo-a perfeitamente. Também me ligo a algumas peças que acabam por ter uma relação simbólica e afectiva.

Conversar com ela era uma melodia forte, mas agradável. Os palavrões saíam à vontade e compunham as frases, dando-lhe mais som e tom. E quem estivesse mal que se mudasse que ela era mesmo assim, pura e dura. Talvez por já não ter avós liguei-me imenso a ela e gostava tanto dela como se fosse minha. Na verdade, ela confessava-me que a bisneta era uma deslambida e que tinha saído ao lado pior da família. Depois ríamos com imensa vontade.

Um dia telefonou a avisar que ia chegar atrasada, porque tinha que deixar ficar “os velhos no lar, porque não sabem estar em casa”. Claro que eram conversas da treta, pois tratava-os muito bem e a sua acção era sempre louvada. Não sei explicar, mas aquele telefonema deixou-me apreensiva. A bisneta estava num dia mau e precisava de fazer um exame médico. O meu coração deu um pulo e tive uma epifania, algo não estava a bater certo.

Tinha razão no meu sentir. Fui a última pessoa a falar com ela, a ouvir a sua voz. Morreu na estrada. O seu coração decidiu parar e deve ter sentido a falha, pois guinou o volante e foi bater contra uma árvore. Tudo isto aconteceu numa hora complicada. Como não chegava, disse à minha colega para ir de táxi que depois a bisa iria lá ter. Nunca aconteceu.

Mais uma vez fui a portadora das más notícias. Uma nuvem negra cobriu aquela rapariga que entrou numa profunda depressão. Era o seu porto seguro que naufragava e a deixava à deriva. A casa ficou com um enorme vazio e nem saber que pequenos pézinhos muito breve estariam a pisar aquele chão a conseguiam animar. Tempos duros que tiveram que ser vividos com algumas ajudas externas.

Chorei-a tanto mesmo não querendo mostrar as lágrimas. Senti que me estava a ser roubada, mas era um pensamento ridículo. Foi uma fortuna na minha vida. Quem é que consegue viver mais de 100 anos e ter tanta qualidade de vida? A trineta nasceu num dia de chuva e senti que eram lágrimas de alegria da trisavó por a ver tão rechonchuda e linda. Deu-lhe um nome mesmo estúpido, mas ter as hormonas aos saltos faz muito mal.

Durante uns tempos andei um pouco sorumbática, mas tive que arrebitar. Perder quem amamos é sempre uma dor enorme e custa a ser superada. Deixou uma marca tão profunda e tão maravilhosa que ainda hoje, tantos anos depois, recordo-a como se estivesse ao meu lado. No meu entender esta nossa conversa imaginária será contínua.

Se ela fosse viva tinha dado uma certa resposta ao tal do escritor que desdenha de mulheres mais maduras e experientes. Imagino a dar-lhe uma tareia tão grande que ele não teria sítio para se escapar. Tareia verbal, diga-se, que aquela língua era duma enorme resistência e força que fazia corar muitos marinheiros bêbedos.

Ainda lhe sinto o hálito a tabaco, um hábito que não quis deixar por lhe dar muito prazer, bem como ouvir certas confidências brejeiras, nomeadamente aquela em que me descrevia, detalhadamente, um curioso sinal que um senhor da política, tinha na ponta do pénis.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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