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O devastador desaparecimento dos grandes herbívoros

Tristemente, as estatísticas são assustadoras e vergonhosas, estima-se que, no ano 2013, 25.000 elefantes africanos tenham sido exterminados e que somente na África do Sul 1.100 rinocerontes tenham sido abatidos. A causa destes extermínios: o comércio ilegal do marfim, o cobiçado ouro branco.

A perda do habitat natural, os conflitos com o ser humano e, principalmente, a caça furtiva, reduziram em 95% a distribuição do elefante asiático e deixou os rinocerontes a um passo da extinção.

MG_adevastadoradesaparicaodosgrandesherbivoros_1Estima-se que existam apenas 50 elementos do rinoceronte de Java, 200 elementos do rinoceronte de Sumatra, o rinoceronte branco do norte conta apenas com cinco em todo o mundo (um macho que se encontra no final da sua vida e quatro fêmeas espalhadas entre o Quênia, os Estados Unidos da América e a República Checa), sem nos esquecermos do rinoceronte negro ocidental, considerado extinto no ano de 2011.

Estas estimações mostram a situação alarmante e lamentável do que está a acontecer com estes seres vivos. Não é sem razão que a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) estabelece na lista vermelha de espécies em perigo que os elefantes se encontram em perigo de extinção e os rinocerontes em perigo crítico de extinção. A pobreza, os debilitados governos corruptos nos países de origem destes grandes animais e a alta e cara demanda do marfim são os três factores chave que agravam mais e mais esta situação.

Os níveis de caça furtiva são alarmantemente altos e excedem as taxas de reprodução destes animais, já que o processo de reprodução destes grandes mamíferos é feito lentamente. A gestação nos elefantes demora entre 20 a 22 meses e no rinoceronte 16 meses e, ao longo da sua vida, cada fêmea de qualquer destas espécies normalmente costuma ter apenas uma cria. Sem dúvidas isto é uma grande agravante da situação, pois já vimos quantas espécies podem morrer ao longo de um ano.

Ao contrário do que podemos imaginar, os caçadores furtivos não são caçadores locais e tribais, que utilizam lanças ou pedras para a caça. Na realidade, são grupos organizados por grandes máfias, como é o caso de grupos que controlam o comércio ilegal de armas, ou de drogas.

Primeiro, estes caçadores localizam as manadas de elefantes (ou rinocerontes) a partir de helicópteros, para depois dispararem contra eles com armas de fogo, para seguidamente arrancarem-lhes as presas e amontoar os corpos, deixando-os a apodrecer no chão. Há alguns anos, no Parque Nacional de Bouba Njidah, nos Camarões, homens com snipers e granadas abateram-se cerca de 300 elefantes de uma só vez.

Estes extermínios devem-se ao preço do ouro branco, 30.000 dólares é o preço exorbitante a pagar no mercado negro por um quilo de chifres de rinoceronte, sendo as presas destes animais mais valiosas do que o próprio ouro. Estes chifres são utilizados na medicina tradicional chinesa, assim como para a confecção de elementos decorativos na China e na Índia, ou até mesmo elementos decorativos religiosos, como é o caso das Filipinas, que usa o marfim para confeccionar estátuas de Santos e Cristos. Os mais implicados como países de origem, trânsito e destino no comércio ilegal do marfim são: Quênia, Tanzânia, Uganda, China, Malásia, Filipinas, Tailândia e Vietname.

Cerca de 9 toneladas de presas de elefante foram confiscadas nas Filipinas, no ano de 2009, o que representa aproximadamente 1.745 elefantes mortos. Contudo, a China é o principal consumidor de marfim africano, sendo 70% deste marfim enviado para este país, onde parece que em 2008 compraram-se 108 toneladas de marfim.

Em contraste com esta situação tão crítica e de declínio em relação a estes grandes mamíferos, devemos considerar que antigamente estes animais viviam espalhados por todo o mundo. Os elefantes, por exemplo, viveram pela Europa, Ásia, África e América até a um tempo ecológico bastante recente – há cerca de 30.000 anos na Europa e há 14.000 anos no continente americano. Rinocerontes de florestas temperadas habitavam na Inglaterra, enquanto que na Rússia viviam os rinocerontes corcundas, que tinham aproximadamente o tamanho de um elefante e sobre os quais os cientistas calculam chegar a pesar cerca de 5 toneladas.

Assim, os pontos do nosso planeta nos quais os grandes herbívoros vivem, nada mais são do que pequenos resquícios do que foi outrora uma população global. Das 43 espécies de mamíferos que pesavam mais de uma tonelada e que existiam no planeta, quando os antecessores do ser humano deixaram a África para se espalhar pelo mundo, apenas 8 espécies de mega-herbívoros restam. Lembremos, por exemplo, o caso dos mamutes que devido a vários fatores como à elevação das temperaturas e à consequente mudança na vegetação, para além da proliferação de seres humanos, acabou por extinguir-se.

MG_adevastadoradesaparicaodosgrandesherbivoros_2Ignoramos que o progressivo e rápido desaparecimento dos grandes herbívoros coloca em perigo a integridade estrutural e a biodiversidade dos ecossistemas e nenhum outro animal consegue substituir o seu importante papel. Estes mega-herbívoros são os “jardineiros” dos ecossistemas, favorecendo a regeneração das florestas e mantendo a biodiversidade de espécies. Por exemplo, nas florestas tropicais asiáticas, a grande quantidade de espécies vegetais impede que haja espaço suficiente para que todas as árvores germinem e cresçam, para além da pouca luz. A dispersão das sementes torna-se complicada, por causa da ausência de vento, pelo que a vegetação depende para a sua dispersão dos animais que consomem os seus frutos e espalham depois as sementes destes frutos, ao deixarem cair as sementes no chão, ou até mesmo defecando-as em lugares distantes do vegetal de origem.

Existem espécies de vegetais asiáticas e africanas que dependem unicamente dos grandes herbívoros para a sua dispersão, pelo que sem eles, estes vegetais desapareceriam e, por sua vez, os animais que dependem destas plantas ou árvores também estariam em risco e assim sucessivamente. Na Natureza, tudo está interligado.

Para além disso, estes grandes seres, com os seus passos, abrem clareiras nas florestas por onde outros herbívoros podem passar e onde predadores podem caçar. Há espécies de animais que co-evoluíram com esta mega-fauna e dependem totalmente deles, como é o caso dos pássaros que sobrevivem por se alimentarem dos parasitas que se encontram na pele destes grandes animais.

Nunca saberemos quantos processos ecológicos já se perderam, devido ao declínio da mega-fauna, mas não existe qualquer dúvida que todos os ecossistemas da Terra foram radicalmente modificados com a perda destes grandes animais. A eliminação destas últimas populações de mega-fauna são com certeza uma grande ferida no nosso Planeta Terra e mais tarde ou mais cedo pagaremos pelas consequências.

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Maria J Gutierrez

Bióloga de profissão, amante da natureza e de todas as suas formas de vida, desde os seres mais gigantes até aos mais pequeninos. Não há nada como estar com a família, descobrir o mundo, aprender, ler um bom livro e cervejinhas com os amigos.

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2 thoughts on “O devastador desaparecimento dos grandes herbívoros”

  1. Fiquei tão triste com este texto 🙁 Como é que o ser humano se acha no direito de matar qualquer outro ser apenas por decoração? Pior, levá-lo à extinção? Que triste mentalidade esta que temos, de que somos os donos do mundo, em vez de nos lembrarmos que na Natureza somos iguais.

    1. Obrigada Rosa, pelo teu comentario. Confesso que foi dificil escrever sobre o que está a acontecer com estes animais tao fantásticos. Ler e pesquisar sobre o assunto, impactou-me bastante. Senti tristeza e principalmente, muita revolta.

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