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A geração que não tem medo de sonhar

Tudo mudou. A culpa foi da revolução tecnológica, do alargamento do ensino obrigatório, das Nintendos, do conforto de uma casa, do dinheiro fácil, dos gelados Perna de Pau, dos armários cheios de roupa, dos Verões passados na praia, do 11 de Setembro, do Programa Erasmus e da carta de condução aos 18 anos. Qualquer semelhança entre a geração dos jovens de hoje com a dos seus pais é mera coincidência. Quem está na casa dos vinte anos já não sonha ter uma mansão com uma piscina, um grande carro, um emprego de sonho, ou uma família numerosa. É uma geração que vê vantagens no imprevisível.

Privilegiam a felicidade no momento. Não têm o espírito de sacrifício dos progenitores. Não estão à espera de recompensas na reforma. Querem viver o agora. Ser felizes agora. Estar de bem com a vida agora. Olham mais para dentro de si mesmos, para os seus potenciais e para as suas vocações. Vão atrás dos seus sonhos. Estudam mais, também para isso os incentivaram. Persistem sem nunca se cansarem, até encontrarem o emprego que os realize. Já não estão dispostos a trabalhar uma vida inteira em algo que não os preencha. Querem mais. Se for preciso, fazem malabarismos com mil e um empregos ao mesmo tempo. Arriscam muito mais. Lançam-se no empreendedorismo.

Querem viver. Podem até contar os trocos durante a semana, mas o fim-de-semana é sagrado para estar com os amigos, beber uns copos com os amigos, conversar com os amigos. Preferem as séries e os filmes, aos programas de televisão, aos domingos à tarde. Apesar de tudo, lêem mais e interessam-se mais pelo que os rodeia. Sabem que o mundo não se limita às fronteiras de Portugal e querem conhece-lo. Podem até não existir as melhores condições económicas, mas não adiam, não pelo melhor momento, que pode nunca vir a chegar. A vida é curta demais para adiar. Pegam na mochila e no pouco dinheiro que têm e partem sem medos. Se for necessário ficar por lá, ficam. Afinal, nasceram num mundo global e numa Europa sem fronteiras.

Os pais não compreendem. Tiveram uma infância com poucos brinquedos, com poucos cómodos e o acesso à educação era difícil. As alternativas eram poucas, para não dizer nenhumas. Cresceram cedo demais. Nunca lhes foi perguntado qual era a profissão que queriam ter, quando fossem adultos. Não puderam sonhar. Lutaram pelo conforto que nunca tiveram. Isso representava uma casa, uma boa casa, com jardim, piscina e um carro topo de gama à porta. Foi com esse alento que trabalharam arduamente. Que perderam anos da sua vida. Os jovens de hoje, talvez porque tiveram essas condições à mão de semear, não valorizam tanto. Até nem se importam de ter um T0, ou que o emprego que gostam seja pouco remunerado, desde que seja suficiente para estar com os amigos e fazer uma viagem por ano.

As prioridades mudaram. Não há por que haver conflitos. As diferenças geracionais, se forem vistas como fonte de complementaridade, respeitando as diferenças e procurando retirar o melhor de cada uma, é uma poderosa arma para o aumento de produtividade, por que tanto grita o país.

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Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

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