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CulturaMúsica

A festa do Avante

Durante 3 dias, um fim de semana, um grande número de portugueses desloca-se até à margem sul do rio Tejo para fazer parte de um acontecimento cultural que não tem par. Acontece no primeiro fim-de-semana de Setembro, na Quinta da Atalaia e é conhecida como a festa do Avante. Antes de mais convém explicar o que está nos bastidores desta manifestação tão peculiar. O Avante é o jornal do Partido Comunista Português e, em 1976, ocorreu o grande boom cultural do país. Foi algo de inédito, nunca feito e que levou milhares de pessoas ao recinto da antiga FIL, na Praça das Indústrias, para fazerem parte da primeira festa deste tipo.

Inicialmente era conotada com um evento partidário, mas foi conquistando todo o tipo de público e este ano comemorou 40 anos de existência. Toda a construção da complexa estrutura é desenvolvida por voluntários que oferecem a sua força de trabalho e o fazem em prol de muitos, como é defendido pela esquerda. De Álvaro Cunhal a Jerónimo de Sousa, a festa é oficialmente aberta pelo comício e é, igualmente, a rentrée política do partido. Durante sexta, sábado e domingo, desfilam inúmeras personagens, anónimos e conhecidos que têm como objectivo animar quem vai até ao recinto.

Para comemorar esta efeméride, este ano o recinto alargou-se e esticou-se até à Quinta do Cabo, que é vizinha da Quinta da Atalaia. Este terreno é propriedade do Partido Comunista e foi adquirida com o auxílio de todos, com colectas que se revelaram positivas e úteis. Era uma ideia antiga que a festa fosse num local fixo e desde 1990 que se realiza no mesmo local.

É um acontecimento magnífico que só é possível devido não só à boa vontade dos que nela participam como também aos seus objectivos e à sua teimosia, o que é uma característica muito nossa, impressa no nosso sangue. Se não tivéssemos sido teimosos não teríamos conquistado os novos mundos do Mundo.

Cada um vive-a do modo que entende e a liberdade é total. O papel dos órgãos de comunicação social tem sido extremamente negativo ou por omissão ou por contar aquilo que se pode chamar de não-verdades. Há um total silenciamento do acontecimento que movimenta milhares de pessoas. Porém, nada como ir ver pelos seus próprios olhos e acabar de vez com os estereótipos e os preconceitos. A sua enorme dimensão e o êxito acabam por incomodar os anti-comunistas primários e os Velhos de Restelo.

Existem alguns factores que a tornam bastante apelativa. Realiza-se no início do mês de Setembro, quando o grosso das pessoas já regressou de férias, os jovens ainda não iniciaram o ano lectivo, sendo este o último festival antes do regresso, é barato, são 23 euros para os 3 dias e o bilhete pode ser comprado em inúmeros locais, o local é quase paradisíaco, o tempo está de feição, há muito por onde comer e beber e, mais poderoso ainda, há liberdade de movimentos e cada um faz o que entender.

Se uns cozinham, outros lavam a loiça e outros ainda recolhem os despojos. A festa é feita por eles, pelos invisíveis, os que ninguém vê, mas que são as peças fundamentais do tabuleiro e da jogada total. É uma aldeia gigante que funciona com todos os defeitos e todas as qualidades da vida moderna. São eles, os construtores que permitem a presença dos outros, dos visitantes e que fazem com que estes dias sejam inesquecíveis. São eles que irão desmontar aquela magia que se renova no ano seguinte. São eles as abelhas da colmeia onde não há nem zangão nem abelha rainha. São todos obreiros.

Muitos encontram-se, uma vez por ano, neste local descontraído e aproveitam as suas vantagens que são cada vez maiores. É o ponto de reunião, o local escolhido para matar saudades e colocar as conversas em dia. Outros, simplesmente, encontram conhecidos e dão dois dedos de conversa. Mas a festa é essencialmente cultural. A bienal tem seguidores fiéis, mas nos outros anos existem sempre exposições que podem ser apreciadas. Talvez a mais emblemática tenha sido a exposição fotográfica de Sebastião Salgado, que tem o condão de alertar para as condições precárias de vida e do trabalho. O ano passado o Professor Marcelo foi um dos visitantes e o seu local preferido foi a Festa do Livro, onde trocou algumas palavras com anónimos que o interpelaram. Este ano o estatuto de Presidente da República não lho permite. Por isso, ficou-se pela Feira do Livro dos jardins do Palácio de Belém.

É a altura da transmutação de muitas pessoas, dos menos jovens, com cortes de cabelo radicais, com roupas que raramente ousam vestir e com a cabeça liberta para cometer todo o tipo de exageros. É um certo regresso à adolescência. Como todas as festas existem alguns que as levam tanto a sério que precisam de apoio médico para aliviar a ” sede ” que os acometeu. Também existe um hospital de campanha e os primeiros cuidados são prestados de imediato. Nada de grave e nada que não aconteça em nenhum outro dos festivais mediáticos.

Pelos palcos desfilam todos os tipos de músicos e até existe um palco que tem como função divulgar os novos valores. Durante todos estes anos o leque tem sido ecléctico, músicos de todos os locais e tipos que não fazem esmorecer quem os aguarda. Nos últimos anos a estrela final tem sido a cargo dos músicos portugueses, a chamada prata da casa, funcionando como ouro, que ilumina a noite da despedida. Este ano a “difícil” tarefa coube aos veteranos Xutos e Pontapés que souberam mostrar a sua juventude e vitalidade em palco. São gerações de seguidores que os apoiam, que os acompanham e divulgam.

Fica sempre aquela pontinha de saber a pouco, de ter sido curto e de não se conseguir assistir a todos os concertos, mas a vida é assim, cheia de escolhas e insatisfações. Contudo uma coisa é certa, é uma festa que faz inveja a muitos e que ainda suscita muitas comichões e comentários muito pouco dignos, sobretudo de quem devia dar o exemplo.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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