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A Condessa das Trevas – o mistério dos Bourbon

A Revolução Francesa continua a ser alvo de estudo por parte da Historiografia, mas não só. A literatura e as artes usaram-na também como cenário das suas obras. É o caso de As memórias de um Médico, de Alexandre Dumas, as óperas Andrea Chènier e O Diálogo das Carmelitas, ou até mesmo a famosa pintura retratando a morte de Marat, só para citar alguns exemplos. Todavia, a realidade parece superar a ficção, ou pelo menos, motivar o nascimento de lendas.

Uma delas é a da Condessa das Trevas. Com efeito, alguma historiografia defende que Maria Teresa Carlota, Madame Royale, filha mais velha de Luís XVI de França e Maria Antonieta, e que morreu, em 1851, perto de Viena, aos 70 anos, e enterrada na cripta da Igreja Castagnavizza em Görz, actualmente cidade situada na Eslovénia, não se trata, na verdade da princesa francesa.

Maria Teresa acompanhou os pais no cárcere, na Prisão do Templo, bem como o seu irmão Luis Carlos, Delfim de França, e a tia de ambos, a Madame Elizabeth. Após a execução de seus pais, em 1793, a de sua tia no ano seguinte, Maria Teresa, ter-se-ia mantido no cativeiro. No entanto, alguns historiadores defendem que, em 1795, Maria Teresa teria sido vítima de violação e ficado grávida, segundo algumas missivas de um amigo da família real francesa na corte espanhola. Para evitar o escândalo, teria sido substituída na prisão por uma meia-irmã, filha ilegítima de Luís XVI, de seu nome Ernestine de Lambriquet, e que teria ocupado o seu lugar.

Em Fevereiro 1807, chegava à cidade de Hildburghausen, na região da Turíngia, actual Alemanha, um rico casal, tendo-se instalado no castelo de Eishausen, em 1810. O homem apresentou-se como Conde de Vavel Versay e manteve em segredo a identidade da mulher, declarando apenas que nem eram casados, nem amantes. A vida em Eishausen era levada com discrição e as saídas da condessa apenas feitas em carruagem coberta e o seu rosto resguardado com um véu, daí o epíteto de Condessa das Trevas.

A Condessa das Trevas morreria a 28 de Novembro de 1837 e o seu corpo foi rapidamente enterrado, provavelmente sem serviço religioso. O Conde, mais tarde identificado como Leonardus Cornelius van der Valck, teria nascido em Amesterdão, a 22 de Setembro de 1769, tendo sido secretário na embaixada holandesa, em Paris, de Julho 1798 a Abril de 1799. Na altura do falecimento da Condessa incógnita, tê-la-á identificado como Sophie Botta, natural de Westphalia. De acordo com o médico que constatou a sua morte, Dr Lommler, teria cerca de 60 anos de idade. O Conde acabaria por morrer a 8 de Abril de 1845.

O misterioso casal desde sempre tem despertado interesse e especulação quanto à sua identidade. A hipótese de a Condessa das Trevas se tratar de Maria Teresa são em certa medida corroboradas pelas próprias desconfianças relativamente à Princesa que saiu da prisão, sobretudo após o seu casamento com o Duque de Angoulême, em 1799. Os retratos de Maria Teresa antes de 1795 e após o seu casamento mostram algumas diferenças, bem como algumas diferenças de comportamento social. Por outro lado, o nome de Sophie Botta não consta em nenhum registo paroquial em Westphalia.

Maria Teresa Carlota. Retrato de Alexandre-François Caminade, 1827.
Maria Teresa Carlota. Retrato de Alexandre-François Caminade, 1827.

Contudo, há algumas evidências que desmentem esta teoria. Foram encontradas cartas escritas pela Condessa das Trevas escritas num alemão correcto, que dificilmente uma princesa francesa dominaria. Além disso, não se compreende como é que Leonardus Cornelius van der Valck, oficial que lutou contra a monarquia francesa defendesse um membro da família real francesa durante mais de trinta anos. Como se não bastasse, há registos de Ernestine Lambriquet ter casado em França em 1810, falecendo três anos depois.

O mistério pode ficar de uma vez por todas resolvido. Apesar do Castelo de Eishausen terem sido derrubados, em 1887, os túmulos dos condes das Trevas, no cemitério, estão intocáveis. A 27 de Junho de 2012, a Câmara Municipal de Hildburghausen deu permissão para a exumação do corpo da Condessa das Trevas para permitir um apuramento científico da sua identidade, através de um projecto patrocinado pela Emissora Pública Alemã (MDR). Os resultados, derivados de um apurado estudo científico interdisciplinar que recorre a várias ciências, como a genealogia, a antropologia e a análise genética, serão acompanhados por um documentário televisivo.

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Pedro Urbano

Nasceu em Lisboa em 1979, tendo frequentado o antigo Liceu de Setúbal. Licenciou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é actualmente doutorado em História pela mesma Universidade, onde também concluiu o mestrado em História Contemporânea.

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