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ContosCultura

A fénix

A vida dá muitas voltas e nunca sabemos o que o destino nos reserva. Quando fazemos escolhas na vida, queremos o melhor para nós ou aquilo que nos convém. Nem sempre é o mesmo. O imediato e o simples acabam por se sobrepor ao que é desafiante e complicado. Pensamos que conseguimos ultrapassar todos os obstáculos que se nos deparam, mas, perante o óbvio, tentamos e ficamos divididos. Nunca é fácil mudar, porque implica muitas alterações na vida de cada um. A vontade de fazer algo de novo, de diferente, leva-nos a descobrir novos eus que desconhecíamos.

Fiquei só. Nunca o desejei, nunca pensei que tal fosse acontecer. Estavam tantos planos a ser elaborados quando deixaram de fazer sentido. Viagens, cursos, filhos, vidas. O tempo não terminaria nunca, a idade não avançaria e a felicidade seria completa. Estávamos na fase de mudanças, aquele momento que percebemos que é o tal, que se deve avançar, que tem de ser. Novas propostas de trabalho, novos desafios, novas aventuras a serem vividas com todos os desafios e tempestades que isso possa implicar. Era um sol gigante que teimava em continuar a brilhar.

Ir para aquele país era um sonho de menina, uma ideia quase fixa e que me dava energia para o conseguir. Dediquei-me, inicialmente, à aprendizagem da língua e aos seus hábitos culturais. Eu sabia que, por muito que me custasse, teria de aceitar as diferenças e saber respeitá-las. Não me pareceu nada que não pudesse ser feito. Claro que quem trabalha naquilo que gosta acaba por não se sentir presa nem pressionada. Eu tinha escolhido uma profissão e estava, de facto, a trabalhar com gosto e entusiasmo. A compensação monetária também era boa e o equilíbrio estava encontrado. Muitas vezes trabalhava em excesso, como me diziam, mas eu nem o notava. O trabalho era estimulante e recompensador.

Como em qualquer história, há uma outra pessoa e, na minha, também aconteceu. Num dia, como outro qualquer, num momento impessoal e anónimo, cruzámo-nos na rua, à hora do almoço. Eu, sempre apressada, “queimei” um sinal vermelho. Coloquei o pé no passeio e choquei com ele. Ficámos frente a frente. Eu tinha atravessado a rua e ele estava parado. Parecia a cena dum filme do Woody Allen. Contudo, foi assim que realmente aconteceu. Pedi-lhe desculpa. Ele riu-se e disse-me que pensava que tinha sido atropelado por um Smart. Rimos os dois e fomos almoçar juntos. Acabou por se tornar um hábito regular e, ao fim de pouco tempo, descobrimos que não podíamos passar um sem o outro. Fabricámos uma refeição completa com os ingredientes que tínhamos à mão e passámos à sobremesa.

Tínhamos almas errantes presas num corpo sedentário. A idade dá-nos uma ideia tão errada de tudo mas, afinal de contas, ainda bem porque não trava o nosso ímpeto inicial. Queríamos tudo e íamos consegui-lo. Tínhamos a certeza. Tudo se alinhou, no nosso mapa astral, os astros, os cometas, os planetas e os seus aliados. Aquele X era o local onde estávamos. Nunca me tinha sentido assim tão realizada. Estávamos em sobreposição de vidas e o decalque estava mais que adequado. Era o tal momento.

Recebi uma proposta de trabalho aliciante e muito desejada. Era o país que eu ambicionava, aquele que fazia parte dos meus sonhos. Sempre gostei do frio e o clima não seria um impedimento para mim. Era o início duma nova etapa que estava pronta a abraçar. Ele fez questão de ir comigo à descoberta, aventurando-se num futuro profissional que sabia ser muito irregular. Mas foi comigo porque já não sabíamos viver um sem o outro. De início estranhei tudo. Os livros são pura poesia quando nos dizem como é que as coisas funcionam em determinado lugar. A realidade é tão diferente, mas a prática leva a uma percepção importante. Eu conhecia a língua, era a tradutora dela, mas o modo de vida não era fácil. Os países do Norte são como o clima, muito frios.

Por um mero golpe do destino, apareceu-lhe uma oportunidade de trabalho que o deixou verdadeiramente fascinado. Trabalhou afincadamente e, em pouco tempo o seu talento era reconhecido. Deixámos o quarto de hotel onde estávamos e alugámos uma casa à beira mar, num local com paisagem de postais de Natal. Num fim de semana decidimos atravessar a ponte e visitar o outro país. Era enorme e provocava uma sensação de infinitude tremenda. Parecíamos dois miúdos que saem de casa pela primeira vez. Tudo era tão limpo e asséptico que não parecia real. Mas funcionava e muito bem. O nosso espírito latino e moreno contrastava com o loiro e frio daquelas gentes distantes.

Éramos o bolo, cheio de açúcar, passas, amêndoas e pepitas de chocolate. Não precisávamos da cereja no topo, mas ela decidiu aparecer. Não sei explicar como foi, mas, inesperadamente, fiquei grávida. Talvez tenha sido devido ao facto de as casas serem aquecidas e andarmos meio despidos, de estarmos apaixonados e não dispensarmos o corpo um do outro. Ficámos surpresos, mas muito contentes. Num país como aquele, o nosso filho ia ter inúmeras oportunidades e vantagens.

Comuniquei à empresa porque queria deixar tudo bem claro e exposto. Ofereceram-me um fim de semana num resort magnífico. Não estava à espera. A taxa de natalidade era baixa e o nosso fruto era bem-recebido. Sentia-me acolhida e confortável. Estava enquadrada e era muito importante para mim, para nós. O resort era maravilhoso! Tinha uma vista deslumbrante, um ambiente aconchegante e estávamos os dois, ou melhor, os três, descontraídos. Fizemos os tratamentos, as massagens, as degustações, tudo aquilo a que tínhamos direito. Foi inesquecível e a semana seguinte ia ser enfrentada com segurança e mais força. Tudo corria como desejámos.

No regresso o cansaço tomou conta de mim. A gravidez dava-me muito sono, eu que até gostava imenso de dormir, parecia dominada por alguma coisa que me tirava a vontade e me governava. Fechei os olhos e já não sei contar o que se passou. Quando os abri estava num local estranho, cheio de aparelhos, de luzes incidentes e de pessoal de uniforme.

De início não percebi, mas depois fui tomando consciência. Estava no hospital. Só me lembro do bip da máquina e dos olhares fleumáticos dos médicos e enfermeiros. Após muita insistência contaram-me que tinha sido vítima de um acidente grave, mas que iria recuperar. Tinha uma perna partida e a cabeça ligada. Parecia o Frankenstein. Assustei-me. Comecei a chorar, porque percebi logo que tinha perdido o bebé, o meu preciso bebé que já fazia parte da minha vida. Estranhei ele não estar a meu lado. Perguntei por ele. Silêncio total. Igual à decoração do quarto. Um vazio, uma ausência completa. Não queria acreditar como um fim de semana tão agradável podia ter terminado daquele modo. Ele não tinha sobrevivido ao embate com o autocarro. Fiquei gelada.

Como seria agora a minha vida? Eu já estava no hospital há mais de um mês e tinha ainda um longo tempo para recuperação, um percurso de fisioterapia que se apresentava complicado e doloroso. Senti-me perdida e afastada de tudo. Foram incansáveis comigo. Excelentes profissionais, como era de esperar. Faltava-me tanto, faltava-me ele, faltava o nosso filho, faltava-me tudo. Nada os poderia substituir, nada me poderia acalmar, nada preencheria aquele vazio que se tornava cada vez maior. Tive todo o apoio necessário, mas o meu coração sangrava constantemente.

Na terapia aconselharam-me um animal de companhia. Escolhi um cão porque me obriga a sair de casa e a andar. Fiquei meia trôpega, mas dizem que vou recuperar. É tudo uma questão de tempo. Fisicamente até acredito que sim, mas o resto nunca o vou recuperar. A minha vida agora é outra, muito diferente e não foi escolha minha. Agora estou sentada na sala, com vista para o mar, com o cão aos meus pés, que me olha terna e docemente, a escrever este desabafo. Estou só, nunca o desejei, conforme já disse e as minhas feridas ainda estão muito abertas. Às vezes penso que eu também devia ter ficado naquele dia, a dormir, ao lado dele, daquele homem maravilhoso que deixou tudo e embarcou na viagem mistério comigo. Porém, noutros dias, como hoje, penso que se tal não aconteceu foi por uma razão qualquer.

É essa razão que eu continuo a buscar. Quero que tudo faça sentido, que eu me sinta útil, que a minha vida tenha sido poupada por um fim maior. Enquanto isso não acontece, passeio com o meu cão, caminho muito e tento comunicar com ele, o amor da minha vida que nunca irá deixar de me guiar enquanto eu for viva.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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