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ArtesCultura

A fotografia da arte e a arte de fotografar

É difícil para alguém que não seja de Belas Artes, ou que não tenha um interesse específico por a magia da arte, reconhecer este conceito tão fácil de apurar, mas tão difícil de identificar. Problemas filosóficos à parte, o reconhecimento de uma obra de arte depende em muito do sujeito que o observa, sendo a própria construção uma parte preponderante. Afinal, o artista faz e os interpretadores observam, dependendo-se mutuamente.

Como é fácil de entender para qualquer leigo, não sendo necessária especial atenção, nem todos as obras são arte, nem todas as artes são belas. Levando a que, Beleza e Arte, que sempre de mão dada andaram, estejam mais relacionadas com a identificação do sujeito e do seu quotidiano. E aí entra o papel da fotografia na arte.

Se mencionamos o nosso dia-a-dia logo nos lembramosRS_afotografiadaarteeaartedefotografar_2 que a memória fraqueja e que os momentos se esfumaçam. A única forma de os manter cativos remonta a uma invenção particularmente complexa e interessante, de que todos somos fãs, pelo senhor Niépce. Em 1826, começaram a dar-se os primeiros passos para a mais constante forma de criação artística. Com um simples clique, num smartphone, numa máquina fotográfica, em vários dispositivos, somos capazes de usar a nossa inspiração para guardar os momentos mais estranhos, divertidos, belos ou simplesmente uteis, para serem vistos e lembrados no futuro.

Então, o que distingue a sensibilidade de um macaco com uma máquina fotográfica da de um artista com o seu pincel? Na verdade, nada. Uma obra de arte nasce da liberdade de captar, de forma emocionalmente racional, um momento, um local, uma pessoa. Trata-se de imortalizar um segundo para o resto das horas que desejamos. Mas isso não faz de nós artistas, criadores de uma arte sublime, capaz de ser exposta nas galerias de arte de Nova Iorque, como a Gagosian Gallery (522 W 21st Street). Não basta termos inspiração, uma máquina fotográfica e três horas disponíveis. Ou será que basta?

Desde Henri Cartier-Bresson até a Martin Munkacsi, os génios da fotografiaRS_afotografiadaarteeaartedefotografar_3 vão mais longe que qualquer um de nós. Não se limitam a tirar fotos, tornando-as arte e imortalizando-as. Dão o seu ponto de vista. Falam através da câmara, estabelecendo uma conexão com o visualizador. E é esse o segredo. Ser bom a tirar fotos, por mais cursos e workshops que se frequentam, nunca chegará. Sim, aprende-se a fazer arte, mas só se colocar cada bocadinho de si naquilo que capta, naquilo que quer eternizar.

Como David Du Chemin nos explica em Falando Fotograficamente, “Como fotógrafos, temos dificuldade em falar sobre imagens porque, francamente, não sabemos como pensar nelas. Se não soubermos como pensar sobre uma foto e sua “linguagem visual” – como a imagem é construída, como ela funciona e por que funciona – saberemos comunicar da melhor forma possível, quando estamos por trás da câmara, nossa visão e propósito original? A visão – por mais crucial que seja – não é o objetivo definitivo da fotografia. A expressão é o objetivo. E para nos expressarmos melhor, é necessário aprender e utilizar a gramática e o vocabulário da linguagem visual”. Ou seja, antes mesmo de pegarmos na câmara, precisamos de saber o que queremos dizer com as fotos que vamos tirar. Precisamos de pensar na expressão que queremos ver naquele ecrã ou papel. Precisamos de analisar os objectivos que escolhemos. Precisamos de saber o que queremos, sem deixar de parte o que somos.

Talvez já tenha ouvido falar na célebre história do fotógrafo Kevin CarterRS_afotografiadaarteeaartedefotografar_4 e a sua metafórica fotografia em Ayod, no Sudão, em 1993, a uma criança morrendo de fome, enquanto um abutre aguardava, junto a ela. Suicidando-se, pouco tempo depois, por nada ter feito, a verdade é que esta obra de arte vai além de um retrato jornalístico dos vários males sofridos em África. É algo que se imortalizou, tocando todos os que a observam e transformando a sensibilidade de uma pedra, digna de um bebé. Somos humanos e respondemos a impulsos da humanidade e da vida. E isso é o que faz um verdadeiro artista: explora essas fragilidades, expressando-as num único toque, de forma subtil, mas tão intensa quanto seja possível.

Se acha que não é capaz, saiba que não é a sua formação ou a sua qualificação que o impede. Você está a impedir-se a si mesmo, boicotando a sua sensibilidade e habilidade de comunicação. Tem medo de falar por imagens, mostrando que não sabe dominar as suas emoções? Deixe-as transbordar e crie arte. Você é um artista, se assim o quiser. A máquina está à espera, e o mundo precisa do seu contributo. Pronto para disparar, senhor artista?

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Raquel Soares

Aluna de Direito na Universidade Do Minho com uma paixão por livros, filosofia, psicologia e o mundo. Não procuro um mundo melhor, mas esforço-me para construí-lo! Sou activista da Amnistia Internacional em Portugal e participante em projectos que visam a dinamização e a efectivação dos Direitos Humanos. Membro da Associação Universitária de debates nacional e colaboradora da ELSA UMinho.

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