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A Casa da Menina

Quando era pequena, adorava passar pela casa da Menina, de mão dada com a minha avó, e vê-la a fumar à porta. Ela sorria-me sempre, de cigarrilha entre os dedos com unhas vermelhas, e eu acenava, como que enfeitiçada. A minha avó puxava-me sempre pela mão, de forma brusca, enquanto murmurava “que pouca vergonha”, mas a Menina não se importava e piscava-me o olho. Tinha um ar quase cigano, encostada à porta, robusta e alta, forte, “de anca parideira e peito grande”, como dizia a minha avó. A pele era muito escura, tinha um sinal pintado na bochecha esquerda, e o cabelo negro e liso, solto nas costas, com um ar autoritário de rainha. Eu dizia sempre que queria ser igual a ela quando crescesse.

Só depois da minha avó ser internada é que entrei pela primeira vez na casa da Menina. Tinha 12 anos e a minha mãe deixava-me brincar na rua enquanto ia cuidar da minha avó ao Hospital. Um dia, decidi deixar a curiosidade levar-me a melhor, e entrei. O fumo. É a primeira sensação que tenho quando me lembro da casa da Menina, é o imenso e intenso fumo que senti ao entrar, como se me estivesse a transportar para outra dimensão. Os meus olhos choraram até se acostumarem, tanto ao fumo e como à pouca luz. Olhei, procurando a razão da indignação da minha avó. Para mim, parecia um restaurante daqueles que a minha mãe costumava limpar e às vezes até me levava para ajudar. Tinha mesas e cadeiras de madeira, sem toalha, apenas com copos e cinzeiros para enfeitá-las. Reparei num bar ao fundo da sala, com garrafas de várias cores e uma mulher obesa de bigode atrás do balcão, com ar zangado. Os cortinados eram de leopardo, e as vozes gritavam de alegria e êxtase. Ouvia-se o tilintar de vidro, o bater dos copos, e alguns até a partir-se. Era um mundo novo, mais sonoro, mais colorido e mais alegre.

Só depois reparei nas raparigas que subiam e desciam as escadas no fundo da sala, ao lado do balcão, acompanhadas por vários homens. Usavam pouca roupa e sentavam-se no colo dos homens depois de lhes servir um copo cheio de algo, que, pelo cheiro que já tinha sentido às vezes ao meu avô, sabia que era álcool.

“Então, Aurora?” perguntou-me uma voz atrás de mim.

Virei-me e vi a Menina, em toda a sua beleza e robustez.

“Nada” respondi.

“Nada o quê, se eu não te perguntei nada?” Levou o cigarro à boca e sorriu-me.

Corei; tinha respondido antes da pergunta.

“O que é que vieste cá fazer?”

Agora a resposta: “Nada”.

“Espreitar, não é?”

Olhei para os meus pés. Se a Menina contasse à minha mãe, eu ia ter grandes sarilhos de certeza.

“Tens fome?”

Olhei para ela, que parecia falar a sério. Acenei; tinha muita fome.

Ouvi o vozeirão alto da Menina, chamando raparigas e gritando ordens, e a seguir fui levada para as traseiras, até um pequeno pátio cheio de cores de todas as flores que nele viviam. Sentamo-nos numas cadeiras brancas de ferro, em frente a uma mesa redonda também de ferro. Algumas das meninas seguiram-nos, trazendo pão, vinho e sardinhas. Sentaram-se também, embora se fossem levantando e desaparecendo – para atender os clientes, sei agora eu. Estavam vestidas com corpetes, saias sem blusas, blusas sem saias; soutiens e cuecas, em camisas de noite decotadas e algumas só com um lençol à volta do corpo.

“Deviam vestir-se decentemente, temos aqui uma convidada” gargalhava a Menina, e elas riam-se, mexendo-me no cabelo e apertando-me as bochechas.

Comi cinco sardinhas das grandes, de tanta fome que tinha, acompanhadas de pão. A Menina deixou-me beber um gole do seu vinho, e senti-me imediatamente alegre e quente. E até sonolenta, devo confessar.

A Menina levantou-se e fez um sinal a uma das raparigas – uma que até estava bastante vestida, em comparação. Ela pegou-me na mão e levou-me para dentro, e a Menina seguiu-nos.

“Ouvi dizer que querem ouvir um fadinho” anunciou alto, para a sala cheia de fumo onde eu tinha estado.

A sala calou-se por um segundo, e depois ouviram-se aplausos. A senhora obesa com bigode – que, agora via melhor, era um homem com uma cara até bastante feminina, um bigode fininho, e uns cabelos encaracolados pelos ombros – saiu de trás do balcão com uma guitarra. Tinha umas unhas compridas e pretas que eu me lembrava das histórias de demónios da minha avó, mas penso que até ela concordaria comigo se ouvisse; o senhor das unhas negras tocava como um anjo.

A Menina fechou os olhos e começou a cantar. Tinha uma voz imensa, que nos possuía a todos na sala, nos entrava na alma e nos deixava a chorar. De alegria e de tristeza, de tudo ao mesmo tempo. Era a beleza pura, e recordo-me da emoção que foi ouvi-la como se fosse hoje. Só de me lembrar, fico com pele de galinha e uma dor no coração, dessa saudade tão típica dos fados que a Menina cantava.

E agora, sou eu a dona da “Casa da Menina”, um bar exótico para cavalheiros, ao antigo estilo da Menina quando era viva. E hoje, tal como eu fui há cinquenta anos atrás, temos uma convidada muito especial. Ao ver a neta da Menina, uma pequena rapariga como eu era na altura, com os olhos negros fechados, e com uma voz tão parecida à da avó, não consigo sentir de outra forma a não ser através das lágrimas que me correm pelas faces.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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