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A Fragmentação do Cenário Partidário Europeu

Desde a grande crise de 2008 que o o cenário político europeu, em particular no sul do continente, se vem modificando, tendo sido criada uma instabilidade rara no quadro partidário dos vários países em questão. Ainda que em diferentes níveis de variação, a reputação e importância dos partidos do arco do poder dos países do sul europeus sofreram quedas irreparáveis, devido à sua responsabilidade nos eventos que levaram à primeira grande crise do novo milénio. Com estas mudanças ideológicas estruturais são inequivocamente levantadas questões estruturantes tanto a nível nacional, como europeu.

Olhando para as mudanças partidárias dentro do território português, este argumento torna-se quase irrelevante, salvo pequenas renovações de menor importância que se vêm demonstrando. A mais óbvia será, em princípio, a dissolução do Bloco de Esquerda, que, por falta de estratégia e consenso, se fragmentou lentamente, perdendo importância perante os eleitores portugueses. De outra forma, os dois maiores partidos portugueses continuam a partilhar o poder, não tendo existido grandes diferenças no eleitorado fixo do PS e do PSD. Ao passarmos a fronteira para Espanha, no entanto, as mudanças começam a ser mais evidentes, com o Podemos a vencer nas últimas sondagens, ficando à frente dos socialistas do PSOE e do PP, actual governo, que ficaria em terceiro. Estas mudanças são o resultado quase directo da crise tardia que afectou Espanha.

Já na Grécia, as mudanças são mais que evidentes, tendo o eleitorado grego favorecido a extrema-esquerda do SYRIZA, numa tentativa de não só punir os sociais-democratas do PASOK, mas também na procura de recuperar alguma autonomia nacional frente à importância da União Europeia nas políticas económicas do país. Ainda que se possa argumentar que este último objectivo dos eleitores gregos não tenha sido atingido, é importante não ignorar que tal procura levou a uma mudança partidária sem precedentes, desde a sua mudança de regime em 1975.

Em França, ainda que de forma menos acentuada, mas talvez mais preocupante, pudemos ver, em 2012, a vitória do PS de Hollande, depois de mais de duas décadas de centro-direita no poder. Com o insucesso de Hollande, o eleitorado francês voltou-se novamente para a direita, dando boas perspetivas a Sarkozy. No entanto, a maior alteração no sistema partidário francês é o crescimento alarmante da Frente Nacional da “monarquia” Le Penn. Aproveitando a crise do fim da década, os elevados números de imigração e o descontentamento dos cidadãos com a esquerda política, Marine Le Penn tem conseguido conquistar o apoio de parte dos votos de massa, posicionando-se um pouco mais ao centro que o seu antecessor. Ao fazê-lo, a líder do partido de extrema-direita tem conseguido atrair alguns dos votos de direita anteriormente pertencentes ao partido de Sarkozy, atingindo bons resultados nas últimas eleições locais francesas.

Vendo o crescimento de partidos de nicho, normalmente isolados nos extremos do espectro político, podemos perceber as consequências que uma crise pode originar nos partidos políticos de um determinado país. No entanto, é possível ver que essa alteração não ocorre com o mesmo nível de importância nos vários países mais afectados no sul da Europa, o que nos leva a assumir que, para que tal mudança sistémica ocorra, são obrigatoriamente necessários dois factores presentes. Em primeiro lugar, é necessário que exista um estímulo. Neste caso específico, a crise de 2008 levou ao descontentamento dos eleitores face a uma má resposta dos partidos no poder, o que leva a uma fragmentação da intenção de votos pelos restantes partidos. Com o tempo, apenas os partidos da oposição que conseguem dar uma resposta atempada à procura dos cidadãos, que procuram uma substituição ideológica, conseguiram afirmar-se no cenário político e alterar a paisagem partidária de cada país. Por estas razões, é possível explicar a falta de mudanças em Portugal em comparação com os restantes países europeus enumerados neste artigo, sendo a falta de alternativa responsável pela manutenção do cenário político nacional.

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André Ferreira

“Political junkie”, europeísta convicto e keynesiano por natureza. Ocupa todo o tempo que consegue com séries, filmes, música, livros, podcasts e qualquer outra fonte de entretenimento que consiga encontrar.

Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas pela FLUL-UL e pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela FCSH-UNL.

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