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ContosCultura

A curva da ausência

91 dias. Parece pouco tempo para tanto tempo sem ti. É uma eternidade que parece ter sido ontem.

2.184 horas. Não é suficiente. 131.040 minutos. Sim. Agora sim. Com números extensos, a dor parece ser reconhecida, validada, gritada:

“Há cento e trinta e um mil minutos que me dóis!”

Berros altos como se não existisse mais socorro. Gritos animalescos como se estivesse a ser despedaçada. Mas tudo dentro de mim. Os sons não conseguem fugir.

Abro os olhos e o quarto tresanda a solidão. Estou suada e quente. Absoluta e completa e desesperadamente sozinha. Está um escuro denso. Lá fora, não sei se o sol ou se a lua. Percebo que estou na cama porque sinto o edredão em cima, à minha volta, como se quisesse proteger-me, mas só soubesse sufocar-me.

Também, onde mais poderia eu estar?

Luz da mesinha de cabeceira. Um olho aberto e outro fechado. Comprimidos. Copo de água. Uma tigela de maizena.

O relógio mexe um ponteiro. 131.041 minutos.

Apago a luz.

Não quero ser.

*

Há muitos sons no silêncio: o mundo longínquo que continua lá fora; um mosquito intermitente que procura o meu corpo; o zumbido quieto da aparelhagem; o tic-tac austero do relógio.

Existirá um relógio único, escondido na natureza e no Universo, que possa voltar atrás na História? Um buraco negro oculto numa floresta em Sintra, uma brecha no continuum espaço-tempo?

99 dias.

2.376 horas.

Se quiser ser exacta, são mais horas. Morreste de manhã. Agora já é de tarde. Deixo-me ficar pelas contas simples.

Não sei se o que sinto é tristeza ou dormência. Dentro de mim é escuro, é escuro, e às vezes é um escuro que sufoca, outras é um escuro que não sente, que não toca, que não é. Estou vazia. Só sinto quando penso em ti.

A tua ausência é muito mais do que aquilo que consigo contar e pensar e dizer e saber e viver. E mais uma data de verbos que fazem parte da vida mas que calamos. Mais do que palavras. Há partes do que somos que nem sequer têm ainda nome. E tu és todo esse conjunto daquilo que é possível e impossível.

Escuridão. Não quero pensar mais, quero continuar a dormir e ausente. Uma borboleta que hiberna porque se transformou em traça.

Mas a minha cabeça teima em correr para ti. As memórias assombram-me. Tu assombras-me todos os segundos, principalmente por não estares. Ou será por estares tão palpável na tua ex-presença?

Como uma atrocidade de que me esqueço de esquecer e que continua a invocar em mim uivos descontrolados. Sim, comparei-te a uma atrocidade. Raiva porque atrocidade é isto, agora, a tua morte.

Como um membro fantasma. És como um membro fantasma. Uma pessoa-fantasma. Dóis-me entre os dedos, onde falta o roçar da tua mão; coço-me no pescoço, onde costumava sentir a tua respiração adormecida; sinto-te entrelaçado entre as minhas pernas, de cabeça encostada ao meu peito, pontas dos dedos a experimentar a minha pele, mas não estás, e o que me queima é uma pessoa-fantasma.

Volto ao meu escuro, ao meu silêncio forçado, às minhas dores e auto-comiserações. Ainda é muito cedo. Cedo, cedíssimo, madrugada, noite. Talvez não no tempo total do mundo, talvez não no tempo total do dia de hoje. Mas no meu novo tempo privado, o sol ainda não nasceu, e quem sabe se voltará a surgir?

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

2 Comments

    1. Sério, gostaste? Tá bonito e real? Obrigada!!! Sabes que foste tu que mais me obrigaste a “treinar” e continuar a escrever, com as nossas fanfictions ehehe

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