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A fábrica de fantasmas

Há muito tempo que não passavas por lá. Mas nesse dia, a caminho de algum sítio que não te lembras, passaste por lá e viste que estava fechada. Paraste e olhaste. A velha loja do teu avô. A velha ourivesaria da família. Estava fechada há muito tempo, com jornais nas vitrines e um ar de abandono triste, de abandono forçado, os vidros cheios de pó e pena, os jornais com datas muito antigas. Tocaste nos vidros, quase involuntariamente, talvez em busca das muitas memórias que me tinhas contado desse tempo feliz.

Tocaste nas portas de vidro e lembraste-te logo do interior. Era escuro, com móveis de mogno quase pretos que ocupavam todas as paredes, e embora tivesse vitrines por onde entrava a luz da rua, tinhas sempre a sensação que era noite lá dentro. Lembravas-te do chão de veludo verde, e das luzes brancas ténues que pareciam a cozinha lá de casa. Havia umas escadas que levavam ao piso de cima, mas a metade das escadas já tudo era negro como breu. Não havia muita luz, talvez por ser uma ourivesaria antiga, distinta e discreta, reservada a clientes de sempre, de confiança. Quase um clube secreto, era o que sentias sempre que te deixavam ir para lá. E como um clube secreto, aquela loja tinha maravilhosos segredos.

Um dia em que estavas doente e não foste à escola, o teu avô levou-te quase às escondidas – ou essa era a impressão que tinhas – para a loja dele.

“Vais ficar lá em cima, para o teu pai não te ver cá” disse ele, com um sorriso cúmplice e maroto. “E vou apresentar-te aos amigos lá de cima!”

Amigo lá de cima? Que amigos lá de cima?

Ele foi a um dos armários e tirou uma manta e uma almofada. Sorriu-te.

“Mas para isso tens de te portar bem e ficar muito sossegadinha, pode ser?”

A fabrica de fantasmasSubiste as escadas negras da mão dele, a tua mão pequenina a apertar com força a mão velha dele, forte e sábia. Não conhecias mais nada para além da metade da escada, com medo dos monstros das histórias. Mas naquele dia subiram até lá acima, até uma outra sala que não tinha chão de veludo verde, era só madeira escura. Era enorme, linda e vazia, pensaste logo nas histórias de festas das princesas, e tinha um sofá vermelho num canto.

“Ficas aqui descansada, deitadinha no sofá”.

O teu avó pôs a almofada confortavelmente encostada a um dos braços do sofá. Deitaste-te, e ele tapou-te. Depois, sentou-se ao teu lado e pôs a mão no teu braço.

“Antigamente isto era uma fábrica de brinquedos, sabias?” fizeste que não com a cabeça e abriste muito os olhos e a boca, encantada com a história. “Mas é verdade! Se olhares com atenção, às vezes eles ainda cá aparecem.” Beijou-te a testa e saiu da sala.

Olhaste com atenção durante muito tempo. Eles não apareciam, e tiveste medo que não gostassem de ti. “Não conto a ninguém!” disseste alto, com esperança que eles te ouvissem e aparecessem.

E quando estavas quase a adormecer, ouviste o primeiro barulho. Era baixinho, mas sabias que era o barulho de uma fábrica, de coisas a construir. E viste o primeiro vulto segundos depois. Um senhor a trabalhar na madeira, a fazer um boneco. Um pinóquio! E depois outro senhor. E mais outro! Muitos senhores, todos diferentes, de cabelos grisalhos ou castanhos ou loiros, uns com carrinhos e serras, outros com bonecos e martelos, alguns com casas de bonecas e pequenos pincéis. Levantaste-te logo, mas devagar, com medo de os assustar. Ficaste sentada no sofá, a olhar maravilhada. Ouvias como eles falavam uns com os outros, “os olhos pinta-os azuis, Sebastião” dizia um. Ou como o senhor que estava a construir o boneco ajudava o dos carrinhos a fazer umas rodas de madeira com uma lixa. Ou como o senhor das marionetas te sorria. Te sorria e piscava o olho.

Eram fantasmas, tu sabias. Mas sabias que os fantasmas eram bonzinhos, não tinhas medo nenhum. Sorriste de volta.

E foi quando a viste.

Não devia ter mais de dez ou onze anos, a mesma idade que tu. Tinha a pele muito escura e uns canudos pretos. Sorriu-te: “Queres brincar?”

Levantaste-te a correr. Ela abriu muito os olhos, contente, e fugiu para se esconder naquela fábrica fantasma absolutamente maravilhosa. Correste atrás dela, às gargalhadas, entre as mesas fantasmagóricas que ocupavam a sala toda, entre os senhores que vos sorriam, feitos de nuvens e nevoeiro, e se desviavam para vos deixar correr. Espreitavas, com a tua nova amiga, tudo o que eles estavam a fazer: aviões, motas, animais. Querias tocar, mas sabias que não podias, ou que não devias.

“Este é o meu pai, e eu venho com ele trabalhar” apresentou-te ela, a sorrir, um senhor negro e simpático, com ar cansado mas feliz. Não desviou os olhos do trabalho para te cumprimentar, era um homem com uma missão, e a casa de bonecas que estava a fazer pareceu-te fantástica e linda. Será que existia de verdade?

“Anda” disse ela, e levou-te para um cantinho que nem tinhas reparado, e que estava cheio de caixas. Abriste a primeira: estava cheia de brinquedos. Seriam aqueles brinquedos que os fantasmas estavam a construir? Abriste as caixas. “Posso?” e depois da confirmação dela, tiraste as bonecas de trapo, os peluches, os jogos de mesa, os fantoches. Tantas coisas novas! Brincaram a tarde toda, tu encantada com os brinquedos e a fábrica, e ela encantada com a amiga nova.

Mas de repente, sem aviso, começaram a desaparecer. A fábrica foi-se fazendo mais transparente, até não sobrar nada a não ser a tua lembrança. A menina, de quem nunca soubeste o nome, sorriu-te, e desapareceu também. Olhaste para todos os lados. Não havia mais nada, mais ninguém. E quando o teu avô entrou na sala, percebeste.

Assim que ele entrou, olhou para todos os lados, para os brinquedos no chão e o cheiro a cola e tinta, e sorriu. “Divertiste-te?” perguntou-te. Acenaste, ainda meio confusa. “Vamos para casa, que já é tarde?”

Deste-lhe a mão de novo, confiante, e olhaste para a sala por última vez. Viste uma das bonecas a acenar-te, e tiveste a certeza que era a tua amiga a despedir-se. Não sabias ainda que não a voltarias a ver, mas talvez ela já o soubesse.

Agora recordavas bem o aperto firme da mão do teu avô, do segredo que partilhavam juntos só os dois, da cumplicidade silenciosa que ele tinha criado contigo, e que continuou até depois da loja fechar e da fábrica desaparecer da tua vida.

Mas quando pensavas naquele dia, não sabias se tinha sido a febre, a tua imaginação de criança, ou se tinha sido real. Mas gostavas de pensar que tinha sido real, porque não? Gostavas de magia, de lendas e de milagres. E sabias que a magia só era magia se não tivesse explicação.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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