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A apologia da Ignorância

Num mundo em mudança, inevitavelmente, existem temas que são fracturantes e que levam a avanços e recuos constantes, por existir uma resistência muito profunda na sua discussão. O tema da adopção por casais do mesmo sexo é um desses temas, que pela quarta vez foi ontem ao Parlamento e, mais uma vez, foi chumbado.

As sociedades evoluem, as pessoas mudam, hábitos são transformados, mas as classes legislativas nem sempre acompanham de forma fluída esse mesmo processo. Uma democracia dita madura, como supostamente é a portuguesa, não tem o simples hábito da discussão e do debate de ideias, de forma ampla e abrangente em termos sociais, nomeadamente em temas que envolvem ideologias e formas de estar. A não existência de debate leva a uma muito natural ignorância, levando, por sua vez, a uma discriminação camuflada por uma lei.

Sejamos honestos, continuamos a insistir em desculpas que mascaram apenas o preconceito de uma mentalidade ainda muito fechada e demasiado preocupada com o que os outros pensam, como é verdadeiramente a mentalidade portuguesa. Se mais de metade dos países da Europa tivessem legalizada, ou a intenção de legalizar a adopção por casais do mesmo sexo, Portugal estaria na fila da frente, orgulhoso de ser um pioneiro. No entanto, a própria Europa é vítima da sua mentalidade.

Olhemos os factos de mais uma hipocrisia que rodeia o mundo em que vivemos. Uma pessoa, sozinha, pode adoptar uma criança que precisa de um lar, de um pai, ou de uma mãe, que precisa de crescer rodeada de amor. A orientação sexual não é um bloqueio a essa adopção por alguém sozinho, mas, se for casado, já existe um impedimento legal. Uma criança pode passar os primeiros anos da sua vida num lar de acolhimento, mas se uma família de dois homens ou duas mulheres, que apenas se disponibilizam para amar aquela criança e dar-lhe condições que, se calhar, de outra forma, ela não terá tão facilmente na vida, isso já não é correcto.

A questão nunca estará apenas no facto de ser um casal fora dos padrões que a sociedade, um dia, por convenções e questões práticas, definiu. A questão tem duas vertentes, a da discriminação, sem dúvida, mas também e bem mais importante, a das crianças. No nosso país, aceitamos mais facilmente que uma criança viva numa casa, sem amor, com um pai que bate na mãe, onde a comida escasseia e onde ela mal tem condições para poder crescer, do que ser adoptada por dois homens, ou duas mulheres que se amam e que podem dar uma família a essa mesma criança.

Em Portugal, o que vivemos, acima de tudo, é a vergonha do diz que disse, do que o vizinho poderá dizer, comparando-nos com os outros, criticando e julgando, mas encobrindo a verdade, aquela que nos permite sermos nós mesmos. Todas as famílias têm problemas, todas as famílias se constroem e se diluem, mas impedir que uma família de pleno direito possa crescer e dar condições a uma criança de poder ser um adulto mais saudável, que cresceu envolvido em amor, porque existe um preconceito vigente numa sociedade atravancada por ideias, tantas vezes, retrógradas, é pura discriminação, sem qualquer razão de existir.

Ainda não aprendemos, nessa nossa jovem democracia de 40 anos, que os temas estruturais da sociedade não podem ser decididos na plateia de um Parlamento, que, pelo contrário, têm de ser trazidas à praça pública, discutidas e esclarecidas, para que seja o povo, verdadeiramente, a mostrar a sua vontade.

Como noutros países do Mundo, talvez esteja na altura de dar força a ferramentas como o referendo, promover o debate e colocar o poder nas mãos onde ele verdadeiramente está, no povo. Para que isso aconteça, é preciso que as várias partes, porque somos todos humanos e todos temos as nossas ideias e convicções, se exprimam, com respeito pelo seu semelhante, para que possamos conhecer os vários lados e exprimir o nosso ponto de vista, permitindo o esclarecimento e a tomada de decisão.

Precisamos de crescer enquanto sociedade e largar os velhos preconceitos e os velhos dogmas, aprender a pensar pela nossa própria cabeça e a não ficarmos fechados num mundinho em que, tantas vezes, nem sequer sabemos muito bem porque dizemos que não concordamos. A apologia da ignorância, que tanto rege este país, precisa rapidamente de terminar, mas para isso é preciso que cada um de nós seja capaz de respeitar o outro, o que muitas vezes ainda é difícil.

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d’Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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