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À espera

Alguém se cruzou com ela em passo apressado e lhe bateu no ombro. Murmurou um “desculpe” sem olhar. Ela não se mexeu. Várias crianças da pré-primária, em duas filas indianas e a seguir uma professora muito nova, passaram à volta dela, como numa brincadeira, tocando nela, ou rindo enquanto apontavam e comentavam. As últimas deixaram a fila e fizeram uma roda à volta dela, de mãos dadas, e saltando enquanto cantavam uma música com palavras de crianças que não falam muito bem. A professora voltou para trás com passos pequenos de corrida, pediu-lhe desculpa e empurrou-as, assertivamente, para o autocarro.

Ela não se mexeu.

Eram 10h da manhã de um dia qualquer de Novembro. O tempo começava a ficar frio, frio a sério, frio que pedia aquecedor, botas e casacos com pêlo. O sol brilhava com alguma força, e até nos aquecia a alma se nos deixássemos ficar de olhos fechados, mas o vento fresco e a luz fosca lembravam que o Inverno se aproximava. Por isso, aquela figura no meio da praça, com o sol a bater-lhe nos olhos claros e no sorriso, com o frio a arrepiar-lhe a pele e o vento a despenteá-la, ainda parecia mais peculiar.

Houve quem tirasse fotografias e comentasse aquela linda menina que não saía do lugar. Um senhor idoso e maluco tentou falar com ela, fazendo perguntas às quais respondia também. No fim, abraçou-a com lágrimas nos olhos e despediu-se emocionado, como se nunca tivesse recebido tanta atenção. Ela nem sequer o viu. Outras pessoas passaram, algumas a darem-lhe encontrões e a dizer asneiras, a culpá-la dos seus atrasos; outras quase a empurrá-la no meio da sua pressa. Um grupo de turistas ficou parado, a olhar e a dar-lhe moedas, a pensar que era qualquer espécie de espectáculo. Alguns aplaudiram, outros perderam rapidamente o interesse, sem entender o que se passava, e seguiram o seu caminho.

Ela continuava parada, e olhava para o horizonte, para o rio, para a outra margem. Olhava, concentrada.

Quando a noite caiu, um rapaz chegou ao pé dela e agarrou-lhe a mão. Entrelaçou os seus dedos nos dedos dela. Ela mexeu-se pela primeira vez, olhando para ele. Não notou que lhe doía o corpo. Não notou o frio. Só viu o sorriso dele, daquele rapaz desconhecido que ela nunca vira. Ela também sorriu.

“Acho que estive o dia todo à tua espera.”

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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