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A Arquitectura da Pobreza de Ser

Numa semana em que todos os jornais foram entupidos pelos acontecimentos no Grupo Espírito Santo, pelos problemas de credibilidade do BES, pelas questões que afectam o BES, pela divida aos credores do Grupo Espírito Santo e pela detenção para interrogatório de Ricardo Salgado… do BES, tornou-se complicado saber distinguir o trigo do joio, o importante do acessório e o interessante do que deveria nem ter sido notícia. Por isso, vamos separar as coisas, limpar a poeira dos olhos e ver o que realmente esteve In e o que esteve Out nesta semana.

Destaque da Semana

A ambição de construir um espaço contínuo e em que a ideia de unidade entre a religião e o quotidiano são centrais fez do projecto do arquitecto Manuel Aires Mateus o escolhido em concurso pela Fédération Musulmane de la Gironde. A obra com o valor de 24 milhões e meio de euros e com quase 12 mil metros quadrados centra-se no culto e na cultura muçulmana, em que o lado religioso de cada indivíduo se estende à sua vida quotidiana. Foi esta ideia de continuidade e unidade da vida religiosa com a vida social que o atelier procurou atingir neste projecto que vai ser erguido de raiz junto ao rio Garona, na zona nova de Bordéus, em França.

Esquecer as conotações visuais de uma mesquita e traduzir no espaço a religiosidade muçulmana foi o grande objectivo desta obra. “Para este projecto procurámos um espaço absoluto, uma topografia contínua, uma arquitectura onde tudo está ligado: os diferentes usos [do edifício], os percursos que os relacionam, a luz filtrada que os caracteriza. Um todo sem partes”, lê-se na nota explicativa que acompanha o projecto.

É desta forma que começam a nascer os Sizas Vieiras do futuro, sempre com a chancela Portugal, que continua, aos poucos e poucos, a conquistar o seu lugar em várias áreas pelo mundo fora.

Fava da Semana

A listagem, elaborada todos os anos pela ONU a partir de dados em três áreas (uma vida longa e saudável, acesso ao conhecimento e um padrão de vida decente) é liderada, como de costume pela Noruega, seguida da Austrália, Suíça, Holanda e Estados Unidos da América. No fundo de uma lista com 187 países, está a Níger, seguida pela República Democrática do Congo, a República Centro Africana, o Chade e Serra Leoa.

Pelas contas deste índice, existem no mundo cerca de 1,2 mil milhões de pessoas pobres, um número verdadeiramente chocante, principalmente se o contextualizarmos em termos do total da população mundial – estimada em pouco mais de 7 mil milhões de indivíduos. Todavia, as más notícias não se ficam por aqui. De acordo com o mais recente relatório divulgado pela Oxford University, às Nações Unidas falta-lhes incluir, neste número vergonhoso, mais 400 milhões de pessoas, o que significa que o mundo do século XXI conta com 1, 6 mil milhões de pobres.

O documento apresentado a 24 de Julho defende que a vulnerabilidade persistente ameaça o desenvolvimento e que esse problema precisa de ser resolvido para que o crescimento seja equitativo e sustentável. Nesse sentido, são pedidas políticas mais fortes de protecção social e um regresso ao objectivo do pleno emprego e à universalidade de serviços públicos básicos. Num momento em que o desenvolvimento humano desacelera em todas as regiões do mundo, é necessário fornecer melhores recursos e serviços aos pobres, excluídos e marginalizados para melhorar as capacidades e escolhas de vida de todos.

Curiosidade da Semana

Tenho de confessar: apesar de já estar numa relação há bastante tempo e de adorar dormir acompanhado, a verdade é que, para mim, uma boa noite de sono significa estar sozinho e ter o silêncio, a cama e os lençóis só para mim. Porém, segundo um artigo da The Atlantic, existem razões para além de económicas e de satisfação emocional que nos fazem dormir acompanhados.

Na sua investigação, Jon Methven, que gosta tanto de dormir acompanhado quanto eu, dormir, tal como correr uma maratona, ou saborear uma refeição, é uma actividade solitária, já que, mesmo tendo alguém ao nosso lado, no fundo, estamos a dormir sozinhos. Este costume vivencial começou por ser um incentivo económico, já que, na Europa pré-Industrial, as classes baixas, que não tinham grandes capacidades financeiras, partilhavam a cama com toda a família, independentemente o número de pessoas que a ocupasse. No entanto, para podermos perceber o que é que nos une na partilha de uma cama actualmente, basta olhar para a televisão e ter a indicação necessária para perceber os porquês.

Na série Uma Casa na Pradaria, Charles e Caroline Ingalls partilhavam uma cama, em pleno séculos XVIII, numa cabana que era demasiado pequena para uma família de seis pessoas. Paralelamente, Robert e Cora Crawley, que de certeza tinham o poder económico para terem quartos e camas separadas, numa Downton Abbey de início do século XIX, preferiram dar voltas na mesma cama. O que é que os levou a partilhar o mesmo espaço para dormir? Algo que está muito enraizado no ser humano: o nosso medo perante a escuridão. Ou como refere o historiador Roger Ekirch, “a noite, representante do mal na humanidade, foi a responsável por muitos medos antes da Revolução Industrial. As famílias nunca se sentiam mais vulneráveis do que no momento em que se iam deitar. Os companheiros de cama permitiam sentir uma forte noção de segurança, perante os perigos eminentes – desde ladrões e assassinos, a fantasmas, bruxas e ao próprio representante de todo o mal no mundo, o Diabo.”

O que falta à história e aos estudos acrescento eu, já que sou da opinião que dormimos juntos por sermos seres de afectos. As nossas mentes necessitam de descansar, mas também são elas que precisam da partilha e da intimidade. É importante falarmos sobre o nosso dia-a-dia deitados lado a lado, discutir sobre o futuro dos filhos, ou sobre questões da casa onde se mora, coscuvilhar sobre os vizinhos e os colegas de trabalho e planear o dia seguinte, num local em que nos sintamos calmos e serenos. Nós abraçamo-nos, nós rimos e, no fim de cada dia, retiramos a armadura que usamos para enfrentar o mundo e queremos estar deitados ao lado daquela pessoa especial, para sabermos que não estamos sozinhos a viver a vida.

Momento da Semana

Uma mulher a afogar-se, uma cara ensanguentada e um homem a fazer o gesto da pistola e a apontar à sua cabeça não são propriamente os elementos que fazem parte do romancismo. No entanto, isto, juntamente com um conjunto de mensagens de telemóvel, é a imagética que constitui o videoclipGet Her Back”, do novo álbum de Robin Thicke, a que assisti esta semana. Confesso que achei a abordagem muito esquisita e isto é apenas uma música de um conjunto dedicado em exclusivo à reconquista da sua ex-mulher, a actriz Paula Patton. O que terá acontecido aos tradicionais chocolates com flores?

O novo álbum de originais de Robin Thicke chama-se (vejam se adivinham…) Paula e é constituído por músicas como “You’re My Fantasy”, “Still Madly Crazy”, “Something Bad”, “Whatever I Want” e “Lock the Door”, entre outras. O perturbador videoclip é constituído por mensagens de telemóveis que o ex-casal trocou na vida real, intercalado por imagens violentas e termina com uma sombra a caminhar em direcção ao horizonte, com a seguinte frase a aparecer no fim: “Isto é apenas o início.” Por essa Internet fora, o vídeo é considerado “vulnerável” e “emocional”, enquanto o álbum é catalogado como repetitivo, com o cantor a usar as mesmas técnicas românticas do seu antecessor. Para mim e depois de ver o conteúdo deste primeiro videoclip, é simplesmente uma atitude maníaca muito comum nos stalkers.

Ninguém sabe como era a relação entre os dois, para além daquilo que era do conhecimento público, de que eles tinham sido namorados desde os tempos do liceu e que tinham um filho em comum. Contudo, romantizar o arrepiante e potencialmente assediantes esforços de um homem obcecado pela sua ex-mulher envia uma mensagem muito perigosa para os jovens sobre o que significa verdadeiramente o Amor. Deixo uma pista: não envolve argumentar e convencer publicamente a outra pessoa a voltar para uma relação da qual se saiu e “Get Her Back” é uma ameaça em formato de videoclip. Desde uma figura a afogar-se, à mão a recriar uma pistola, este vídeo é um claro sinal de que Robin Thicke não aceita um não como resposta. Isto não é um acto romântico, é um completo acto de loucura.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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