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A beleza de Malèna

O cinema italiano é inconfundível. Não fosse Itália um país de uma cultura riquíssima, logo os filmes só tinham de ser únicos. Não é só a língua cantada que atraí, é o humor peculiar do seu povo, são as histórias com aquele sabor a agridoce, entre o drama e a comédia, e é acima de tudo a beleza dos seus personagens que cativam os expectadores e os fazem estar presos ao ecrã do início ao fim. Malèna é apenas mais um filme, poético, que nos faz sonhar, vibrar e sofrer, é também cómico, como todo o bom filme italiano, que merece ser visto.

Beleza, é disso que trata o filme dirigido por Giuseppe Tornatore. A beleza de Malèna. Uma bela mulher de uma pequena vila italiana, que deixa todos à sua passagem hipnotizados. Por um lado, os homens completamente babados e, por outro, as mulheres roídas de inveja. Afinal, Malèna não é só uma bela mulher, é uma mulher sofisticada para a época – década de 40. Usa roupas justas, arrisca usar cor, enquanto as outras mulheres se escondem por detrás dos lenços, das saias compridas e das roupas escuras.

Nem as crianças ficam indiferentes à passagem de Malèna. Renato é um desses miúdos. A história de Malèna é precisamente contada através do seu olhar. Um garoto de 13 anos, que atravessa a puberdade acompanhado por um louco desejo, platónico, por Malèna. Um menino que está a descobrir o corpo e o desejo. Que quer a todo custo crescer  e conquistar a sua musa.

Os tempos não são fáceis. Itália entra na Segunda Guerra Mundial e a vida de Malèna sofre uma grande reviravolta. Perde o marido e o pai. Fica sozinha, desemparada. A vila entra em alvoroço. Malèna é cobiçada por todos, e as mulheres sabem disso. A inveja, a ganância, a cobiça, as más-línguas, empurram-na aos poucos para o abismo. Malèna fica sozinha, desemparada, com apenas uma única alternativa – vender o seu próprio corpo para sobreviver. Todos a pisam. Até ao ponto de Malèna ser agredida e humilhada em plena praça pública pelas mulheres da vila – a cena do filme. Sem saber, Renato é o seu único defensor. Só ele a conhece. Somente ele escuta os seus choros pela noite a dentro.

Malèna tinha tudo para ser um filme escuro, por causa dos bombardeamentos, da destruição, dos ataques aéreos e da morte, mas não é. Surpreendentemente é cheio de claridade e beleza. Chorámos, mas também rimos e muito. Compreendemos que a inveja e a cobiça conseguem ser destruidoras. Que o povo tem a faca e o queijo na mão, capaz de construir uma imagem a nosso respeito desfasada da realidade. Todavia, no fim o que vence é o amor. “Eu pedalava como se fugisse. E, na verdade, fugia: dela, daquelas emoções, dos sonhos, das recordações, de tudo, enfim. E pensava que precisava esquecer. Eu tinha certeza de que conseguiria esquecer. Mas, agora que estou velho, que consumi banalmente a minha vida, que conheci tantas mulheres que me disseram: ‘lembre-se de mim’, percebo que esqueci todas. Porém, até hoje, ela é a única mulher que jamais esqueci: Malèna”, termina Renato.

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Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

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