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A guerra invisível das violações no exército

Mulheres e homens, armas e guerras, podiam ser cenários prováveis de Fim de Ano em Split, uma realização croata de Arsen Anton Ostojić. Cenários fúnebres, um tanto ou quanto rebuscados, com uma pitada de indignação à mistura. Estaremos a falar de um panorama típico de uma I ou II Guerra Mundial, com passagens ensanguentadas e enigmas por desvendar? Não, estamos a reportar verdadeiros delírios e acontecimentos indignos, onde mulheres, vítimas de abuso sexual, falam sobre os horrores que lhes foram perpetrados. “Ele bateu-me do lado esquerdo do rosto… gritou comigo, agarrou-me no braço e violou-me”, diz Kori Cioca, da Guarda Costeira America. Lee Le Teff, do Exército America, descreve que “ele encostou à minha cabeça uma arma de calibre .45, carregada, e pressionou para eu ficar com medo”, Tia Christopher, da Marinha Americana, acrescenta ainda que o suspeito “puxou a minha cabeça contra a parede e, com muita força, fez sexo comigo” e Teah Bedney, do Exército, remata que, “dentro de um período de duas semanas, ele violou-me cinco vezes.”

Se os depoimentos tivessem sido aqui travados, eram somadas três vítimas de um holocausto, que já conta muitas outras, mas poucas para quem cometeu estas atrocidades. Hannah Sewell da Marinha diz que gritou por ajuda, mas que ninguém a socorreu, Demos Valina do Exército engravidou e Trina da Marinha e Ariana, do Corpo de Fuzileiros Navais Americanos, foram ameaçadas de morte. Os testemunhos são de soldados americanos ao serviço do país que falam, sem rodeios, num documentário (Guerra Invisível) de Kirby Dick, de uma guerra camuflada, que mistura forças armadas com abusos sexuais. A denúncia foi feita aos seus superiores e a reacção foi fugaz. “A única coisa que mais raiva me dá não é a violação em si, são os comandantes que foram cúmplices no encobrimento de tudo o que aconteceu”, confessa a tenente Klay.

Dick, autor de outros documentários polémicos como o abuso de poder na Igreja Católica Romana, com a ajuda do produtor Amy Ziering, reuniu não só os testemunhos, mas também um relatório estatístico indicativo que o sexo feminino é vítima de violação, no ramo das Forças Armadas Norte-Americanas, num valor que, incrivelmente, ultrapassa os 20%. Uma realidade que ainda ocorre e é abafada. As versões dos agressores não foram coincidentes e os cúmplices consideraram ser a protecção do culpado um dever militar. Esta mistura de negação e acusação fez com que a queixa de uma das vítimas resultasse num “feitiço contra o feiticeiro”. A lesada foi acusada de adultério, a violação foi vista como prática sexual consensual e o caso foi arquivado. Helmer Elle, o militar que denunciou o caso e que solicitou investigação, foi acusado de conduta militar imprópria.

“Não há nada que eles possam fazer”, afirmou Hannah Sewell. Entre mentiras e verdades, foi-lhe dito que as provas da agressão (fotografias e relatório) se tinham perdido. No contacto feito ao Serviço de Investigação Criminal Naval (NCIS), Hannah descobriu que as provas ainda lá permaneciam, mas o caso estava encerrado.

Só em 2010 foram feitas cerca de 9 denúncias de agressão sexual por dia e só um em cada nove agressores é que cumpriu pena. Dos mais de 2900 casos encaminhados para o Departamento de Defesa Geral, nenhum foi investigado, tendo sido indicado às vítimas de que existem “prioridades mais altas.” Quem foi vítima das violações por parte de membros das Forças Armadas Norte-Americanas chega a cometer suicídio, para dizimar a vergonha e apagar a frustração de saber que nada é feito aos violadores. Os homens, apesar de, na sua maioria, serem os violadores, também são vítimas deste tipo de ataque. Michael Matthews, em 1970, enquanto esteve na Força Aérea, foi violado por dois homens. Como a percentagem de homens ao serviço militar ainda é superior à das mulheres, os casos ocorrem em ambos os lados.

Ariana Bem, outra vítima de violação, aquando da tentativa de suicídio, viu o seu marido a tentar impedi-la, com sucesso, mas este acabou por ficar fortemente abalado. “Chamava a polícia com uma mão ao mesmo tempo que com a outra impedia que me matasse”. O casal vive a angústia não só da atrocidade, mas também a angústia dos anos de devoção ao país. Loree Sutton, antigo psiquiatra do Exército, garante que o ambiente que se vive no exército é familiar, contudo, “quando a confiança é violada, abre-se uma ferida que nos atinge a alma.” Para espanto dos mais cépticos, existem violadores que permanecem nas forças armadas, sendo que um chegou mesmo a ganhar o prémio “Aviador do Ano”, na altura em que estava a ser investigado por violação. Nunca foi condenado e, segundo outros relatos, continuou com as agressões e as violações.

Em Dezembro do passado ano, o Tribunal de Justiça, com uma série de casos em mãos, considerou que “a violação é um risco ocupacional do serviço militar.” Panetta Leonh, Secretário da Defesa, impôs-se e processou comandantes como uma das alternativas de combate e travão a esta desumanidade. As vítimas destas atrocidades lutaram e arriscaram por quem lhes roubou a honra, fizeram justiça sem perder a dignidade, foram verdadeiros heróis e heroínas, na hora do desabafo. Pioneiros na coragem, as vítimas de violação só viram o esforço de anos de luta recompensado quando “The Invisible War” (A Guerra Invisível) mostrou os ‘segredos’ mais obscuros das forças armadas norte-americanas.

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Rita Nunes Ferreira

Licenciada em Comunicação Social e pós-graduada em Estudos Europeus nasci neste mundo onde tudo/quase tudo se traduz em formas de comunicar. Tenho uma paixão nata pela escrita e um soberbo gosto pelo jornalismo em áreas diversas – lifestyle, sociedade, direitos humanos, política, assuntos europeus. Tendo sido ou não talhada para esta azáfama constante não existe o que possa demover. Todos os dias se justifica acordar e escrever mais um “bocado”.

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