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A Diversidade do Amor

O nosso planeta tem milhões de anos. E nos últimos 100 anos, este planeta viu a sua maior evolução, desde sempre. A nível científico e tecnológico, todos os dias que passam são um capítulo cheio de possibilidades e novas descobertas. No entanto, seremos assim tão evoluídos no que diz respeito ao amor? Quando um casal se muda para a casa ao lado, aceitamos da mesma forma se for heterossexual ou homossexual? Esta repórter foi tentar descobrir esta realidade, tendo uma conversa com o Bruno e o Jorge, um casal, que, além de serem casados, são donos de um salão de cabeleireiro.

Repórter: Assumirem-se foi um processo complicado ou conseguiram faze-lo de forma natural? Visto que foram ambos no passado, acham que hoje em dia é mais fácil tomar esse passo?

Bruno: Na minha opinião, acho que o assumir é sempre difícil, independentemente da era ou dos anos que passem. A parte de nos assumirmos é sempre muito difícil. Para mim, não foi difícil a aceitação, mas, até conseguir dizer à minha família e abrir-me, foi muito complicado e levei anos. Pensamos nisto todos os dias e fugimos do nosso dia-a-dia para podermos ser nós.

Repórter: E sentes que hoje em dia, não é mais fácil?

Bruno: Não, porque, ao fim ao cabo, é algo que vai alterar o seio familiar para sempre. Aqueles sonhos que um pai e uma mãe têm de vir a ter os seus netos, por exemplo, para nós é algo muito complicado de vir a acontecer. Eu não senti muito isso, como tenho tantos irmãos, eles fazem esse trabalho todo por mim! Mas nem todos têm essa sorte.

Jorge: Para mim… Para mim foi um processo complicado. Não foi fácil. Assumi-me tinha cerca de 15 ou 16 anos e os meus pais têm uma idade avançada, onde a compreensão é outra. Ainda hoje, mais de 10 anos depois, posso dizer que continua complicado. No entanto, a única coisa que lhes pedi foi respeito, porque aceitar é uma coisa e respeito é outra. O aceitar é nós estarmos dispostos a aceitar a pessoa como ela é e não podemos obrigar ninguém a aceitar-nos como somos. Podemos, sim, é pedir a essa pessoa e a toda a gente respeito. Só isso.

Repórter: E sentes que é mais fácil ou mais difícil hoje em dia?

Jorge: Acho que isso nunca muda. Por mais que um pai ou mãe diga que está preparado ou que não se importa de ter um filho homossexual, porque, quer queiramos quer não, a sociedade está logo formada para a heterossexualidade. Ou então perguntavam logo em pequeninos, se os filhos já tinham namorados, na creche. E logo aí vem a diferença. Além de que falar no abstrato é diferente de quando se passa pela situação real. Acho que por mais anos que passem vai haver sempre alturas difíceis e cada caso é um caso. Uma coisa é se te chamarem maricas ou paneleiro na rua, mas, quando te chamam isso na tua própria casa, é diferente.

Repórter: Então e em relação ao casamento. Vocês já estavam juntos quando se deu a alteração da lei?

Ambos: Sim.

Repórter: Era algo que já pensavam em fazer ou a alteração da lei deu-vos motivos para repensar a vossa situação?

Jorge: Mesmo antes de sair a lei, eu queria casar e criar uma família minha. E se a lei não mudasse, faria como fazem muitos outros, se não casasse aqui, ia casar noutro país qualquer. Por isso, nunca seria uma agravante para a relação. Mas claro que fiquei feliz pela alteração, ainda bem que é aceite, para mostrar aos de fora e aos de dentro, que somos aceites.

Bruno: Em relação ao casamento, eu sempre tive o sonho de me casar, independentemente de ser com um homem ou uma mulher (porque tive a minha altura de dúvida como tantos outros). Claro que, quando me assumi como homossexual para mim, não para os outros, aí ainda queria mais casar. Entretanto, quando a lei saiu, eu mudei um bocadinho a minha opinião. Eu vejo o casamento como um contrato. Nós antigamente não tínhamos direitos nenhuns. Vivíamos juntos antes e, se acontecesse algum desastre, perdíamos o direito a tudo. Além de perdermos a pessoa que amamos, perdemos aquilo que construímos juntos. E essa foi uma das razões que nos levou a casar. Temos uma vida juntos, um negócio juntos e, se algo acontecer, é uma segurança para quem fica.

Repórter: E uma coisa é serem um casal de namorados, outra é serem casados no papel. Passaram por algum constrangimento por serem casados, por terem esse direito?

Bruno: Sim. Tivemos muita gente a perguntar, “Mas para quê casar?” Na minha própria família, por exemplo, a minha avó dizia: “Para quê casar, se estão bem assim só juntos?” Mas é mesmo por ouvir isto que tivemos ainda mais vontade de casar. Quando damos a notícia a alguém, a minha avó tem 92 anos, por isso, justifica-se ela dizer o “Mas porquê casar?”, foi casada três vezes e diz que se fosse hoje em dia nunca voltaria a casar, mas nós temos de casar. Porque se não for assim, não há forma de garantir o nosso património. Porque para homossexuais não existe a união de facto nem a pensão de viuvez.

Repórter: Mudaram-se os tempos, mudou muita coisa, têm muito mais a vosso favor, mas a mudança de leis não quer dizer que se mudem os ideais. Como o vosso dia-a-dia, como é ser homossexual em Portugal?

Bruno: Se existem bocas, só por trás, porque à minha frente ninguém me falta ao respeito. Porque a maneira como nós nos comportamos em público e como fazemos a nossa vida faz com que haja uma barreira e as pessoas respeitam-nos. O nosso estatuto profissional e a nossa forma de estar na vida também manda um bocadinho. Existem casos de miúdos que são ofendidos na rua diariamente e depois existem casos de pessoas como nós que nos sentimos muito bem a nível profissional, social e emocional e faz com que os nossos amigos tenham orgulho em nós, apesar de tudo.

Pessoalmente, acho que vivo como uma pessoa normal, faço a minha vida como uma pessoa normal, pago as minhas contas como uma pessoa normal (porque não tenho desconto por ser gay!) e trabalho 12 horas por dia, mais do que muita gente. Por isso, não acho que seja diferente, mas, realmente, na minha profissão dá-me é a ganhar, porque na nossa área de trabalho, os gays têm muito mais saída do que um hétero, até porque as pessoas procuram conselhos de beleza normalmente com gays. Mas acho que não reclamar de tudo e calar um bocadinho, vivendo nós próprios sem nos sentirmos diferentes, levamos a vida muito mais tranquila.

Jorge: Eu acho que Portugal não fez nada da especial só por si. Apenas foi ao encontro das leis da União Europeia. A diferença que eu noto mais é que eu antes era visto como um deficiente para o Estado e isso agora já não existe. Em termos sociais, se tiver de ser ofendido, as pessoas ofendem na mesma. Tal como outras orientações sexuais.  Não vejo um “ah ok, agora como já se fala, como já se vê mais na televisão, já não insulto nem gozo com ninguém.” Isto é como o racismo ou o machismo, são coisas que nunca vão deixar de existir.

Repórter: Bruno, já és assumido há alguns anos, sentes que há diferenças entre ser homossexual agora relativamente há 10 anos, por exemplo?

Bruno: Eu acho que há 10 anos era mais saboroso. (Risos) Isto fica um bocado mal de se dizer, que eu agora sou um homem casado. Era bom claro. Eu, há 10 anos, já era assumido, mas as coisas eram feitas mais sorrateiramente e a família só sabia o que precisava de saber, não envergonhávamos ninguém. Era diferente. Mas havia muita pressão para sermos algo que nunca fomos. Por causa disto, era uma pessoa completamente diferente. Era muito mais calado e sossegado. Hoje já posso ser o que realmente sou, de todas as maneiras possíveis. Mas, na minha opinião, hoje é tudo muito mais descarado, independentemente de ser aceite ou não, independentemente de ser homossexual ou heterossexual.

Acho que as pessoas se devem amar da maneira que bem entenderem, nos sítios próprios. Claro que há 15 anos, por exemplo, eu tinha de me esconder da minha própria família. Especialmente por respeito à minha avó. Tenho um grande respeito pela minha avó, que é uma pessoa que nasceu antes da 2ª Guerra Mundial e isto é algo que lhe fez muita confusão. No entanto, hoje aceita o meu casamento e é feliz, porque eu estou feliz. Nós só queremos fazer a nossa vida, sair com os nossos amigos, como pessoas normais sem o sexo constantemente a pairar. Porque é uma imagem que está sempre presente na discussão sobre a homossexualidade. E nós não somos sexo. Somos Pessoas.

Repórter: E para ti Jorge, quais são as diferenças que sentes, depois destes anos?

Jorge: O fruto proibido é o mais apetecido. Então, partilho a opinião do Bruno. Antes era tudo mais escondido. Não só para a família, mas também para o resto da sociedade. Era tudo à base do secretismo. Daí os sítios para gays. Os bares, os cruzeiros, os restaurantes, destinados à comunidade LGBTI. Apesar de não barrar ninguém à entrada. Se lá quiseres ir és bem-vinda, não há lá papel nenhum a dizer “Festa Privada”.

Pessoalmente sou mais bem tratado por terceiros agora, em relação a antigamente. Em relação à minha família, não. Sou mais respeitado do que era antes, acreditam mais em mim e consegui espalhar mais a mensagem de que a homossexualidade não é uma doença. Nós só queremos ser iguais, nem mais nem menos, só iguais. Ter direitos e deveres, ter um trabalho, uma casa, uma relação e filhos.

Repórter: Essa parte ainda está complicada.

Jorge: Sim, um bocado. Mas chegaremos lá.

Filomena Pires

De Faro e nascida no belo ano de 1992. Sou Licenciada em Ciências da Comunicação mas neste momento estou a formar-me numa especialização técnica em aplicações informáticas de gestão. Vamos lá a ver no que isto dá!

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