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A continuidade da Internet pode estar em risco? Clay Shirky responde…

Em 2012, o impacto da Internet no comportamento da sociedade civil foi mais uma vez tema de debate na esfera pública mundial. Na história, fica marcado o mês de Janeiro, como data da apresentação das propostas de lei do Congresso dos Estados Unidos da América, SOPA (“Stop Online Privacy Act” – “Pare com a Pirataria Online” ) e PIPA (Protect IP Act – “Prevenção às Reais Ameaças Online, à criatividade económica e ao furto da propriedade intelectual”), projectos-lei que geraram grande controvérsia. Para os responsáveis, as duas leis anti-pirataria informática têm como objectivo combater a pirataria online, especificamente as cópias ilegais de filmes e outros formatos de media. Muitos foram os sites que mostraram o seu descontentamento por considerarem que estas leis se tratam de um mecanismo de censura para controlar a produção e partilha na Internet, em todo o mundo.

Clay Shirky, escritor e professor universitário, tem-se dedicado ao longo dos últimos anos, ao estudo das várias ferramentas associadas à Internet, sendo actualmente considerado um dos mais influentes pensadores da web. Autor dos livros Eles Vêm aí: o Poder de Organizar sem Organizações” (2008) e Cognitive Surplus: Creativity and Generosity in a Connected Age (2010), Shirky, tem direccionado o seu trabalho à análise da evolução da Internet, observando a forma como os cidadãos se tornaram produtores e não apenas consumidores de informação.
Clay ShirkyNo seu livro, Eles vêm aí…, o autor assevera que a atitude de desconfiança dos media em relação à Internet, visível nos dias de hoje, lembra o impacto negativo que se percepcionou junto da classe social dos escribas aquando da invenção da imprensa. Na altura, apenas os escribas sabiam ler e escrever e com o aparecimento da imprensa esta realidade mudou. À semelhança destes, também as empresas de media temem perder a exclusividade na produção e partilha da informação. Na visão de Shirky, estas empresas não entenderam a importância da Internet e vêem a sua evolução como uma ameaça para o seu sector.

O também colunista do New York Times, foi um dos oradores na TED New York, onde explicou, numa palestra que bateu recordes de visualizações, por que razão as leis SOPA e PIPA são uma má ideia. Mais uma vez, o autor frisou a ideia de que as empresas dos media se sentem apavoradas com o acesso à Internet por qualquer cidadão e mais especificamente, à liberdade de partilha online, acessível a muitos. A seu ver, o que as empresas pretendem com a aprovação destas leis é arruinar a Internet, impedindo que cibernautas produzam e partilhem conteúdos, fazendo com que estes voltem ao sofá e que apenas encarem o papel de consumidores.
O projecto encontra assim um forte apoio nas grandes empresas de entretenimento dos EUA, tais como a The Walt Disney Company, Universal Music Group, a Motion Picture Association of America, a Recording Industry Association of America, o Wal-Mart, a Toshiba, a Time Warner e a CBS. Contra as leis-projecto estavam a Casa Branca, os Anonymous, a Wikipedia, o Google, o Facebook e o Tumblr. Face aos protestos gerados, os projectos-lei foram adiados.
Em entrevista ao jornal Público, Clay Shirky fez uma antevisão da evolução dos pontos essenciais da Internet nos próximos dez anos.

“Neste momento, a grande questão na actividade de grupo online é passar da conversa à acção colectiva, mudar de “concordamos ou discordamos” para “vamo-nos juntar e fazer qualquer coisa em relação a isto”. Podem ver-se sinais disso nos protestos globais em 2011 – na Primavera Árabe, nos Indignados, nos Occupy. Todos estes grupos usam essas ferramentas para se coordenarem, mas continuam a ser protestos. O que ainda não vimos é as pessoas desenvolverem filosofias políticas, não apenas um movimento de protesto. Na Primavera Árabe, o movimento era: vamo-nos livrar de Ben Ali e de Hosni Mubarak, mas depois houve os meses de pausa em que ninguém sabia como os substituir. Acho que o grande trabalho dos próximos dez anos é perceber como é que estas ferramentas se encaixam no grupo de pessoas que não quer que as coisas parem de acontecer, mas que quer fazer as coisas de outra forma.”

Nos últimos anos, o autor tem também dado atenção ao papel das redes sociais no comportamento da sociedade. Na opinião do professor americano, a educação social é uma das áreas que tem a ganhar com as contribuições da web. O Twitter e o Facebook são, segundo este, ferramentas que tanto podem ser usadas para assuntos banais como para assuntos de grande interesse social. Shirky realça também a importância do uso das redes sociais pelas empresas, que permite não só interagir com os seus clientes como promover os seus produtos.
O autor tem sido, assim, um defensor assumido da liberdade na Internet. As ideias que defende vão de encontro, como já referido, às várias formas de desenvolvimento e apoio à sociedade civil e à esfera pública. Numa era em que as novas tecnologias se estão cada vez mais a sobrepor aos media tradicionais, os efeitos sociais e económicos da Internet (onde as redes sociais e tecnológicas têm um papel fulcral) assumem um lugar cativo na agenda da esfera pública. Assim, esta não é uma discussão que acaba em 2012. Em 2013, ouviremos com certeza, falar desta problemática e de Clay Shirky.

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Raquel Loureiro

Sou uma amante incondicional do verbo comunicar licenciada em Ciências da Comunicação na Universidade da Beira Interior. O gosto pelo jornalismo começou bem cedo. Escrever sempre foi um hobbie, hoje é a minha profissão. Actualmente estou a tirar mestrado em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Gosto de viajar, conhecer novas culturas, novas perspectivas,outros mundos.

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