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A ex-primeira-dama quer (mais uma vez) chefiar a Casa Branca

A Casa Branca não lhe é estranha. Hillary Clinton já lá esteve enquanto primeira-dama. E, desde aí, construiu um caminho político independente do marido. Foi senadora, perdeu a corrida presidencial contra Obama e acabou no cargo de secretária de Estado. Agora, pretende, mais uma vez, regressar ao 1600 Pennsylvania Avenue com um título que outrora pertenceu ao marido – o de Presidente dos Estados Unidos da América.

Em 2011, Hillary Clinton anunciava o abandono da carreira política, aquando do fim do seu cargo de secretária de Estado e descartava uma candidatura à presidência ou à vice-presidência dos EUA. “Agradeço muito que haja gente que queira que me apresente, mas realmente creio que chegou a hora do meu serviço público terminar”, disse. Contudo, em Abril de 2015, a (já esperada) candidatura da ex-primeira-dama foi tornada pública.

“Também eu me estou a preparar para uma coisa: para correr à Presidência dos EUA”, anunciou Hillary Clinton, depois de minuto e meio de vídeo protagonizado pelos cidadãos. “Os americanos têm lutado para recuperar dos tempos económicos difíceis, mas a bola ainda está do lado daqueles que estão no topo. Todos os dias os americanos precisam de um campeão e eu quero ser esse campeão”, acrescentou. Apostando numa mensagem de proximidade baseada na economia, justificou, assim, a sua candidatura e anunciou que iria percorrer os Estados Unidos da América para conseguir cada voto.

O “I’m in to win” (estou aqui para ganhar) ficou em 2008 e não foi resgatado nesta nova corrida à Casa Branca. A personagem principal da narrativa deixou de ser a pré-candidata e passa a ser os eleitores. “Fighting for us” (lutando por nós) é o slogan adoptado numa campanha que pretende ser distinta na imagem apresentada de Hillary Clinton, mas também nos resultados obtidos.

Em 2008, a estratégia falhou. A ex-primeira-dama perdeu a nomeação pelo Partido Democrata para o actual presidente Barack Obama. Em 2016, volta a ser uma das principais candidatas, uma das favoritas. É apoiada por estrelas da indústria musical e de Hollywood, como Katy Perry, Jennifer Lopez, Scarlett Johansson, Jesse Tyler Ferguson, Shonda Rhimes e Kerry Washington. Além disso, já em 2014, o actual Presidente dos Estados Unidos da América afirmava que Hillary seria uma “grande presidente”. Contudo, para ter o seu nome nos boletins de voto no dia 8 de Novembro de 2016, ainda tem que derrotar o senador Bernie Sanders.

Em Fevereiro, Hillary conseguiu evitar mais uma derrota no Iowa, onde ficou em terceiro lugar contra Obama em 2008. Venceu o seu adversário por duas décimas. A essa vitória juntaram-se outras. E, mesmo com a tripla derrota do passado sábado, dia 26 de Março, ainda continua a ser a favorita. Até à data, a ex-primeira-dama conta 1243 delegados e Bernie Sanders com 975. A diferença é ampla, mas para ganhar esta corrida a candidata precisa de garantir 2383 dos 4765 delegados Democratas.

“Não nasci democrata”

“Não nasci democrata”, disse Hillary Clinton no seu primeiro livro de memórias, Living History. Na sua casa de classe média, num subúrbio de Chicago, conviveu, durante as primeiras décadas da sua vida, com convicções conservadoras ligadas ao Partido Republicano. E, por influência do pai, foi, até aos 20 anos, republicana.

Uns anos antes de conhecer Bill Clinton, na universidade onde estudava, Wellesley College, ainda, apoiava os republicanos. E, no verão de 1968, chegou a trabalhar com o grupo republicado no Congresso, em Washington.

Nesse verão, Hillary tornou-se democrata. As leis sobre o direito civil, a luta pela igualdade da mulher e as dúvidas sobre a guerra do Vietname colocaram em causa a sua anterior posição e, no outono de 1968, decidiu escrever a sua tese sobre a pobreza.

Na década de 70, começou a sua carreira na política norte-americana, como assessora dos democratas na comissão parlamentar para a impugnação de Richard Nixon, na sequência do caso “Watergate”. Começou a marcar território e a dar nas vistas, mas ainda se dedicou a outras áreas como a advocacia, o ensino e a administração de uma grande cadeia de supermercados. Só mais tarde se dedicou de vez à política, sendo responsável pela reforma educativa do Estado, enquanto primeira-dama do Arkansas. Desde aí, tem vindo a defender o acesso à educação, os direitos das mulheres, das crianças, dos trabalhadores e a igualdade de oportunidades.

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A primeira-dama de Bill Clinton

Em 1969, conheceu o loiro alto que mudou o curso da sua vida. Foi na Universidade de Yale que conheceu aquele que viria a ser o seu marido e o 42º Presidente dos Estados Unidos da América, Bill Clinton.

Por ele abandonou Washington e passou a viver no Arkansas. Começou a dar aulas na Faculdade de Direito e, em 1975, casou-se com Bill Clinton. Três anos depois o marido tornou-se governador e Hillary primeira-dama do Arkansas.

Entrou num escritório de advogados e ainda foi administradora da gigantesca cadeia de supermercados Wal-Mart. A sua carreira consolidou-se e o seu peso político começou a ser considerado a partir da reforma educativa do Estado. Aliás, o seu peso era tal que, quando se candidatou pela primeira vez à presidência dos EUA, Bill Clinton afirmou que, se o elegessem, os americanos teriam “dois [presidentes] pelo preço de um”.

O marido foi eleito e Hillary tornou-se na primeira-dama dos Estados Unidos da América. Foi politicamente activa e chegou a ter o seu próprio escritório na Ala Oeste da Casa Branca. Em 1994, o Independent referia que “jamais uma primeira-dama foi tão poderosa”.

Ainda na Casa Branca, em 1998, Hillary viveu o maior escândalo da sua carreira pública. A causa foi Monica Lewinsky, a estagiária que teve um caso com o seu marido e que o levou à beira da perda do mandato. O seu casamento ficou abalado, mas ela manteve-se ao lado de Bill Clinton, dividindo a opinião pública. Contudo, a intensa humilhação não foi o fim de Hillary, que em Dezembro desse ano desfrutava de grande popularidade. Uma pesquisa de opinião revelava que tinha 67% da aprovação dos americanos.

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Uma carreira política a solo

Antes de sair da Casa Branca lançou uma candidatura ao Senado, começando, assim, o seu caminho político independente do marido. Foi eleita por Nova Iorque. Cumpriu dois mandatos. E, em 2008, anunciou a sua vontade em regressar à Casa Branca. Entrou na corrida, mas perdeu contra Obama, que acabou por a chamar para secretária de Estado. Hillary ficou, então, responsável pelos Negócios Estrangeiros.

Deixou o cargo em 2013. Passou os últimos anos a liderar a Fundação Clinton juntamente com o marido e a filha. E, em 2014, publicou um livro autobiográfico sobre a sua experiência política dos últimos anos, Hard Choices.

Parecia que a dose de escândalos já havia sido a suficiente para Hillary. Contudo, a polémica instalou-se, em 2015, quando se descobriu que a ex-primeira-dama tinha usado a sua conta de e-mail privada e não a do governo, enquanto ocupou o cargo de secretária de Estado. A oposição considerou que essa opção poderia ter comprometido a segurança do país. Exigiu que as comunicações fossem tornadas públicas e 7000 páginas do correio electrónico foram publicadas. No entanto, nessas páginas não estavam todos os e-mails, porque Hillary apagou aqueles que dizia serem pessoais.

Foi acusada de tentar impedir o escrutínio público. Pediu desculpas publicamente, dizendo que o uso de uma conta privada não havia sido a melhor decisão. E o escândalo acabou por assombrar a sua campanha.

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Não parece, contudo, que a polémica possa ser a causa da sua derrota. Oito anos depois da sua primeira tentativa, parece que o nome de Hillary Clinton pode mesmo estar nos boletins de voto em Novembro. E, depois de 44 homens, poderá vir a ser a primeira mulher Presidente dos Estados Unidos.

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Marisa Mourão

Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. É apaixonada por uma boa história. Ainda é das que acredita que os media podem ajudar na construção de uma cidadania ativa.

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