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A bailarina

Maria Amélia vivia com a avó, Eduarda, que tinha sido uma grande bailarina quando era nova. Ela adorava ver as fotografias antigas dos avós bailarinos, com as roupas fantásticas e o sorriso perfeito de felicidade, e eu sentava-me com ela e com a avó Eduarda a ouvir os contos intermináveis da sua juventude.

Eu era vizinha de Maria Amélia e da avó, vivia com os meus pais na casa em frente à delas. Claro que a minha vida era aborrecida, com um pai contabilista sempre atarefado e uma mãe médica com turnos malucos, que não tinham paciência para arte e para a magia. Por isso, quando estava com Maria Amélia e com a avó dela, tudo me parecia onírico, e eu estava convencida que a vida tinha que ser como eu me sentia quando estava com elas: perfeita, estonteante e apaixonada.

Todas as Sextas-feiras, depois da escola, sentávamo-nos com uns biscoitos de manteiga e um leite com chocolate a ver as fotografias. A avó Eduarda encontrava sempre mais no sótão, por isso nunca víamos duas vezes a mesma. “Isto foi na Russia!”, contava ela, “onde o teu avô me pediu em casamento, no meio da neve. Uma loucura!” Ou “Esta senhora a quem estou abraçada é Anna Pavlova, em Londres. Ah, que bela bailarina ela era! Única!” E tinha muitas mais fotos com todo o tipo de celebridades, em todo o tipo de lugares exóticos, a fazer todo o tipo de actividades. Cada fotografia tinha uma história fascinante, e nós ouvíamos atenta e avidamente, bebendo cada letra com o nosso leite com chocolate, até anoitecer. Depois, era hora de eu voltar a casa para jantar, e retornar à minha vida de colorida sonhadora numa família de opacos realistas.

Mas um dia adormeci em casa delas, em vez de voltar para a minha. Confesso que foi um pouco propositado; estava cheia de sono, mas não queria que as histórias terminassem, e nem queria voltar para o meu quarto cinzento e sonhar com fadas. Queria viver com elas. Deixei-me adormecer, e quando voltei a abrir os olhos, estava tudo escuro e eu estava deitada no sofá. A porta da sala estava encostada, mas eu conseguia ver uma luz ténue no corredor. Esfreguei os olhos, levantei-me, e, pé ante pé, saí da sala. Fui na direcção da luz, que me parecia vir do quarto da minha amiga, e espreitei pela nesga da porta.

a bailarina Vi a Maria Amélia, vestida com uma camisa de dormir, e a avó, velhota e enrugada, com uma roupa de ballet. Sorria. Maria Amélia também sorria, e tinha nos olhos um brilho angelical e triste. Abraçou a avó, e sentou-se na cama. A avó deu-lhe um beijo na testa, demorado e sentido, e pareceu-me que chorava. Num piscar de olhos, como se estivesse a ver uma cassette ao contrário, a pele enrugada rejuvenesceu, e o cabelo ganhou volume, o branco-neve transformando-se num o loiro escuro. Pisquei os olhos, esfreguei-os, temendo estar a sonhar. Mas quando os voltei a abrir, a avó Eduarda era de novo a bela e jovem Eduarda que víramos nas fotos. Olhei para a minha amiga, sentada no sofá: estava com a pele murcha, as mãos engelhadas e uma corcunda nas costas, e eu podia ver cansaço e velhice nos olhos azuis e nos cabelos grisalhos.

Senti as pernas a enfraquecerem, e ajoelhei-me no chão. Não conseguia tirar os olhos esbugalhados delas. Agora, a jovem Eduarda dançava uma música surda e seguia um ritmo invisível, enquanto que uma idosa Maria Amélia aplaudia com um sorriso nos lábios velhos. A avó Eduarda continuava a dançar, para delícia da neta, num ritmo desenfreado e com uma pose e técnica impecáveis. Na minha cabeça, eu ouvia “O Quebra-nozes” de Tchaikovsky enquanto a via fazer piruetas e arabescos, levantar os pés num jogo com o chão, mover os braços delicadamente como se fossem folhas ao vento, executar pliés magníficos e saltos estonteantes. Tão magicamente como tinha começado, acabou e, com uma bela e elegante vénia, Eduarda agradeceu à sua neta. Maria Amélia batia palmas e celebrava o presente como podia, dorida e derrotada, mas feliz por estar a presenciar aquele momento. E, quando a avó se aproximou dela, desta vez foi Maria Amélia que a beijou na testa, levemente, e, com os olhos enormes como pratos, eu vi como a minha amiga voltava a ser jovem, e a avó voltava a ter rugas no corpo. O espectáculo tinha acabado. E que espectáculo fascinante tinha sido!

De repente, olharam as duas ao mesmo tempo na minha direcção. Teria eu feito algum ruído? A magia evaporou-se e eu senti-me a violar algo secreto, algo completamente íntimo, como olhar por uma fechadura quando alguém muda de roupa ou presenciar um choro desalmado de um luto. Aquilo não era para eu ver. Levantei-me rapidamente e saí a correr de casa delas, envergonhada e maravilhada, com medo e com alegria. A magia existia! A verdadeira magia existia, ao contrário do que os meus pais diziam! Entrei em casa, corri para o meu quarto e pus-me debaixo dos lençóis, escondida dos olhares acusadores que eu não via, mas orgulhosa por ter sido testemunha de tão fabuloso acontecimento.

Não consegui dormir nessa noite, e quando acordei na manhã seguinte vi um senhor a pregar uma tabuleta que indicava “Vende-se”.

Tinham ido embora.

Eu devia ter ficado a dormir, em vez de ceder à curiosidade. Ou devia ter-lhes dito que não contaria nada a ninguém. Ou devia ter ido para casa e pronto. Mas não; tinha-me metido onde não devia, tinha quebrado aquela intimidade e aquele segredo, e elas tinham fugido de mim. E eu ficaria para sempre presa àquele segredo, talvez imaginário, que nem sequer me pertencia.

Oh, mas que maravilhoso segredo para se ter!

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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