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A Geração Made in Portugal

Nós, os jovens ou adultos com menos de 30 anos, somos a primeira geração portuguesa que tem os armários recheados com roupa da Zara, Primark, Berska… entre outras. Nos nossos armários da IKEA, vão haver também sapatos de sítios exóticos como a India, China e Bangladesh. Nós seremos a primeira geração portuguesa que não irá comprar produtos portugueses, mas porquê?

Hoje em dia, sai-se da escola secundária e, a não ser que de facto não consigamos, por incapacidade financeira ou por simples desinteresse, ingressamos num curso superior. Também me pergunto, tirando áreas como a cozinha e a estética, quantas escolas há por aí? Digo escolas, dessas em que podemos tirar formações ditas “normais”? Para sermos carpinteiros, canalizadores ou mecânicos.

Enfim, lá saímos nós da universidade com 21 anos e depois? Depois começamos a trabalhar, procuramos um estágio, que se transforma num outro estágio, num part-time, num trabalho de Verão. Acabamos por passar os nossos 20 e poucos a correr de trabalho para trabalho, sem conseguir juntar muito, porque provavelmente os nossos irmãos, pais ou avós até precisam de alguma ajuda com as contas, ou porque decidimos comprar um carro. Porque em Portugal, fora do Porto e de Lisboa, carro é um bem essencial que tem de vir inclusive no currículo e é motivo para ser excluído como candidato, para tudo, menos político, porque esses têm carro… mas deixemos esses para uma outra conversa.

Se algum de nós, um desses jovens com menos de 30, pensa em morar sozinho, ou “juntar os trapinhos” como diz a minha avó, pergunto-me, quando um estágio para um licenciado dá-lhe qualquer coisa como 24 euros por dia, ou qualquer coisa como 3 euros por hora. Como é suposto essa pessoa comprar o que é português?

A minha casa, tal como inúmeras outras, é uma mistura de peças pré-feitas da IKEA e de outras lojas como essa. Pergunto realmente como é suposto uma pessoa, um casal até, que serão até dois ordenados juntos, conseguir comprar coisas feitas em Portugal. Tenho todo o apreço por roupa feita cá, por mobília feita cá, mas a realidade, quando olho para os preços, é simplesmente impensável, por exemplo, comprar uma loiça feita cá, ou uma cama ou ainda um armário. Uma cama ou um sofá chegam a custar centenas de euros se não mesmo mil ou mais euros. Isto é, custam mais que um salário de uma pessoa. Pergunto-me… como é suposto fazermos, alugamos a casa e dos (vá) 200 euros que não gastámos em luz, água, comida, renda, combustível/transportes e coisas como internet e telefone… poupamos durante quanto tempo para comprar as nossas coisas? Como devem imaginar não só é difícil como demorado. Por isso, optamos pela solução mais fácil e corremos para os IKEA e as Primark em que compramos lençóis baratos, camas baratas e coisas que gostamos… mas que também sabemos ser tudo o que podemos comprar… muitas até já a custo.

Como é suposto conseguirmos comprar o que é feito em Portugal, se ganhamos mal? Se não conseguimos poupar, porque simplesmente não há onde poupar. Sobra-nos a alternativa, explorar aqueles que ganham ainda pior que nós, aqueles que costuram as nossas camisolas, que prensam as madeiras da nossa mobília.

Sabem quanto é que nós, jovens, nos sentimos ridículos, não é quando vamos ao IKEA, às Zara, às Primark desse mundo, mas quando somos confrontados com o valor do nosso trabalho. Quando nós, os jovens que ganham 600 euros por mês, produzimos qualidade que é vendida para o estrangeiro, em forma de designs inovadores de mobiliário, calçado, serviços especializados e até marcas e produtos de luxo e de consumo comum reconhecidas internacionalmente, mas não recebemos na mesma medida. Porque olhamos com orgulho no peito e ao mesmo tempo desgosto, porque, apesar de fazermos parte dos que trabalham para o made in Portugal, somos demasiado pobres para o comprar, ou seja somos demasiado pobres para “provar” o que é nosso.

Por isso, lembre-te que, quem não compra o made in Portugal ou visita o comércio tradicional, não é porque não dá valor, não é porque são jovens e querem facilitismos, não é porque não sabem distinguir entre coisas de qualidade e coisas pré-feitas, mas sim porque simplesmente, nós os jovens, não podemos. Nós, os jovens, não temos estabilidade, recebemos mal e vivemos como podemos. Por isso, produzimos e ajudamos Portugal a deixar o seu nome com grandes produtos e marcas, mas vamos continuar deste lado do balcão, a ser os vendedores, os funcionários, os produtores, os designers, os criadores e vamos continuar, mesmo sem conseguir compra o made in Portugal, orgulhosos de sermos portugueses.

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Dulcineia Dias

O meu nome é Dulcineia Dias, sou portuguesa e algarvia. Tenho 24 anos e trabalho em Marketing Digital. Nos meus tempos livres gosto de levar uma vida boémia, andar descalça, ler livros, tirar fotos, escrever, fazer manualidades e conversar.

One Comment

  1. Tanta verdade num só artigo!
    Nós que realmente fazemos Portugal Grande de Verdade, sentimo-nos tão pequeninos.
    Mas tudo isto tem um nome ainda mais bonito: “Paixão Lusa”
    Somos Portugal e isso ninguém nos pode tirar! 🙂
    Somos o futuro, ainda que eles digam que somos a geração rasca, porque na verdade muitos de nós são a Geração Desenrasca-te!

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