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A fotografia

Hoje tirar uma fotografia está ao alcance de qualquer um. Os telemóveis dispõem de aplicações que as conseguem transformar em autênticas obras de arte e para isso basta carregar num botão. Tão simples quanto isto. Mas esta história de facilitismo durou muito até aqui chegar. Não foi fácil. Os nossos pais ainda têm máquinas fotográficas a sério, com objectivas ou não, complicadas e frágeis. Era preciso paciência e arte para fazer uma foto, uma boa foto. Tirar uma fotografia não era o mesmo que fazer o retrato da avó. Luz, sombra, técnica, tempo, cor, tanta exigência para um pequeno momento. Era assim. O rolo. É uma palavra que caiu em desuso. os mais novos não sabem o que isso é. os negativos e as fotos estragadas. Ainda os álbuns onde se colocavam todas aquelas recordações, os momentos que aconteceram e que ficaram registados para sempre. Objectos pesados, com capas duras e cantos trabalhados, escondidos ou, meticulosamente, arrumados em gavetas que servem para deliciar as visitas.

Testemunhos de outros tempos, de situações que eram marcantes ou obrigatórias: as fotografias do baptizado, do casamento, do exame da 4ª classe, do início do ano lectivo para entregar na escola. Era um ritual curioso ir tirar uma fotografia: roupa escolhida, penteado para a ocasião e postura que nem permitia respirar. Tempos complicados e longínquos. E tudo para um pequeno momento passar à posteridade, ficar registado para sempre. primeiro eram a preto e branco e depois, mais tarde, surgem as coloridas, ainda em tons um pouco artificiais. as marcas das máquinas tornam-se conhecidas e as dos fabricantes de rolos começam a competir entre si, para conquistar uma grande parcela de mercado. A revelação era num laboratório, num qualquer local, na loja do Senhor Fulano ou da Dona Beltrana. havia um enorme intervalo de tempo entre o carregar no botão e conseguir vê-la no papel, a olhar para nós. Uma autêntica eternidade. Criava-se suspense e expectativa. Fazia parte do jogo da imagem que ficava gravada nos cadernos grandes que as mães, tias e avós tinham sempre.

Mas quem é que iniciou esta aventura maravilhosa e complicada? A invenção data de 1839, altura em que Agro comunicou a invenção de Daguerre e Niepce à Academia Francesa e à Câmara dos Deputados. Foi o culminar de séculos de pesquisa sobre a forma de retratar o mais realista possível, os fenómenos e os objectos. Os mecanismos ópticos que possibilitavam a captação da imagem eram conhecidos há muito e tinham sido utilizados pelos pintores do Renascimento nas suas pesquisas sobre proporções e perspectiva. As propriedades foto-sensíveis eram conhecidas desde a Antiguidade, mas os sais de prata não podiam ser trazidos para a luz do dia. Só com o sistema de daguerreotopia se consegue fixar a imagem e esta permanecer nítida. Contudo o mais directo antepassado da moderna fotografia é o processo de calotipia, inventado pelo inglês William Henry Fox Talbot e que tem a sua base, tal como actualmente, na obtenção de um negativo da imagem, na altura em papel, que permitia depois a realização infinita de cópias dessa imagem em papel salgado. Este pormenor é muito importante pois é devido às inúmeras cópias fiéis de um momento irrepetível que a fotografia está na origem da revolução comunicacional dos últimos tempos.

Nos seus primórdios era muito dispendiosa e limitada tecnicamente. O único campo rendível foi o retrato em massa, utilizado por ateliers que se expandiram por toda a Europa. O mercado aceitou bem a novidade e a fotografia tornou-se uma pequena revolução social: a do acesso à imagem por parte da pequena burguesia urbana, que era o segmento que segurava o mercado. A recepção é um pouco dúbia na intelectualidade do século XIX, enquanto uns defendiam o seu lado artístico, de meio técnico inovador e um poderoso contributo para o progresso da humanidade, outros destruíam as pretensões artísticas dos fotógrafos, onde eram satirizados pela falta de criatividade e de irrealidade, de sonho, de ideal. Entre os fotógrafos também não havia consenso pois a sua utilização tinha fins variados; uns acreditavam nas suas potencialidades artísticas e outros defendiam-na como um meio de fazer estudos de anatomia e de locomoção.

Durante a exposição na câmara, os raios luminosos reflectidos pelo objecto, incidem sobre a emulsão fotográfica formando uma imagem latente A revelação transforma os sais de prata, alterados pela luz em prática metálica, juntando-se produtos redutores e aceleradores. O que não é transformado desaparece depois de uma lavagem em água corrente de modo a manter a nitidez da imagem. Esta é só uma sucinta explicação do processo, complexo e sequencial. No equipamento de revelação utiliza-se o esmalte, a ebonite, vidro e aço. A película vai passando por sucessivos banhos e a secagem efectua-se por meio de circulação do ar quente e filtrado ou ainda través de raios infravermelhos. Tudo isto agora soa a ” chinês ” pois as fotografias são feitas com aparelhos que as mostram logo, que possibilitam a sua imediata visualização. É a fotografia digital que pode ser trabalhada, posteriormente, sem trabalho de maior.

Em Portugal a primeira menção feita a esta invenção foi publicada em 16 de Fevereiro de 1839, na revista Panorama. No mês seguinte, a Revista Literária menciona as pesquisas de Daguerre e de Talbot. Hercule Florence inventa um processo denominado fototipia, que é um processo de reprodução de clichés fotográficos sobre uma capa de gelatina, com bicromato, colocada sobre cristal ou cobre e efectua a respectiva estampagem. Todo o material era de custo elevadíssimo, não chegando a qualquer bolsa. De qualquer dos modos suscitava um enorme interesse, sobretudo pelo facto do retrato eternizar o respectivo modelo. O amadorismo só era acessível a grandes fortunas e em Portugal só há um caso que pode ser relatado. Carlos Relvas.

Era um rico proprietário agrícola, ribatejano. natural da Golegã e que aprendeu a técnica de fotografia com o checo Wenceslau Citka. Ganhou diversos prémios em toda a Europa, sendo um dos mais célebres da sua época. Entre 1871 e 1875, o chalet, como é conhecido na Golegã, foi edificado por ordem de Carlos Relvas. É uma casa-estúdio, com características únicas a nível mundial e tinha como objectivo exclusivo acolher um laboratório e um estúdio dedicado à fotografia. É um monumento com 33 toneladas, em ferro, de estilo revivalista, mesclando o gótico com o mourisco e parece um templo cristão, em forma de cruz. A fachada principal, virada a poente, ladeada de 2 “baptistérios”, tem um pórtico decorado com um baixo relevo, representando um cavalo marinho e, na parte superior, tem um janelão varanda, rodeado pelos bustos de Daguerre e Niépce, encimado por um óculo rosácea, onde se juntam as alas laterais que exaltam anjos segurando câmaras fotográficas. Na parte superior as paredes são envidraçadas entre ferros trabalhados de forma original, onde a entrada de luz é total e regulada através de cortinas, que se controlam por fios e roldanas. Assim havia sempre um aproveitamento total do dia, da luz natural e das sombras associadas.

Lá podem-se encontrar as máquinas antigas e as fotos tiradas pelo fotógrafo, de reis e figuras ilustres bem como de mendigos e de camponeses. Todas elas são de uma grande riqueza estética, social e etnográfica funcionando como testemunhos dum tempo passado e são um profundo documento das comunidades da zona. A título de curiosidade, este rico agricultor foi também inventor. Inventou uma sela especial, mistura da inglesa e portuguesa, em exclusivo para o cavalo da raça lusitana e um bote salva vidas, o sempre em pé. Era um monárquico convicto e o seu filho, José Relvas, um ferrenho republicano, tendo sido ele que proclamou a República, no dia 5 de Outubro de 1910, nos Paços do Concelho, em Lisboa.

Convém fazer uma menção especial a Joshua Benoliel, o maior foto-jornalista de sempre e Eduardo Gageiro, portugueses exímios na sua arte. Em termos internacionais, Cartier-Bresson é uma referência importante bem como Albert Korda, Sebastião Salgado, Man Ray e Annie Leibovitz. A arte da fotografia tem reunido inúmeros adeptos, o que permite uma qualidade cada vez maior e um grau de exigência ainda mais apurado.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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