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A Fusão Musical conhecida como Miguel Maat

Um dos mais interessantes e antigos instrumentos produtores de som é o didgeridoo. Também chamado de didjeridu, ou de yadaki, é um instrumento de sopro dos aborígenes australianos do Norte e permite fazer música de uma maneira diferente e altamente relaxante. Pode-se explorar toda a imensidão de sons que o digeridoo permite, através de sopros de diferentes intensidades, de sons com a voz e de movimentos com a língua. Rendido ao som contagiante e mágico do didgeridoo, Miguel Maat contou ao Repórter Sombra como é que este instrumento entrou na sua vida e como de uma paixão fez vida, falando também da sua procura por novos sons e como nasceu esta vontade de viajar e procurar novas culturas musicais e tradicionais. Do mundo rígido do Colégio Militar, às viagens pelo mundo, descobre o que este músico de fusão de Rock e World Music tem para te mostrar.

Miguel, como música percebo perfeitamente a tua paixão pela origem de tudo o que são sons. Explica-nos melhor, em que se baseia a tua música?

Na percepção do meu espaço e da sua envolvência. A música é acima de tudo uma forma de expressão pessoal. Pretendo transmitir um pouco de mim ao mundo e assim recolher um pleno de satisfação interior, que espero que contagie quem ouve. Citando uma frase que vi em Lagos há alguns dias: “Art is the love you put in the things you do“.

Não é comum ver-se um Didgeridoo em fusão com outros instrumentos, porquê esta mistura?

Esta foi uma mistura algo inesperada, até para mim próprio. Na verdade, desde que ouvi o didgeridoo, fiquei rendido ao seu som contagiante. Um verdadeiro hino à natureza e às nossas raízes. Daí a ter a “necessidade” de conhecer e tocar o didgeridoo, foi um pequeno passo.

Depois de uma breve iniciação técnica surgiu a ideia de juntar o didgeridoo à minha música, tornando-a mais abrangente e ao mesmo tempo mais pessoal. No fundo, juntar o melhor de dois mundos.

Desde então tenho trabalhado na fusão entre este instrumento ancestral e a guitarra, sempre com o objectivo de compor canções que me preencham musicalmente e que dessa forma se reflictam na percepção de quem ouve.

Que instrumentos ancestrais procuras para a fusão com o Didgeridoo?

Neste projecto, procuro levar o didgeridoo para um novo patamar de fusão com o Rock. Acredito que estou a criar uma nova tendência musical, que já foi apelidada de Rock & Drone. Em termos de instrumentos adicionais, podem ser utilizados instrumentos tão diversos como o Djembé, as clavas, a Srhutri Box, a Kalimba, as Taças Tibetanas, o pau de chuva, a DanMoi

Aproveito para te perguntar, como foi fundar uma escola de Didgeridoo? Como tem corrido esse projecto? Há muita procura pela aprendizagem de tal instrumento e cultura musical?

Mais uma vez, foi uma surpresa! Há dois anos, nunca pensaria em fazê-lo. No entanto, o didgeridoo acabou por alterar o meu estilo de vida e hoje vou para todo o lado com os paus :).

Na verdade, através da construção dos meus próprios instrumentos, desenvolvi um conhecimento mais profundo e dispus-me a ensinar aqueles que, como eu, um dia sonharam tocar didgeridoo. Para além do foco na formação (aulas e workshops), a Didge Creature dedica-se ainda à construção e venda de didgeridoos, ao artesanato tribal e ao desenvolvimento de uma linha de higiene e limpeza para estes instrumentos.

No que respeita à procura, é sem dúvida um instrumento emergente, que nos últimos anos tem surgido essencialmente associado aos festivais mais étnicos e a uma abordagem mais meditativa e/ou de relaxamento, para além de ter ganhos significativos em termos de saúde.

Deduzo que viajas bastante para conheceres os instrumentos e sonoridades que pretendes, como é essa procura? O que é a World Music?

Gostaria ainda de viajar mais! Sempre que visito um país tento ir beber a cultura que emana da vivência diária. Nada de ficar nos hotéis o tempo todo. A verdadeira experiência consiste em contactar os locais, sentir os aromas, sentir os sabores… É aí que se encontra a verdadeira expressão da cultura de um povo e é aí que a verdadeira música tradicional está intimamente embebida. Para mim, a World Music consiste nesta mescla de aromas e sabores tradicionais, repuxados para uma música anglo-saxónica, que com elas ganha uma dimensão étnica característica. Uma espécie de novo patamar na evolução humana.

Procuras misturar todos estes instrumentos com a World Music e ainda o Rock. Dado que são géneros bem diferentes e com instrumentos diferentes, como é que se chega a mais esta fusão?

Como referi anteriormente, o conceito de World Music consiste nesta junção de intenções musicais. Neste caso concreto quebra com tudo o que já havia feito, prende-se com a própria utilização do didgeridoo que, no âmbito da composição, cria o que chamo de “uma limitação ilimitada”. Sobre esta é assumido que, embora possa aparentemente reduzir a linha melódica adoptada, permite por outro lado explorar um novo campo sonoro que se distancia da estrutura normal de uma canção.

Soube ainda que estudaste no Colégio Militar e foi lá que iniciaste a tua formação musical. Como é que uma alma do Mundo se adaptou a este meio tão disciplinar?

Bem… a música é disciplina! E também é caos! É uma mistura de excertos desordenados numa linha melódica que representa a intenção. A minha passagem pelo Colégio Militar formou-me disciplinarmente, sem que, no entanto, me tenha castrado artisticamente, pelo que estou grato a esta grande e nobre Instituição.

Como era a banda de Rock em que participaste no Colégio Militar e posteriormente na banda de Rock da Academia Militar? Foi a partir daqui que decidiste largar as amarras e procurar uma maior liberdade de sons e instrumentos?

Eram bandas como as de garagem. Material fraquinho, muita paixão e gosto pela aventura! Tocávamos essencialmente covers, mas já nessa altura enveredávamos pelos originais, alguns de minha autoria. Éramos assíduos nas festas institucionais e em alguns eventos privados. Saliento uma actuação na Aula Magna para angariação de fundos para Moçambique, no seguimento de uma catástrofe natural. Foi o início de um arrojado percurso musical e de muitas descobertas que culminaram neste momento em que nos encontramos.

Fala-nos um pouco de No Silêncio dos teus Olhos, o teu primeiro álbum a solo e deste novo EP lançado há um mês.

O primeiro álbum, No Silêncio dos teus Olhos, foi uma compilação das músicas que mais me marcaram ao longo do meu percurso. Consiste num álbum Rock de influências diversas, como o Funk, o Swing e o Jazz. As canções são de minha autoria e da letrista Ana Sírius, companheira de muitas andanças. Daí resultaram dois videoclips, dos temas Faz-te Gritar e No meu Peito, que, conjuntamente com a canção que dá nome ao álbum, caracterizam o tipo de sonoridade impressa.

O novo EP Tatuagem/Bola de Trapos traduz uma evolução do conceito da minha música. Uma abordagem à luz da World Music, com integração plena do didgeridoo num Rock de influências. As letras são mais uma vez de autoria da Ana Sírius, sendo que, em ambos os projectos, a música é integralmente de minha autoria. O videoclip de apresentação Tatuagem, lançado em Setembro, foi já alvo de críticas muito favoráveis dadas pela comunidade didgeridoo a nível mundial.

Para quem não conhece, o que são as taças tibetanas, que sons têm? Criarão elas um som místico a tua música juntamente com o Didgeridoo, em contraste com o Rock?

As Taças Tibetanas são taças de som construídas em ligas de diversos metais e possuem um som muito característico, vibrante, hipnótico e relaxante. Juntamente com o didgeridoo são a base de um projecto em que estou envolvido, intitulado Vertigem Sonora – Concerto de Didgeridoo, Taças Tibetanas e Instrumentos do Mundo. No que respeita à sua inclusão no Rock, permitem criar momentos onde a música pode “respirar”, possibilitando a alternância de andamentos de forma inesperada.

Por fim, que planos futuros tens?

Estou neste momento em fase de promoção do EP (Tatuagem/Bola de Trapos), que saiu no mês passado e pode ser adquirido via digital através de diversa plataformas online, ou no site www.miguelmaat.net. Os temas podem ainda ser ouvidos online via Spotify.

Entretanto, está já em preparação um novo EP, que irá, mais uma vez, utilizar as valências do didgeridoo como inspiração para a linha melódica do trabalho, desta vez elevando a composição a um novo patamar de fusão.

Onde poderemos ouvir-te e ver-te brevemente?

No âmbito da promoção, irei estar brevemente em várias rádios do país, assim como em show cases e programas de televisão. O concerto de apresentação será em Outubro em Lisboa, seguindo-se diversos eventos que neste momento estão a surgir em agenda.

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Inês Faro

Estudante de Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade. Vivo para a música e grande parte dos meus interesses está nessa arte, nesse mundo tão vasto e com tanto ainda por descobrir.

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