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A casa sem janelas – parte II

Jaime percorreu o terreno abandonado, o outrora relvado verdejante onde brincara em criança. Chegou à escadaria e olhou-a. Os anos secaram e fizeram o sangue desaparecer. Mas ele sabe que foi ali, naquele lugar exacto, que o seu pai o deixou, o abandonou, desistiu. A raiva a uma mãe que partira sem respostas. A raiva a um pai que desistira de si pondo fim à sua própria vida. A raiva, a raiva contida durante anos.

Os homens subiram as escadas e com pesados martelos partiram os tijolos que entaipavam a porta de entrada. Jaime por fim subiu as escadas, aproximando-se da beira para não pisar a memória que tinha do seu pai. Entrou e ligou uma lanterna e apontou-a para a escuridão.

Antes dos trabalhos de demolição da sua antiga casa, Jaime quis entrar primeiro e reservar alguns minutos para descobrir o que a casa ainda guardava. Era-lhe difícil respirar aquele ar pesado, bolorento, envolto numa espessa camada de humidade misturada com pó grosso que se elevava a cada passo que dava.

Jaime encontrou antigas fotografias a preto e branco, livros de folhas amareladas que resistiram aos anos, pequenas peças de porcelana e toda uma miríade de objectos que quis em vão reconhecer. Neles não encontrou memórias. Até as velhas fotos apenas mostravam rostos que esquecera, rostos sem alma. Revirou todos os cantos da casa fazendo os homens esperar impacientes.

Jaime não disse nem a si próprio que procurava uma razão por dele terem desistido há quase 50 anos atrás. Queria e precisava de respostas. Apenas encontrou pó, coisas sem memória e um ar húmido que não lhe deu nenhuma das respostas que procurava.

Saiu e fez por fim um sinal indicando que os trabalhos de demolição podiam prosseguir. Afastou-se devagar sentido as últimas memórias a extinguirem-se à medida que os sons de martelos pneumáticas se intensificavam. De repente ouviu-se um grito e as máquinas silenciaram-se. Alguém chamou o responsável. Encontrara algo que não quis destruir. Jaime deixou-se ficar já fora do portão tentando perceber o que se passava. Depois foi chamado ao sótão já despido de parte das telhas.

Foi então que viu, uma parede derrubada revelava um pequeníssimo espaço rectangular que sem qualquer acesso, quase uma parede dupla com não mais de 20 centímetros a separará-las.

Foi então que viu, um esqueleto comprimido naquele espaço. Nada humano, apenas ossos a desfazerem-se e um crânio a mostrar um buraco de bala por onde a vida saiu daquele corpo. A bala ainda descansava dentro daquele crânio.

Foi então que viu, as respostas que procurava. Aquelas eram as ossadas de sua mãe, a bala a última oferta do seu pai.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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