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A figura pública e as suas repercussões: o caso Rui Veloso

A revista Notícias Magazine, um suplemento do Jornal de Notícias e do Diário de Notícias, publicou, na última edição, do passado domingo, uma entrevista a Rui Veloso. Partindo deste exemplo, falemos em ter uma carreira e quais são os frutos que daí se colhem.

Ser conhecido pode tornar-se um verdadeiro problema. Aquela entrevista demonstra isso mesmo. Aqui, vemos uma faceta de um artista desacreditado da fama que conquistou. Uma pressão com a qual tem problemas em lidar. Quando abordando essa questão, o cantor revela:

“(…) talvez não estivesse preparado para me tornar figura pública. Nem sei se alguém está: uma amiga minha mandou-me uma entrevista do George Clooney com um recado: ‘Vê lá se isto não é o mesmo que se passa contigo…’ E era: o tipo também se isola, também tem dificuldade em adormecer, com a cabeça sempre a trabalhar, enfim, aquelas coisas todas…”

De facto, a exposição social não é fácil. Tal como refere, na mesma peça jornalística, uma ida ao teatro “com uma amiga” pode valer uma invasão de fotógrafos, logo, causando impacto nas revistas. Lidar com a invasão do espaço pessoal e, inclusive, íntimo pode ser uma das consequências imediatas. Neste sentido, pense-se nos níveis motivacionais de uma figura pública de notoriedade social, que necessita de estar, em certa medida, protegida, a cada vez que sai do seu lar. Mais, na própria vivência do quotidiano, os impedimentos de ter uma vida normal, diga-se de passagem, juntamente com a falta de consciência das realidades no campo. Consequentemente, assiste-se a uma adesão à mentalidade da preservação, quando as figuras públicas deviam dinamizar e promover ideias também.

Quanto àquele aspecto, Rui Veloso revela-se excepcional. A sua atitude mostra alguém que não consegue ficar indiferente àquilo que assiste, especialmente, na área que lhe é mais querida: a música em conjugação com a Cultura. Sobre o panorama cultura luso, a sua ideia vai ao encontro de uma certa alienação a que se associa um, cite-se, “novo-riquismo”:

“Em vez de entrarmos no jogo cultural europeu, ficamos a jogar sozinhos… Parece-me que, por cá, ainda não se percebeu que a cultura, e a cultura que poderíamos mostrar a quem vem de fora, nas suas mais diversas manifestações, é uma indústria que factura muito. […] Mas cá por Portugal, […] aquilo que temos para mostrar é a Casa da Música ou o Museu dos Coches, edifícios de regime mas cuja efectiva utilidade cultural é, no mínimo, discutível. Digo eu. Parece-me tudo resultado de um evidente novo-riquismo…”

Ou mesmo na música em si:

“Hoje, aplica-se a receita da grande superfície, de encher chouriços… Pior: quem tem responsabilidades nessas matérias parece partir do princípio de que só é bom aquilo que vem de fora. Acontece que a música portuguesa está aí, com muito bons músicos, com óptimos projectos, mas que praticamente não são divulgados, nem nas televisões (que se recusam, que parecem até apostadas em só dar lugar aos piores, até com apoio de instituições) nem nas rádios…”

Já se pensou, por acaso, como pode ser eficaz a acção de um músico sobre uma sociedade? Em Setembro, enquanto editor do jornal ComUM, da licenciatura que frequento, demonstrava, com a minha colega editora, precisamente a ideia de como Paulo de Carvalho, com ‘Depois do Adeus’, ou Zeca Afonso, com ‘Grândola Vila Morena’, contribuíram para mudar a estrutura social portuguesa, dada a sua acção democratizante sobre Portugal. Tendo em conta a fácil propagação de um conteúdo musical, basta ver como um tema musical pode pensar o social. E aqui, não devem ser esquecidos, mais actualmente, Pedro Abrunhosa, com a emigração, em ‘Quero Voltar para os Braços da Minha Mãe’, ou, também com a mesma temática, Tiago Bettencourt, em ‘Aquilo que Eu Não Fiz’.

Acontece que denota-se, nos dias que correm, uma crescente mediatização em torno do voyeurismo público (sobre o espaço público, entenda-se). Basta ver como o jornalismo propicia a ascensão das celebridades instantâneas e das celebridades mais marcantes, que procuram, ao máximo, lutar por uma auto-preservação, esquecendo a possibilidade de poder transmitir ideias às massas, uma vez que lidam com elas. Porém, o modelo do jornalismo volta-se, sobretudo, para os interesses de um certo público-alvo, fazendo com que se peque pela falta de apostas na diversidade. Também Rui Veloso reflecte neste aspecto, particularizando a parte radiofónica dos media:

“As rádios, em vez de se diferenciarem, procuram ficar cada vez mais iguais umas às outras, com a mesma programação, o mesmo tipo de target [público-alvo], não respeitando a diversidade de gostos de quem ouve. Antigamente, a rádio tinha uma importância enorme na formação – eu aprendi imenso com a rádio. Hoje, aplica-se a receita da grande superfície, de encher chouriços… Pior: quem tem responsabilidades nessas matérias parece partir do princípio de que só é bom aquilo que vem de fora.”

Relativamente ao teor da entrevista em análise, deve ser tido em consideração que se trata de um objeto jornalístico algo pessoal. Logo, para começar, o entrevistador, que se dirige ao artista de forma coloquial e próxima, tratando-o por “tu”, por alguma proximidade desenvolvida por ambos. Depois, o local onde se concretizou aquela – em sua casa. Por fim, a disposição consequente. A verdade é que também estes factores ajudam a que o entrevistado revele mais detalhes e até faça notícia. Não deixa de ser, porém, uma conversa com qualidade, mostradora de um lado mais próprio, pessoalizado, íntimo, até, de um dos músicos mais conceituados de Portugal. Não deixa de ser, também, uma das figuras da música que mais transmite ideias sobre ela – quantos músicos falam sobre música, por terras lusas?

Na minha óptica, parece interessante atentar nestas palavras: “(…) ninguém tira um curso para ser famoso, para aprender previamente a lidar com isto.” Provavelmente, está na altura de a classe das figuras públicas se juntar e formar fóruns, promovendo debates, algo que os media também podem tentar concretizar, de forma a debater e reflectir sobre estas questões. Falta pensar o que faz realmente uma pessoa, enquanto figura pública, qual o papel do protagonismo, regulação possível de situações extremas, como se quer passar imagens aos cidadãos, possíveis estratégias de combate a fraudes e escândalos, articulação com a Cultura…

Enquanto cidadão, algo pensador, realço o conceito de fama. Se se quiser desconstruir a palavra, podemos a chegar a duas partes: ‘fam’, de ‘família’, e ‘ama’, de ‘amar’. Amar a família. Uma tentativa de gerar uma espécie de segunda família. O que pode justificar isto? O sentimento desmesurável que acaba por ser desenvolvido por várias pessoas que se querem aproximar, que se querem sentir acarinhadas, que querem exibir o seu apreço pelo trabalho desempenhado por uma dada figura famosa. Olhando um pouco o extremo, veja-se a adesão planetária da estrela de pop e hip-hop Justin Bieber, um jovem canadiano que ficou famoso, após ser interpelado pelo cantor norte-americano Usher, pelos seus vídeos no YouTube. Como o público tenta rodeá-lo quando sai à rua. Tendo em conta a recorrência a um perfil do extremo, este caso particular representa a ascensão da música rentável, do instinto mais comercial da música, da “massificação”, que, aos olhos do artista português, os portugueses apreciam – exemplifica aqui “a época em que os festivais parecem correr uns atrás dos outros”. Contudo, a fama é mesmo isso também: uma tentativa de massificar, tornar essa segunda família gradualmente maior, senão mesmo da forma mais rápida possível.

Após este olhar sobre aquele conjunto de declarações à Notícias Magazine, atinge-se uma conclusão, que o próprio Rui Veloso admite – tudo deriva de uma condição. “Se não houvesse crise de valores, não haveria crise económica. É mais o amor ao dinheiro do que o amor ao próximo.” A vontade de ascender esquece a vontade de ascender com qualidade, fazendo com que não só o trabalho das figuras públicas seja, muitas vezes, meramente rentável, mas também exponha uma imagem cada vez mais quantitativa da figura pública – o que tem, como tem, o que faz, como consegue,… – do que qualitativa – qual o contributo para a sociedade, de que forma faz mudar mentalidades, o que pretende alcançar. Falta mais concentração e menos concentração, isto é, mais atenção e menos desatenção nestas problemáticas. Atentar mais na essência das coisas e menos na sua superficialidade. Dar mais espaço ao reconhecimento puro. Promover uma máxima que proponho: “menos massificação, mais atenção”.

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Pedro Ribeiro

Nascido em 1996, por terras vimaranenses, tem como principal ocupação os estudos na licenciatura de Ciências da Comunicação. Apreciador das relações Media e Sociedade e Sociedade e Cultura, o seu objetivo passará por se especializar na área do jornalismo. Nesse sentido, conta com várias colaborações, a desenvolver atualmente, de forma simultânea: para o jornal 'ComUM', no qual é redator nas secções de Cultura e de Sociedade, para o jornal 'Académico', juntamente com a sua participação semanal no 'Repórter Sombra', onde opina nas áreas de Sociedade, Cultura e Política. No seguimento desta última área, milita na Juventude Socialista, tendo-se revelado publicamente ativista da candidatura de António José Seguro. Além disso, desenvolve um certo carinho pela sociologia, a que se junta a filosofia e, ainda, uma enorme paixão por viagens.

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