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A Crise da Meia-Idade chamada Orçamento de Estado

Como diz sabiamente Heidi Klum, em Project Runway, “in fashion, sometimes you are in and sometimes you are out“. O mesmo é aplicado ao mundo que nos rodeia. No meio de tanta informação, há que saber separar o trigo do joio, o importante do acessório e o interessante do que deveria nem ter sido notícia. É disso que vive este espaço semanal, que pretende destacar algumas notícias, factos, curiosidades, pormenores, que marcaram a nossa semana noticiosa. Acima de tudo, pretende ser um espaço de discussão, onde espero que dêem uso aos vossos teclados e deixem a vossa opinião sobre os vários temas abordados fluir. Por isso, esta semana temos como:

Destaque

O romance O meu Irmão, do português Afonso Reis Cabral, recebeu esta semana o Prémio Leya, oferecido pela editora portuguesa anualmente a uma obra de ficção inédita de um escritor lusófono. O mais jovem ganhador da história do prémio, Cabral, de 24 anos, é trineto de Eça de Queiroz, autor de clássicos da literatura portuguesa como Os Maias e O Primo Basílio.

Os rascunhos de O Meu Irmão, obra que mereceu o galardão Leya, já remontam pelo menos a 2006. Na altura, Afonso Reis Cabral publicava um texto onde manifestava a sua indignação para com a prática do aborto. O seu irmão Martim nasceu um ano depois de Afonso. Antes ainda de conhecer a luz, Martim foi diagnosticado com Síndrome de Down. Neste texto, Afonso perguntava: “Com que direito é que a lei diz que se podem matar bebés deficientes, ainda não nascidos, até aos seis meses de gestação? E se tivessem tocado a campainha ao meu irmão Martim?”.

No relato pormenorizado sobre os comportamentos – afectados pela condição – do seu irmão, Afonso escreveu as seguintes palavras: “Umas vezes, quando volta do colégio, vem todo irritado, outras falador, outras macambúzio, outras indiferente, outras gracejando, outras saltitando. Vem sempre feliz. Tem uma rotina muito certa, o meu irmão Martim. Colégio, pão, televisão, banho, jantar, cama. No meio disto tudo, decide chatear-me um pouco, mas enfim… E depois, quando se deita, antes mesmo de fechar os olhos e de cair nos braços de Morfeu, diz, abafado pelos lençóis: ‘Bo noite, mano'”.

Oito anos depois, a afeição de Afonso Reis Cabral ao irmão é premiada com 100 mil euros. Talento, trabalho e muito humanismo.

Na sessão de anúncio, o presidente do júri, Manuel Alegre, disse que o livro “trata de um tema delicado que podia suscitar uma visão sentimental vulgar: a relação entre dois irmãos, um deles com Síndroma de Down“. O júri salientou que a realidade foi “trabalhada de uma forma objectiva e com a violência que estas situações humanas podem desenvolver” e que o romance faz “um retrato social que evita tomadas de decisão fáceis, obrigando a um investimento numa leitura que nos confronta com a dificuldade de um mundo impiedoso”.

“A realidade é trabalhada de uma forma objectiva e com a violência que estas situações humanas podem desenvolver, dando também um retrato social que evita tomadas de decisão fáceis”, diz o texto do júri. Os jurados destacaram também a “tonalidade lírica”, a “poesia” e o “humor” da obra. Algo que mostra que trineto de peixe sabe, claramente, nadar, ou melhor, escrever o mundo e as marcas que este deixa em si.

Fava

As dores de parto do Governo. Ou melhor, a dor de parto de qualquer Governo. Ou melhor ainda, os Orçamentos do Estado são sempre arrancados a ferros e isto ao longo de legislaturas, atrás de legislaturas, independentemente de ser o governo “laranja”, “rosa”, bi ou tri-color.

Este Orçamento do Estado para 2015 não foge à regra das dores de parto de qualquer Governo, embora com características e especificidades próprias. O primeiro OE pós-Troika, sem que, no entanto, se alivie a austeridade. Uma meta do défice orçamental muito baixa, tendo sido acordado os 2,5%, embora o Governo vá solicitar a Bruxelas o valor de 2,7%. Um OE a vigorar em ano eleitoral. Neste Orçamento do Estado para 2015, há claras derrotas, há evidentes derrotados, há contradições óbvias, há “tirar mais” do que “dar”, há a continuidade da austeridade e dos sacrifícios, já que o facto do programa de ajuda externa ter terminado não é sinónimo de fim da crise, bem pelo contrário. Há ainda “tiros no escuro” criados com expectativas económicas altas e que se afiguram de irrealistas. Há ainda a noção de que este OE2015, que deveria ser o espelho de uma estratégia e de uma ideologia política da acção governativa, não passa de um mero exercício contabilístico entre o “deve e o haver” que qualquer folha de Excel sempre fez.

A principal derrota é para todos os portugueses que esperariam alterações significativas ao IRS, como a redução, ou eliminação da sobretaxa, a alteração das deduções fiscais, ou a reavaliação dos escalões. O IRS, neste OE2015, saldou-se pela ausência da implementação da tão badalada Reforma Fiscal, por um desagravamento para as famílias numerosas, algo que mais não é do que justiça social, e o acréscimo de algumas despesas com dedução de IVA – calçado e vestuário, que é uma medida de combate à fraude fiscal. Derrotado saiu também o CDS, que, mais uma vez, perde o que sempre disputou desde início e sempre agitou como bandeira política, a redução da carga fiscal aos portugueses. Empurrar para 2016, quando há eleições legislativas em 2015, uma hipotética devolução da sobretaxa de 3,5% no IRS em função do resultado das receitas fiscais é, claramente, transferir responsabilidades políticas, sociais e governativas para quem vier a seguir.

Este OE2015 é ainda rico em incongruências. O desagravamento do IRC de 23% para 21% afigurar-se-ia como uma medida bastante positiva no sentido de promover a economia e proteger o tecido empresarial, não fora, contudo, o aumento da carga fiscal sobre combustíveis e viaturas, o aumento do IMI e o fim da cláusula de salvaguarda, o aumento dos preços da energia e o agravamento do IVA em alguns produtos de consumo. Quanto ao consumo, o IVA não sofre reduções, antes pelo contrário há agravamentos em alguns bens. Não é, por isso, a subida das pensões mínimas, do salário mínimo, ou da recuperação de 20% de massa salarial na Função Pública, face ao agravamento fiscal e do custo de vida, que haverá aumento do consumo. É, no fundo, dar com uma mão e retirar com muitas.

Por último, um OE2015 sustentado em perigosas premissas e expectativas irrealistas, alicerçado numa taxa de desemprego de 13,5% e num aumento do PIB em 1,5%, é algo deveras questionável. Não há um aumento significativo e sustentado do emprego, a economia corre o risco de novo efeito sistémico pela crise que ainda está instaurada, que se avizinha novamente, ou pelo incumprimento de défices orçamentais, como é o caso recente em França e o regresso da crise à Grécia. Neste cenário, o maior derrotado é o Governo que apresenta um OE2015 vazio de políticas públicas, da Reforma Fiscal, da Reforma do Estado (da qual nunca mais se ouviu uma palavra) e da sustentabilidade da Segurança Social.

Uma coisa é certa, há um dado em que Passos Coelho cumpriu: este Orçamento do Estado para 2015 está-se a lixar para as eleições.

Momento

Para a maioria das empresas de software de aprendizagem de línguas, o Espanhol é a nova galinha dos ovos de ouro. No entanto, existe uma empresa que pretende tornar o desejo de muitos fãs da série Game of Thrones em realidade. A Living Language criou um curso intensivo em Dothraki, uma linguagem inventada para ser a forma de comunicação da comunidade nómada também conhecida como “Blood Riders”.

O interesse por línguas inventadas, como o Klingon e o Elfico, pode parecer um objectivo sem sentido para muitos, mas, para aqueles que passam grande parte do tempo a criarem novas estéticas linguísticas, esta recente moda não é nada mais do que uma festa de revelação do que sempre fizeram em segredo. “Cada vez mais pessoas começam a falar publicamente sobre este hobby”, afirmou em entrevista Christophe Grandsire-Koevoets, da Sociedade de Criação de Línguas. “Não nos devemos esquecer de, até muito recentemente, a criação de línguas era encarada de forma suspeita, ou, no melhor dos casos, ridicularizada como uma forma de hobby sem sentido, sendo que muitos que gostavam de desenvolver esta actividade escondiam-no, com o medo de serem ridicularizados.”

Pela primeira vez na história da sociedade moderna, um Inventor de Língua foi contratado para um trabalho a tempo inteiro. A HBO contratou o criador de Dothraki, David J. Peterson, para escrever o diálogo de algumas das suas séries, depois deste ter ganho um concurso no site da Sociedade de Criação de Línguas (LCS), uma sociedade criada por si em 2007. Actualmente, a LCS criou uma área de empregos no Reddit e existe uma comunidade muito activa no Tumblr, que tem despertado muito interesse por parte dos linguistas mais tradicionais.

Estas línguas ficcionais começam a ganhar o seu espaço na cultura ocidental. Muito do seu sucesso deve-se ao facto de ser dada muita atenção à criação do mundo em que a língua é falada. Não é possível criar um filme, ou uma série sem que exista um passado à terra em que a acção se passa, nem é possível colocar um grupo de pessoas sem que seja imaginada a forma como eles viviam, quais são os seus mitos e o que os caracteriza. Isto é, junto da comunidade que gosta de ficção científica e de livros de fantasia não chega apenas juntar aleatoriamente sons e letras, porque é necessário que o resultado final tenha uma história.

Independentemente de olharmos para estas invenções como uma arte, ou uma ferramenta, tal como a linguagem que usamos todos os dias, alguns linguistas consideram a criação de novas línguas algo frustrante, por causa da acelerada extinção de línguas em todo o mundo. Mais de 80% das 5000 línguas existentes no mundo devem desaparecer durante o próximo século, segundo alguns linguistas.

Apesar de parecer uma competição, a verdade é que os criadores de novas línguas, mesmo que o façam como um hobby, têm um grande conhecimento destas línguas em vias de extinção, porque gostam de determinadas sonoridades, ou significados nelas contidas, e, ao inserir esses componentes nas suas criações, conseguem manter parte delas vivas.

Curiosidade

A crise de meia-idade é apenas um cliché. Pelo menos é esta a conclusão a que chegaram os investigadores da Universidade de Massachusetts Amherst, que consideram que os eventos transformadores e a realização da mortalidade podem atingir-nos em qualquer idade, obrigando-nos a reconsiderar tudo o que aprendemos, assumimos, ou pensamos ter como certo. Ou seja, entrar em crise e ultrapassá-la não é algo que tenha de acontecer apenas entre os 45 e os 55 anos e pode acontecer em qualquer altura.

Sou da opinião de que todos vivemos numa linha em que numa das extremidades o caos e na outra a rigidez. Se estivermos no lado caótico da linha, é normal que vivamos a nossa vida a alternar entre dramas e crises, sendo normal catalogar esse período de “crise da meia-idade”, para conseguires construir uma narrativa em torno desses momentos. Por outro lado, se formos demasiado rígidos nas nossas estruturas, limitarmo-nos com demasiadas regras e mantivermos todos os nossos sentimentos controlados, é possível que chegue um +período em que estes sentimentos se revoltem e se libertem da prisão em que têm vivido. Se isto acontecer durante os 45 e os 55, então é possível atribuir-lhe algum significado, chamando-lhe de “crise da meia-idade”.

Acredito, no entanto, que todos adoramos catalogar as nossas experiências com um diagnóstico, já que nos permite renegar os acontecimentos como se fossem um vírus que nos atacou, em vez de aceitarmos isso como parte integrante do nosso ser e como parte do nosso desenvolvimento sobre o qual temos de trabalhar. Não chegamos a adultos e paramos de nos desenvolver. Encontramo-nos, como é óbvio, mais aptos para responder às nossas circunstâncias, ao nosso ambiente e às mudanças no nosso corpo. Temos de continuar a aprender, a adaptarmo-nos e a trabalhar com os desafios que a vida nos apresenta, em vez de ficarmos desiludidos, quando um objecto imóvel não se molda à nossa vontade. A única certeza na vida é a mudança, portanto, se conseguirmos estar atentos ao que nos rodeia, planearmos o que pretendemos atingir no nosso caminho e aceitarmos que é impossível planear para tudo o que nos apresentado, é possível que todas as fases de crise que venhamos a viver sejam experienciadas de forma mais suave.

Da mesma forma que existem pessoas que experienciam demónios interiores, como a Ansiedade, a Depressão, ou a Paranoia, existem aspectos stressantes em todas as etapas de desenvolvimento: entrar na faculdade, encontrar um trabalho de que gostemos, mantermo-nos num emprego que odiemos, conflitos, procurar a cara-metade, desejar filhos, sentirmo-nos presos no papel de pais, preocupações financeiras, preocupações com a casa, solidão, relevância, significado, lutar para alcançar objectivos muito grandes, mais dinheiro, corpos mais fortes, uma vida sexual melhor, ou uma pele mais cuidada. Quando chegarmos à meia-idade, ou já chegámos à conclusão que nenhuma destas coisas é assim tão relevante e atribuímos-lhes diferentes significados, ou, então, decidimos que é algo que é de extrema importância, mas que somos um falhanço, porque ainda não as alcançámos.

Ou pior, ultrapassamos todos estes desafios, mas não conseguimos alcançar o prazer que pensávamos ir ter. Possivelmente, iremos viver uma crise, mas esta pode ocorrer tanto aos 25, como aos 55. Para além disso, a qualquer momento da nossa vida podemos ser desafiados a reconciliarmo-nos com a imagem que temos sobre o nosso Eu interior e aquilo que deixamos que se reflicta no exterior.

A “crise da meia-idade” não é uma certeza biológica, como a menopausa, ou a morte, mas, caso vivamos uma crise existencial, é essencial que sejamos capazes de saborear os resultados finais dessa crise. Com um pouco de trabalho, é possível que consigamos sentirmo-nos confortáveis na pessoa que somos, que sejamos mais autênticos connosco mesmos e que sejamos corajosos o suficiente para sermos quem somos na realidade, em vez de continuarmos a seguir os mesmos padrões de sempre e que não nos trazem a satisfação e a felicidade que procuramos.

Para além disso, não faz mal nenhum gastar o dinheiro da faculdade a comprar uma mota, ou um carro desportivo. Devemos aproveitar a vida aqui e agora, porque ela é muito curta.

Boas leituras, Leitores Sombra.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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