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Crónicas

A Caminhada

Nem sempre o caminho para chegarmos às coisas boas, é o melhor, mas acreditem que chegamos sempre lá. Seja ter que subir uma montanha, ou atravessar um caminho estreito e escuro. A vida é um caminho, do qual andamos a maior parte das vezes perdidos. Faz parte. O caminho começa assim que abrimos os olhos ao nascer. A única vantagem que temos nessa altura é que temos alguém que faz a caminhada por nós, mas que depois nos ajuda a iniciar a caminhada, que nos dá as armas necessárias, nos ensina o que fazer com os obstáculos que vamos encontrar ao longo do caminho, que nos ensina a ser humanos e a ter força para continuar essa caminhada, mesmo quando estivermos para desistir. Os nossos pais são os nossos mentores, os nossos mestres. Sabem a melhor forma de explicar toda esta prepração que temos para a caminhada? Verem aquele filme “Bird Box” com a Sandra Bullock. A vida é isso mesmo, não sabermos para o que vamos, apenas estarmos a treinar o melhor que podermos para ultrapassar as adversidades. Vamos de “olhos vendados” para o desconhecido e esperar chegar ao fim. Os nossos pais são a Sandra Bullock da vida, eles é que nos dão na cabeça para aprendermos, para adquirirmos os valores, para nos sabermos levantar quando caírmos, mesmo que essas quedas nos partam alguma coisa.

Depois, os nossos pais confiam a nossa prepração a outras pessoas: os professores. Trabalham em equipa para termos a melhor ajuda possível. É como se fosse um reforço. Passamos anos a ter outra forma de ensinamento, para juntarmos ao que os nossos pais nos ensinaram. E acreditem, temos a melhor preparação possível, mas não pensem que vai ser uma caminhada fácil a tranquila. Não. Vamos chorar e muito. Vamos ter o coração partido muitas vezes. Vamos sofrer. Vamos ter obstáculos que nunca pensámos ter. Vamos ter de mudar muitas vezes de direção. Porém, não se preocupem, os nossos pais vão-nos ensinar como agir em todas estas situações, mesmo que não nos lembremos disso.

Após o último ensinamento que levavamos da escola, a segunda parte da caminhada inicia-se.

Somos nós. Só nós. Comecámos a caminhada para o qual nos prepáramos a vida toda. Lançados no caminho sozinhos, com várias direções à nossa frente, com barulhos estranhos à nossa volta, sem saber qual o caminho a seguir, o que dizer, o que fazer, mas calma. Fechem os olhos e respirem fundo, mesmo fundo. Quando abrirem os olhos vão ver que os caminhos já não são tantos, que os barulhos já são mais brandos e o nosso pensamento já está mais claro. Ao longo da caminhada vamos ter de fazer esta paragem na berma, beber água e fechar os olhos. Vão haver momentos em que vamos andar mais rápido porque estamos com força e alegria e outros dias, em que cada passo vai parecer uma tortura e vamos apenas desejar parar.

Nem sempre esta caminhada vai ser solitária. Vamos encontrar pessoas que estão na caminhada delas e que por acaso se cruzam no nosso caminho. Passamos a caminhar lado a lado. Contar cada história que vivemos, cada emoção que sentimos, cada dificuldade que tivemos ao longo da nossa caminhada. E essa pessoa passa a ser o nosso companheiro de viagem, mas nem sempre as pessoas ficam. Nem sempre as pessoas querem seguir o mesmo caminho que nós, querem viver o que nós vivemos e essa pessoa fica pelo caminho, pois muda de direção e nós continuamos a nossa jornada. Vão continuar a aparecer pessoas, vamos conhecer pessoas difernetes, com jornadas diferentes, e algumas, mesmo não caminhando ao nosso lado, mantêm o contacto connosco, preocupam-se connosco. Essas são aquelas pessoas que vão ficar para sempre ligadas a nós, vão ficar para sempre na nossa vida. Vão tornar-se pilares na nossa vida. Outras pessoas vão aparecer apenas para nos fazerem desviar do nosso caminho, vão querer apenas fazer-nos mal, mas não fiquem com medo. Os nossos pais ensinaram-nos tudo, lembram-se? Façam agora uma pausa, parem na berma, bebam um bocadinho de água e pensem nesse momento, vão ver que os nossos pais nos ensinaram a lidar com essas pessoas. Que nos avisaram que essas pessoas iam aparecer, que nos iam querer fazer mal, mas eles também nos prepararam com as melhores armas. E vamos saber lutar e deixar essas pessoas para trás. Mais calmos? Então, vamo-nos levantar e seguir a caminhada.

Ao longo desta caminhada, vamos perder algumas pessoas que faziam parte da nossa vida. Vamos sofrer, chorar e ficar desolados, mas lembram-se dos pais? Eles também vão estar nesta situação. Vamos parar e ficar mais tempo no mesmo sítio para fazer o luto. Temos esse direito. Vamos sair por um tempo do caminho, vamos procurar um abrigo na floresta e vamos ficar ali de passagem. Não é para sempre. É apenas para chorarmos o sofrimento, gritar a dor que tivermos cá dentro e acima de tudo relembrar a pessoa. Durante esta permanência na floresta, vai estar frio, vai chover e vai estar sempre escuro. Como se o inverno fosse a única estação que existisse ali. Vai-nos parecer tudo negro, tudo mau. Vai-nos parecer que o mundo caiu e a nossa caminhada vai terminar. Essa sensação vai aparecer muitas vezes ao longo da caminhada, mas nós vamos ganhando resistência. E quando isto tudo passar, vamos pegar na mochila e retomar o caminho. Vamos continuar a sentir dor, mas irá começar a ser menos a cada dia que passa.

Vamos encontrar pessoas que vão querer fazer a nossa caminhada, que vão estar ao nosso lado. Que vão carregar a mochila quando estivermos mais cansados, que nos vão dar água quando estivermos com sede e sem forças. Vamos sentir uma força interior muito maior, como se o universo nos tivesse enviado uma ajuda extra, ou melhor um bónus pela caminhada que fizémos. Vamos aprender imensa coisa, vamos rir, vamos brincar e vamos cada vez mais sentir esta caminhada muito mais leve, sempre com sol a brilhar na nossa direção, mas tenham sempre em atenção uma coisa: que nada nesta caminhada é para sempre. E essa pessoa vai-nos abandonar, vai-nos deixar sozinha de novo. Vamos gritar muito. Contudo, tenham calma. Parem a caminhada, saiam do caminho e procurem de novo um abrigo na floresta. E fiquem. Fiquem o tempo que for necessário. Nem que tenham de ficar uns dias aí. Apenas fiquem. Vão chorar, vão gritar, vão sentir-se de novo perdidos, como se sentiram quando foram lançados para a caminhada sozinhos, mas calma. Lembram-se daquelas pessoas que falei que não estão no nosso lado na caminhada, mas estão sempre em contacto na nossa vida? Elas vão aparecer. Vão saber onde vamos estar abrigados e vão ter connosco. Vão trazer um abraço, palavras amigas e acima de tudo vão partilhar da nossa dor. Vão incluse ficar connosco, vão interromper a caminhada delas, para ficarem ali. Vamos fazer mil e uma perguntas às quais elas não vão saber responder, mas vão fazer de tudo para darem uma resposta, mesmo que seja a resposta mais estúpida de todas. Lembram-se dos pais? Eles também nos prepararam para isto. Vamos esquecer qual o objetivo desta caminhada, qual o sentido. Vamos procurar ajuda e viajar ao passado e procurar por nós. Vamos encontrar de novo o sentido desta viagem. E encontramos acreditem.

Esta paragem pode ser longa, mas não vai ser eterna. Vamos sentir de novo a necessidade de continuar a caminhar. E essas pessoas, que ficaram lá, vão-nos ajudar a levantar. Vão-nos ajudar a meter a mochila às costas e vão entrar no caminho connosco. Vão caminhar durante alguns dias connosco, para o caso de tropeçarmos e cairmos. Vão estar lá. Vamos caminhar apoiados no ombro delas. Sem pressões. Sem julgamento. Não somos fracos por pedir ajuda, somos é fortes por termos a capacidade de caminhar apoiados. Até que a pessoa para a meio da caminhada e nos abraça. Estamos prontos e preparados para seguirmos sozinhos. Vamos algumas vezes chorar sozinhos, sentirmos-nos tristes, mas vai passar. E vai começar a doer cada vez menos. A nossa caminhada vai ser feita de encontros, alegrias, tristezas, paragens na berma e até mesmo abrigos na floresta. Caminhar sozinho não signfica necessáriamente uma coisa má. Às vezes precisamos de caminhar sozinhos para sabermos de novo quem somos e qual o nosso objetivo na viagem. Lembrem-se que vamos encontrar muitas pessoas na caminhada e que um dia alguém vai caminhar ao nosso lado e vamos juntar mais gente à nossa viagem. Vamos passar o testemunho e ensinamentos que os nossos pais nos deram a nós. Lembrem-se que quando digo que nada é para sempre, a solidão também não é para sempre, o sofrimento também não o é.

Espero que vejam nesta texto a vossa caminhada e percebam que não é vergonha pedir ajuda durante a caminhada. Somos seres humanos e não robots.

Vou agora sair do meu abrigo na floresta e continuar a minha caminhada. Está a comecar a abrir o sol.

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