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A arte de criar num mundo já explanado

Desde a pré-primária que nos pedem para ser criativos. Com a plasticina nas mãos, ou armados com pinceis e tintas, enfrentamos a nossa essência e deixamos transborda-la para a Arte.

Quando aprendemos a escrever, a imaginação, e todo o processo criativo, começa a ser levado mais a serio. Pedem-nos para escrever, frequentemente, sobre as nossas férias, os nossos heróis, os nossos gostos e desgostos amorosos. Instigam-se as lutas com o papel e a caneta. Desencantam-se cadernos, lápis e borrachas. Tudo para que, nós, os pequenos escritores, descarreguemos emoções, medos, sonhos e tudo o mais que conseguirmos, e nos pedirem.

Porém, tudo se altera conforme o nosso crescimento acontece, naquelas miraculosas horas de sono. Inversamente, a exigência pela criatividade, e o desporto da libertação artística, dá lugar à modelagem e ensinamentos programados, retirando toda a diversão, confidência e carinho da caneta, do papel, dos lápis de cor e da tela do ecrã.

Os artistas. Esses são os insanos. Aqueles que RS_aartedecriarnummundojaexplanado_1resistem à pressão do capitalismo, da formatação educacional e do desperdício cultural, a que se assiste continuamente. Os músicos, os escritores, os pintores e escultores, os senhores do seu nariz. Esses são os doidos, que darão às próximas gerações o acalento, de que precisam, num mundo, onde tudo se reduz a números.

Mais do que números, palavras, sons, pontos e linhas, a Arte pode ser descrita como a verdadeira essência da vida. Descrito, por uns, como o objectivo de qualquer actividade, enquanto que, é apelidado, por outros tantos, como a encarnação da beleza, sem oposto, a Arte irrompe das trevas, como a luz brota do Sol.

Seja por métodos ancestrais, respeitando Tradições, que se impõem por força do hábito, ou rotinas criadas ao sabor do vento, cada “manifestante da arte” sente-se na obrigação de encontrar e reter a inspiração, de formas diversas.

Seja através de um papel, ou por meiosRS_aartedecriarnummundojaexplanado_2 tecnológicos, na Literatura, na Arquitetura, na Pintura, na Escultura, no Desenho, ou na Música, o processo criativo torna dimensões que ultrapassam a imaginação.

Segundo Marina Mendonça, aluna de Direito, na Universidade do Minho, de 19 anos, “em qualquer época que seja, a Arte é um importante instrumento de libertação, através da qual as pessoas conseguem exteriorizar os sentimentos mais íntimos e desafogar a alma. No entanto, este ato de produzir arte, muitas vezes não traz paz a quem a cria, mas, pelo contrário, pode levar ao caos e a momentos de loucura. Apesar disto, acho que, a Arte, será sempre positiva, no sentido de ajudar as pessoas a alcançarem o autoconhecimento e a se sentirem mais felizes, consigo próprias, por terem o hábito de exteriorizar as suas emoções e transforma-las em algo, que terceiros poderão apreciar”.

Mais do que isso, esta colaboradora do “Literatortura”, desabafa, com um brilho no olhar e em tom de confidência, aquilo que há muito lhe ocupa o pensamento. “É necessário que a arte e a cultura sejam estimuladas, dentro do país. Assim, desde de pequenas que as crianças devem entrar em contacto, com o mundo artístico, para que possam criar intimidade, com este, e para descobrirem com o que se identificam. Vejo que, um dos entraves, gerado pela falta de conhecimento, é o medo de se expressar! Muitas vezes as pessoas têm receio de mostrar o que realmente sentem, vergonha de revelar suas emoções e acabam por não produzir a Arte, que têm potencial para criar”.

Ao encontro do que esta jovem escritoraRS_aartedecriarnummundojaexplanado_3 nos conta, Torrance, em 1965, lamentava o papel da criatividade na sociedade. Mais do que isso, este psicólogo americano defendia que a “criatividade é o processo de tornar-se sensível a problemas, deficiências, lacunas no conhecimento, desarmonia; identificar a dificuldade, buscar soluções, formulando hipóteses a respeito das deficiências; testar e retestar essas hipóteses; e, finalmente, comunicar os resultados”.

Tendo em conta, que este universo é amplo, sendo composto por inúmeras artistas, capazes, do seu jeito único, de dar vida a obras belas e entusiásticas, torna-se difícil escolher as vertentes, mais favoráveis como influências. Assim, os motivos de inspiração destes criativos, num mundo onde parece que tudo já foi feito, dito, produzido e construído pode variar de um segundo para o outro. Desde o livro que se está a ler, da pessoa que passa no café em que estamos, ou daquela pedra, no nosso caminho, para o carro, tudo pode ser motivo de uma inspiração digna de mérito, poupa e circunstância!

Porém, se é assim tão fácil, arranjar aquela RS_aartedecriarnummundojaexplanado_4inspiração que permitirá uma obra de arte nascer, porquê que não somos todos Artistas, com “A” grande?

Segundo Marina Mendonça, “de nada adianta o talento, se este não for praticado. Desta forma, a pessoa destacada, em certa atividade artística, tem que trabalha-la, procurar conhece-la e dedicar-se a ela. Caso contrário, não conseguirá produzir algo, de verdadeiro valor.” Mais do que talento, e como em toda e qualquer área profissional, ser artista dá trabalho e requer suor, lágrimas e algum sangue.

Reconhecendo o papel primordial de Artistas, que a antecederam, a nossa entrevistada recorda o seu pequeno ritual que lhe impulsiona, para o processo criativo, resultando na escrita fabulosa, a que dá vida. “Normalmente tenho a necessidade de me esvair por completo do mundo, à minha volta, e entrar numa bolha, onde exista apenas eu, o computador e as minhas ideias. Para que eu consiga atingir este estágio, de concentração, costumo recorrer à música clássica – Mozart, Bach e Beethoven são os que normalmente escolho, uma vez que, a complexidade sinfónica destes compositores ajuda muito, no processo de criação.”

Já para Sérgio Godinho, que nos seus 22 anos jáRS_aartedecriarnummundojaexplanado_5 dá cartas no mundo da escrita e da recitação, em vários pontos nacionais, um verdadeiro Artista tem de dar o corpo às balas. “É necessário existir uma dose de coragem, para se assumir como “mensageiro”, de qualquer coisa, no entanto, a meu ver, é essencial. Artista sem mensagem a transmitir não é artista.”

De modo entusiástico, consumido pela chama da Arte, continua o seu desabafo, sem nunca esquecer as aprendizagens, que lhe trouxeram uma visão mais profunda da Arte, na licenciatura, com mestrado integrado, de Psicologia, na Universidade do Minho. “Poderá existir alguma predisposição, de certos indivíduos, para terem um melhor desenvolvimento num determinado campo? Sim. Se é um pré-requisito? Considero que não. O rendimento tem muito mais que ver com outros aspetos, tais como a prática deliberada, do que com características inatas ao ser. Um mestre não nasce, faz-se.”

Quando confrontado com o panorama económico-politico nacional, e os possíveis contributos de Portugal para a Arte, quer seja pelo incentivo de medidas, como pela retirada de entraves, Sérgio Godinho mostra-se desconfiado e dececionado, com a dura realidade. “A pergunta deveria ser, o que pode a arte contribuir para Portugal e para o mundo? Contudo, respondendo à questão: Perguntem aos políticos e supliquem para que a resposta não seja mentira.”

Quer seja a criatividade “uma sublime dimensão daRS_aartedecriarnummundojaexplanado_6 capacidade humana”, como Sanchez referia em 2003, ou aquilo que se vai fazendo e dominando de “cultura”, mas que é rapidamente ignorado pelo povo, o mundo artístico respira novas ideias. Desde exposições, em museus internacionais, até ao artista de rua, que faz da Arte o seu hobbie, a verdade é que o estímulo e apoio social fica muito aquém, do que poderia ser realizado.

Tido como supérfluo, pelas massas, a Arte é forma de entretenimento, em horas vagas, sem lugar para grande destaque. Lembrando as palavras de George Orwell, em “mil novecentos e oitenta e quatro”, “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força.” Até quando continuaremos a fortalecer aqueles que nos convencem a ignorar a criação da Arte?

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Raquel Soares

Aluna de Direito na Universidade Do Minho com uma paixão por livros, filosofia, psicologia e o mundo. Não procuro um mundo melhor, mas esforço-me para construí-lo!
Sou activista da Amnistia Internacional em Portugal e participante em projectos que visam a dinamização e a efectivação dos Direitos Humanos.
Membro da Associação Universitária de debates nacional e colaboradora da ELSA UMinho.

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