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A Grécia Antiga e os mestres pensadores*

Estalou o verniz aos nossos mestres pensadores, essa fina flor doméstica do pensamento único europeu, quando os hereges gregos, esmifrados até ao tutano, se revoltaram contra os Deuses de Berlim. Glucksmann já tinha anotado que os mestres pensadores revelam-se sempre da mesma maneira: o tribunal de Atenas motivava a condenação de Sócrates – ele não respeita os nossos Deuses e os nossos competentes, por conseguinte conspira para instalar outros deuses e outros competentes, ele quer a sua lei em vez da nossa. Tal como adivinho Meleto, em nome da acusação, pediu a morte de Sócrates como castigo, esta turba também pede a morte dos gregos que colocam em causa os seus Deuses loiros e as leis do pensamento único.

O pedido de pena capital para os gregos vem acompanhado de “pensamento científico”, a lembrar o 1984, de Orwell. Coitados dos gregos, até a Grécia Antiga lhes querem roubar. Dizem os mestres pensadores que “estes” gregos não são herdeiros dos outros, os da Antiguidade, os pais da nossa civilização, da democracia e da filosofia. “Estes” gregos são mais Otomanos e esta Grécia não passa de um produto da vontade das potências europeias, a quem devem, por isso, deduz-se, vassalagem. Condescendem, contrariados que “Sócrates, Platão, ou Tucídides eram atenienses”. Quanto ao resto são “mitos” – escrevem sem rodeios, nem vergonha. Até Aristóteles, discípulo de Platão, que em Atenas fundou o Liceu, é retirado à herança grega. Nasceu ali ao lado, Macedónia – dizem. Pitágoras – esse – nasceu na Grécia, admitem, mas desenvolveu o seu trabalho no sul de Itália, como se esta região não estivesse sobre o domínio grego e outras na Turquia, onde nasceu por exemplo Tales de Mileto. Para esta gente, vale tudo. Tudo isto é tão tonto como dizer que o poeta Ahmed Ben Kassin, por exemplo, não é árabe. Nasceu em Granada, quando esta cidade estava sobre o domínio árabe. O afã de matar os gregos é tal que lhes retiram a paternidade: são filhos de pais incógnitos.

E como se não bastasse, num exercício de demagogia reles, ainda roubam aos gregos o valioso património, maravilhas do mundo antigo. Escrevem os mestres pensadores, eufóricos, para desvalorizar o povo grego, que o Farol de Alexandria, o Mausoléu de Halicarnasso, ou o Templo de Artemis em Éfeso não se localizam na Grécia, como não se fossem obras ímpares da civilização grega. Também a Igreja de São Paulo, em Diu não está em território português. E daí?

Os mestres pensadores, zelosos acólitos dos deuses de Berlim, destilam ódio ao “irresponsável” povo grego, porque veio pôr em causa o pensamento único. Não precisavam, para isso, de lhes roubar o passado.

*Os Mestres Pensadores é o título de um ensaio de André Glucksmann sobre o totalitarismo.
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Tomás Vasques

Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de honestidade, cerveja, conquilhas e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância, o autoritarismo e vendedores de banha da cobra. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.

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