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A esquerda constrangida de Portugal e a sua falta de avançar

Atentando no nosso Parlamento, verificamos que, um pouco à semelhança do resto do continente europeu, a esquerda tem dificuldades em unir-se. E, face ao avanço da direita, como meio de defesa, os esquerdistas não conseguem suster-se-lhe. Assim, a que se deve este fenómeno?

Para começar, tocaria na vontade de oferecer. Quando um dado partido se funda, independentemente da sua ideologia, tem algo para entregar à sociedade civil, tem uma missão a cumprir. Deste modo, rege-se por um conjunto de valores que define e pretende partilhar, no sentido de lutar por um determinado objetivo, daí a união dos indivíduos em iniciativas partidárias. No caso da esquerda, a luta vai de encontro à proteção dos cidadãos, dos trabalhadores, das condições de vida, donde se ressalta a emergência do público.

Concretamente falando, trata-se de propor alternativas que variam entre si. Consideremos os três casos da maioria. No Partido Socialista (PS), a política é mais moderada e mais divergente, definindo-se como socialista-democrático. No caso do Partido Comunista Português (PCP), baseia-se nos ideais ligados ao comunismo. Juntamente com o Partido Ecológico dos Verdes (PEV) e com membros da Associação de Intervenção Democrática (ID), surge a Coligação Democrática Unitária (CDU). No caso do Bloco de Esquerda (BE), numa combinação de princípios associados ao maoísmo (Mao Tse Tung, da China, da segunda metade do século XX), uma corrente do comunismo, juntamente com o trotskismo (Trotsky, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, actual Rússia, do início do século XX), outra corrente do comunismo. O segundo e o terceiro são vulgarmente referenciados como extrema-esquerda e nem sempre conseguem aceitar moderações.

Na verdade, a ideologia e o traço caracterizador de um partido contribuem decisivamente para a formação de uniões e coligações. Ambos revelam-se aspectos estruturais da política aplicada por cada um deles, tanto que, no fundo, definem-na. Se, no caso da esquerda, defende-se, sobretudo, o progresso social como motor de uma sociedade, então, as facilidades de junção deveriam ser maiores. O que acontece é que, tendo cada um os seus interesses e os seus objectivos concretos, nem sempre isso acontece. No caso deste tipo de facções políticas, a vontade de oferecer uma ideia melhor, associada às suas raízes culturais, as guerras interpartidárias até acabam por ser mais visíveis. Já, por várias vezes, se assistiu a deputados do BE ou do PCP criticarem propostas do PS. Neste sentido, deve atentar-se na actuação mais radical dos primeiros dois em relação ao terceiro.

Na verdade, Portugal encontra-se numa situação económico-financeira frágil e impotente, o que faz com que se tente buscar uma solução eficaz com mais rapidez. Porém, os portugueses, em geral, um povo pouco crítico e interventivo, não dão importância ao panorama político, até porque consideram um tema maçudo. Muitas vezes, a culpa está na agenda mediática, onde prevalece o sensacionalismo sobre determinado caso específico (exemplificando: o caso Face Oculta), ou sobre uma determinada personalidade (exemplificando: José Sócrates), de partidos com maior adesão social.

Afinal, quais se apresentam os desafios da esquerda lusa?

O romper de divergências e a união pelo país e pelos interesses dos seus habitantes. É saber convergir os pontos em comum. Reunir, falar, deliberar, apontar. Ter em conta a ética, a ponderação, a aproximação.

Acima de tudo, agir de forma construtiva, mesmo com partidos de direita, porque a política é uma construção colectiva. Na Assembleia da República, assiste-se com relativa regularidade ao confronto entre partidos e não ao aplauso, quando as medidas agradam. Talvez houvesse um maior entendimento, uma maior compreensão e uma maior partilha de pontos de vista. Logo, mais sinceridade e consideração. Existe uma clara distinção entre a esquerda e a direita, que parece eternizar-se.

Com isso, trata-se de quebrar com ideias pré-concebidas e com estereótipos negativos. Existe uma ideia generalizada, retirada da experiência do dia-a-dia, de que os associados ao PCP, ou ao BE apenas falam por falar, não trazem conteúdo, nem têm força, apenas se querem exibir. Quando, na verdade, tentam fazer política, mesmo não tendo a massa partidária que têm partidos como o PS, ou, de direita, o Partido Social-Democrata (PSD). No entanto, o extremismo, pouco característico dos portugueses, ao contrário dos gregos, muitas vezes, também peca pela sua falta de receptividade, o que, a posteriori, gera climas de tensão e de desacordo.

Concluindo: falta pensar. Falta desconstruir a política. Falta dinamizar os nichos críticos e gerar massas críticas, pois, tal como afirma Vilfredo Pareto, sociólogo italiano do século XIX e XX, a informação circula entre as massas e as elites e entre as elites e as massas, o que faz com que a sociedade se reproduza. Falta aceitar mais e criticar moralmente menos. Falta atentar e compreender, incidir e ter força. Falta ter ética e moral, ao invés de moralizar. Falta seguir em frente.

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Pedro Ribeiro

Nascido em 1996, por terras vimaranenses, tem como principal ocupação os estudos na licenciatura de Ciências da Comunicação. Apreciador das relações Media e Sociedade e Sociedade e Cultura, o seu objetivo passará por se especializar na área do jornalismo. Nesse sentido, conta com várias colaborações, a desenvolver atualmente, de forma simultânea: para o jornal 'ComUM', no qual é redator nas secções de Cultura e de Sociedade, para o jornal 'Académico', juntamente com a sua participação semanal no 'Repórter Sombra', onde opina nas áreas de Sociedade, Cultura e Política. No seguimento desta última área, milita na Juventude Socialista, tendo-se revelado publicamente ativista da candidatura de António José Seguro. Além disso, desenvolve um certo carinho pela sociologia, a que se junta a filosofia e, ainda, uma enorme paixão por viagens.

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