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Ciências e TecnologiaTecnologia

A fuga à realidade

Lembram-se da febre do Pokémon GO? Assim que apareceu, nos primeiros  19, dias teve 50 milhões de downloads, tornando-se, na semana de  lançamento, a aplicação mais descarregada de sempre na App Store da Apple. Isto é qualquer coisa, mas porque ficam as pessoas tão “agarradas” a videojogos?

A fuga à realidade é uma benesse, ou não fossem as televisões as nossas melhores amigas, quando chegamos a casa. Quem não liga a televisão ao chegar a casa? Nem que seja para ficar como pano de fundo, para não haver silêncio. Fazendo uma observação aqui, que mal tem o silêncio? Fazer-nos sentir sozinhos? Paremos por uns instantes para reflectir neste assunto…

Continuando. Fuga à realidade. Enfrentar a vida diária pode ser difícil, principalmente quando há dificuldade em encarar o mundo, as pessoas, as situações, os desafios, etc. Há pessoas tímidas por natureza. Há pessoas com fobia ou ansiedade social. Há pessoas fartas, cansadas dos desafios e exigências do dia-a-dia e só querem “desligar” o cérebro, quando chegam a casa. Seja com videojogos, seja com redes sociais, seja fazendo zapping ou maratonas de séries ou filmes. Tudo é válido para “parar a mente”.

A realidade virtual destes jogos é um escape da vida diária. Nos jogos, podemos ser quem quisermos, violentos se for preciso, matando gente, atropelando e conduzindo por cima do que quisermos. Sendo grandes jogadores de futebol, conquistadores e heróis.

Nos jogos, há um sistema de recompensa muito forte, que são os níveis, as conquistas, os prémios e a possibilidade de conseguirmos, a cada dia, chegar cada vez mais longe. O céu é o limite! E aqui, quanto mais jogarmos, mais conseguimos. É uma descarga total de adrenalina e dopamina também, os nossos cérebros têm uma overdose, quase, de tanto êxtase quando conseguimos passar aquele nível ou vencer aquele adversário.

Na vida real, as coisas não são bem assim. Por vezes somos desajustados e inábeis, as coisas nem sempre passam por ou dependem de nós, do nosso esforço e persistência, por vezes. Tantas coisas nos fogem ao controlo. A “competição” lá fora, nas nossas vidas pessoais, sociais e profissionais, nem sempre é clara, com regras claras e regras a serem respeitadas com consequência imediata caso não o sejam. Torna-se tudo muito mais caótico e frustrante.

No jogo, tudo depende de nós, sabemos claramente o que acontece, ou tem de acontecer, nas várias etapas ou fases do jogo para conseguirmos “ganhar”. Na vida real, quantas vezes ganhamos alguma coisa? Quanto muito ganhamos o salário e alguma recompensa pontual. Outras vezes, aprovação ou reconhecimento pelos colegas ou superiores, se tivermos sorte. No jogo podemos ganhar mais vezes, todos os dias alguma coisa se for preciso.

Para obsessivo-compulsivos então é do melhor, já que o jogo estimula o desejo de coleccionar e organizar que já está latente nestes perfis. Coleccionar medalhas, níveis e todas as coisas que se conseguem acumular nos jogos. Para pessoas com agressividade, frustração ou insegurança recalcada, igual. Nos videojogos pode ser-se o mais violento possível que ninguém está a ver ou julgar. Temos instintos animalescos que podem ser representados livremente aqui, é a simulação de uma fantasia que não pode ser expressa no mundo real devido às possíveis consequências. Para quem não quer enfrentar os problemas, também tem um bom escape nos videojogos. É o jogo ou o fundo de um copo (ou outros escapes afins).

Outro dos factores motivacionais que leva as pessoas a quererem jogar um videojogo é o quão esse jogo se interliga com o mundo real. Competição é algo natural à espécie humana e animal. Os jogos representam a necessidade que temos de concretizar, alcançar metas e objectivos, comparativamente com outros. É o modelo de recompensa.

Existe também a necessidade de pertença e conexão representada por alguns jogos: fazer parte de uma comunidade ou grupo. Jogos colectivos online estão a tornar-se o novo modelo de videojogo, e ai das mãezinhas ou paizinhos (companheiras ou companheiros) que queiram terminar o jogo dos meninos (o sexo masculino prevalece nestas questões de jogo, seja ele de que tipo for) antes que os coleguinhas terminem a sessão. Instala-se o pânico lá em casa!

A desejabilidade social de fazer o que os outros fazem, falar do que os outros falam é, também, preponderante nestas questões da adesão aos videojogos. Existe também a nostalgia de outros tempos, como, novamente, no caso da febre do Pokémon GO ou outros que tragam reminiscências da nossa juventude.

Tantos os motivos que tornam os videojogos completamente aliciantes e aditivos. Não esquecer que, a fácil acessibilidade aos mesmos via smartphones, traz todo um mundo novo de possibilidades ao hábito de jogar. Actualmente, podemos jogar em todo o lado e a toda a hora. Levamos o jogo connosco, mas, e quando o jogo se torna um vício?

Quando jogar se torna uma dependência, a procura da adrenalina associada ao jogo pode colocar em risco o emprego, as relações sociais e familiares e provocar isolamento. Havendo ou não dinheiro envolvido, os sintomas de privação são geralmente idênticos àqueles sentidos por dependentes de substâncias.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já incluiu a dependência do jogo na lista internacional de doenças como transtorno de saúde mental, tendo-se verificado mudanças no perfil dos jogadores. Se há uns quinze anos atrás havia o jogador de casino, das slot machines ou da roleta, de há uns dez anos para cá são os estudantes universitários com dependência aos videojogos, nos quais já não se coloca a questão financeira mas os problemas associados ao isolamento social, às depressões e às perdas de rendimento escolar. Trata-se de uma patologia aditiva que, ainda que não envolva substâncias psicoactivas, envolve os circuitos e as regiões cerebrais tipicamente envolvidos nos demais comportamentos aditivos e dependências.

De que forma podemos fugir desse vício? Procurando ajuda, quando não se consegue parar e as consequências da dependência forem muito evidentes ou limitadoras: perda do contacto com a realidade, o isolamento e afastamento de relações afectivas e de todos os interesses que existiam previamente; o número de horas investido no jogo, em detrimento da carreira, estudos, descanso ou outras tarefas da vida diária, como alimentação e higiene; o sofrimento visível em não se conseguir alhear do próprio jogo e viver a vida real.

O vício pára-se parando. Parando de jogar. Ou diminuindo-se a frequência com que se joga, diminuindo-se também a importância que se dá ao jogo em si e o seu complexo sistema de recompensa, compreendendo-se esse sistema e a forma como se relaciona com a pessoa dependente do jogo. Importa aqui referir que é necessário o acompanhamento de um profissional de saúde neste processo, quando se entra num caso de patologia.

Aos jogadores pontuais, um lembrete: atenção ao tempo diário de jogo e ao envolvimento emocional com o mesmo. Se têm preocupação frequente com jogo, necessidade de aumentar os riscos ou apostas constantemente, se há um esforço repetido e sem sucesso de controlar, diminuir ou parar de jogar, inquietação ou irritabilidade quando diminui ou pára de jogar, se está em risco de ameaçar ou perder relacionamentos significativos, oportunidades de trabalho, educação ou carreira por causa do jogo, se joga como forma de escapar de problemas ou para aliviar sentimentos desagradáveis e mente para familiares, terapeuta ou outros, a fim de esconder a extensão do envolvimento com jogo, tenho uma coisa a dizer: o jogar tornou-se patológico e precisa procurar ajuda.

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Paula Chocalhinho

Psicóloga Clínica & Hipnoterapeuta. Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e em Psicologia Comunitária. Experiência profissional em perturbações da ansiedade (fobias, stress, pânico, ansiedade generalizada), perturbações psicossomáticas, depressão, luto, trauma, insegurança, baixa-autoestima, etc. Trabalho desenvolvido no sentido do autoconhecimento e autodesenvolvimento. Trabalha na Associação para o Planeamento da Família e em Paula Chocalhinho Consultas de Hipnoterapia.

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