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A história inacreditável de Rodriguez

Existem histórias reais que parecem ter sido retiradas de um conto de fadas. É o caso da de Sixto Rodriguez, um cantor folk ignorado no seu país, mas idolatrado na África do Sul. Se ainda não o conheces, aconselho-te a continuares a ler, porque esta história inacreditável inspirou o documentário Searching for Sugar Man, vencedor dos Óscares deste ano, proporcionando a Rodriguez uma segunda oportunidade para vencer no mundo da música.

Realizado pelo sueco Malik Bendjelloul, Searching for Sugar Man mostra-nos o percurso musical de um cantor americano (nascido no Michigan), descendente de mexicanos, que assina contrato, no início da década de 70, após produtores vinculados à Motown o verem tocar numa casa nocturna de Detroit. Depois de lançar dois álbuns, Cold Fact (1970) e Coming From Reality (1971), que se revelam um fiasco de vendas (um deles vendeu um total de seis cópias), cai rapidamente no esquecimento e vê-se obrigado a trabalhar nas obras para sobreviver. “Não podemos demorar muito tempo para tomar decisões, eu escolhi encarar a realidade. Não dá para esperar, ver o que acontece e escapar ileso. Pegar no pesado não é nenhuma vergonha”, confessou o músico ao jornal The New York Times.

O que não imaginava é que do outro lado do Oceano Atlântico, na África do Sul, a juventude branca descontente com o Apartheid se identifica tanto com as suas músicas. As letras poderosas de “I Wonder”, “Cold Fact”, ou “A Most Disgusting Song”, ao estilo de Bob Dylan, transformaram-se rapidamente em hinos para os jovens liberais e chegaram até a ser banidas pelo governo. Lá, Rodriguez estava no mesmo patamar de Elvis Presley e dos Rolling Stone, os seus álbuns eram copiados aos milhares. O problema é que ninguém sabia absolutamente nada sobre ele (nem se estava vivo), o que originou diversos mitos urbanos como o de ter-se suicidado em pleno palco, depois de ser vaiado num espectáculo.

A história inacreditável de Rodriguez1A sua carreira acabaria por ressuscitar, quando o jornalista Craig Bartholomew Strydom e Stephen Segerman, dono de uma loja de música, o localizaram através da Internet e o convidaram a fazer uma tournê pelo país africano, em 1998. Este último acabaria por confessar que escutou Rodriguez pela primeira vez, ao ser convocado para o exército sul-africano, onde, relata ele, a sua música “representava o que Hendrix e The Doors foram para os rapazes no Vietnam”.

O realizador Malik Bendjelloul ainda tentou, sem sucesso, perceber o que foi feito ao dinheiro gerado com as vendas dos seus discos, uma vez que nunca recebeu um dólar. Questionando Clarence Avant, ex-presidente da Motown, respondeu ironicamente: “acha que me vou preocupar com um contrato assinado na década de 70? Se acha mesmo isso, está completamente louco”.

Agora, graças ao filme, Rodriguez viu os seus discos serem relançados, chegando mesmo ao Top 200 americano. Tem saltado de programa em programa a dar entrevistas e tem feito concertos pelo país. Entretanto, também já retornou à Africa do Sul para actuar em salas esgotadas, como foi o caso de Johanesburgo, onde esteve numa arena com capacidade para cinco mil pessoas, em cinco datas diferentes. Atualmente, até está em cima da mesa a hipótese de fazer um novo álbum. “É um fenómeno, tem alguma coisa de mágico. Quem poderia imaginar uma coisa assim? É quase como ganhar na lotaria”, confessou à BBC. Todavia, continua com uma vida simples e fez questão de não comparecer à festa dos Óscares por não querer ofuscar o realizador. “É uma temporada de realizações. Acho que todos nós queremos conquistar os nossos objectivos imediatamente, mas acredito que nunca é cedo nem tarde demais para fazer isso”, afirmou noutra entrevista.

Trata-se de uma história de tal modo incrível que seria um autêntico “pecado” não dar a conhecer ao mundo a existência de Rodriguez e das suas músicas. Nada melhor que as palavras de Malik Bendjelloul para o confirmar: “é a história real mais grandiosa e mais incrível que eu já ouvi. É um conto de fadas quase arquetípico. É perfeita. Tem o elemento humano, o aspecto musical e a história de detective. É pouco provável que uma história assim ocorra novamente. Supõe-se que coisas assim não acontecem na vida real”.

Para já ainda não tivemos o privilégio de receber Rodriguez no nosso país, esteve quase, quase para acontecer no último Optimus Primavera Sound, no Porto, mas, por motivos de saúde, não foi possível. Vamos aguardar, com alguma ansiedade, que este “jovem” de 70 anos nos brinde com as suas letras melodiosas em terras lusas.

 

 

 

 

 

 

 

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Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

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