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A Crise da Zona Euro

O cenário tem fundo negro holístico para os que têm sido forçados ao resgate financeiro. As contingências actuais levaram a que países europeus como a Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Chipre pedissem ajuda externa. A somar já o terceiro ano consecutivo, esta crise, palavra que tem corrido quilómetros por terra, mar e blogosfera, não tem forma de recuar na maré. Economistas e especialistas acreditam que a capacidade de os políticos encontrarem soluções não mágicas, mas conducentes à revitalização da economia, é esfumada pelas repetidas tentativas fracassadas. O que é realmente preocupante é que parece não haver uma solução de verdadeiro alento à vista, nem tão pouco uma luz ao fundo do túnel. Fala-se cada vez mais da ruptura da zona euro e existirão já aqueles que pensaram o que escrever na sua lápide.

Há que remontar uma década e relembrar que a matriz da construção do euro é mais política que económica, ou financeira. O motor de arranque foi sempre transparente – a política. É essa a linha que ainda se mantém firme no seio da zona euro. O projecto de integração europeia marca uma fase de ruptura com a anterior II Guerra Mundial e com a entrada do mercado comum e da moeda única. A questão que se impõe, a cada dia que passa, é se a união monetária vai ser mantida e se a situação actual e futura vai ser suficientemente capaz de não derrubar os pilares desta união. O caminho para uma crise, cada vez mais profundo, é uma realidade. A saída da Grécia do Euro é uma possibilidade não descartada, que pode não ser uma mais-valia para outros mercados dentro da união. Alívio para muitos, a probabilidade de as moedas nacionais se reintroduzirem é ainda reduzida.A necessidade de se suprirem os conflitos entre os Estados deu origem à criação de uma zona com uma moeda única. Porém, existe um receio de que o nacionalismo volte a imperar, apesar de os estados-membros estarem em concordância com a continuidade do projecto europeu. Países como a França, Alemanha e Espanha são dos que mais beneficiam em permanecer com a moeda. Na realidade, todos os restantes países aderentes, inclusive os que estão a atravessar uma tremenda recessão económica, beneficiam em continuar com o euro, sobretudo pelo elo de ligação com os mercados externos.

Entremos na máquina do tempo até 1986, quando se deu um grande passo para Portugal, sobretudo após a consolidação democrática e o processo de descolonização. Portugal tinha pela sua frente um futuro promissor, carregado de oportunidades para se modernizar e crescer. Estava na hora de criar uma nova identidade para Portugal. O período crítico que o país ultrapassou, fruto da estrutura debilitada da economia, fez com que o passo fosse em frente e o pedido de adesão se consumasse. Era objectivo casar Portugal com a Comunidade e com a zona euro.

Foi a 1 de Janeiro de 2000 que oficialmente o euro entrou em circulação. Aterrou em solo europeu, numa esperança que encetava duas guerras mundiais e unia os 17 Estados-membros (Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Malta, Países Baixos e Portugal). Contudo, doze anos depois, a potência económica está a ser abalada pela crise económica e financeira. O objectivo primordial de 2012 é assegurar que esta aliança não é quebrada, sendo que os líderes europeus terão de reunir esforços nesse sentido. Um sistema monetário integrado e que facilite os negócios entre os países é a base que, desde sempre, sustentou e sustenta um bloco monetário que ainda está vivo e que muitos países querem que se mantenha deste modo, para que a união entre as nações seja mantida e o bloco político seja mais representativo. A Europa criou o “calcanhar de Aquiles” da desregulação do mercado. A falta de políticas fiscais, desde a criação do euro, levou a que, em 2008, o endividamento de alguns estados levasse à instabilidade dos restantes.

A Grécia, primeira lesada do colapso financeiro europeu, endividou-se em programas sociais, em pagamentos ao sector público e em empréstimos que solicitou para liquidar a dívida, mas atingiu um marco superior a 120% do PIB. Em efeito dominó, Irlanda, Espanha e Portugal atingiram níveis históricos de produto interno bruto, desde a segunda guerra mundial, e os governos estão com sérias dificuldades para conseguirem refinanciar as dívidas.

As tentativas fracassadas de estimular o mercado têm deixado os governos com poucas alternativas para animar a população. A crise fez estrear formas de protesto mais pacifistas e organizadas, mas cada vez existentes em maior número. A integração está a ser fortemente abalada por meio da insatisfação com a economia, que agrava cada vez mais a união política dos líderes europeus. A máxima de “fazer mais, mas fazer bem” não parece estar a resultar junto da população europeia que, descontente, grita “presente” em mais uma manifestação.

Apesar de todas as contingências, a probabilidade de o euro cair por terra não é assim tão provável quanto muitos podem pensar. O bloco está assente em pilares até agora estáveis, senso que o cenário provável com o fim do euro iria ser a valorização de algumas moedas locais que afectariam as exportações desse(s) país(es).

Ressalve-se que a falência do banco de investimento americano Lehman Brothers é um marco histórico que assistiu, de pé, ao desenrolar da crise financeira. Somam-se já 4 anos desde a queda de algumas instituições financeiras, apelidada de crise dos subprimes, um sistema de empréstimos hipotecários de alto risco concedidos às famílias “ninja” (famílias mais pobres).

Remontando à génese desta crise económica, que se iniciou em 2008 e que se prolonga nos actuais dias, importa indicar que o acumular das dívidas governamentais e, em consequência, a instabilidade das nações. A Grécia, Irlanda e Portugal são os países onde mais se tem feito sentir a crise económica e financeira. Recorde-se que a agência de classificação Standard & Poor’s chegou mesmo a classificar a dívida pública dos Estados Unidos da América com AA+, em vez de AAA como havia sido até este ano.

A situação está a agravar-se de tal modo que, perante o panorama de instabilidade na zona euro, o Governo suíço juntamente com o exército lançaram, no passado mês, o exercício militar “Stabilo Due” como forma de prevenção de eventuais problemas que surjam com o hipotético fim do euro, noticiou a CNBC.

Os dias são de extrema tensão e cada vez mais agravados ora por novas medidas de austeridade, ora por aprovações de orçamentos que somam a entrada de novas tranches, nos países que pediram resgate financeiro. Países como a Suíça já enviesaram uma forma de prevenção ao passo que noutros países, com agravantes maiores ou menores, os cidadãos continuam a manifestar-se e o corpo da polícia já quase não tem mãos a medir. Os dias vão passando degrau a degrau sempre com a esperança de não avistar um desmoronamento da zona euro.

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Rita Nunes Ferreira

Licenciada em Comunicação Social e pós-graduada em Estudos Europeus nasci neste mundo onde tudo/quase tudo se traduz em formas de comunicar. Tenho uma paixão nata pela escrita e um soberbo gosto pelo jornalismo em áreas diversas – lifestyle, sociedade, direitos humanos, política, assuntos europeus. Tendo sido ou não talhada para esta azáfama constante não existe o que possa demover. Todos os dias se justifica acordar e escrever mais um “bocado”.

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