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A adopção

Tu um dia olhaste para mim e ficaste apaixonado. Achavas que eu era fofinho, amoroso, querido e tantos outros adjectivos que me ficavam bem. Eu abanava a cauda, ingénuo e cheio de esperança que me levasses para a tua casa. Os meus olhos abriam muito, muito, tanto até chegar ao teu coração. Eu sentei-me e tu pegaste-me ao colo. “Que lindo!” dizias com voz embargada e sentida. Eu abanava tanto a cauda que até pensei que ela ia sair e levantava voo. Senti o teu calor, as tuas mãos fortes que me acariciavam e me davam conforto. Senti-me tão bem, tão acolhido, tão feliz. Ia ao teu lado, contente, a olhar embevecido para alguém que tinha acabado de me adoptar. Ainda não conhecia a palavra, soube-a depois, mas era assim que tudo estava a acontecer. Tu ias a conduzir e eu, no banco do lado, ia calmo, tranquilo, certo de que algo de positivo iria acontecer.

Chegámos ao nosso destino. Era a tua casa. A nossa casa, como depois eu ouvi tu dizeres. Que linda. Tão grande! Não tinha nem grades, nem portões e havia muito espaço. Tanto espaço! Cheirava tão bem, tão doce e tão saboroso. Sentia-o na boca, na minha língua, no meu nariz. Era um faro diferente, um faro que se sentia no coração e naquilo que eu descobri, a seguir, que tinha, na alma. A um canto estava um colchão e tu, após me tirares do teu colo, com muito cuidado, colocaste-me lá. Era tão fofinho que eu devo ter adormecido logo. Sonhei com nuvens azuis e cor de rosa, onde eu saltitava e havia sempre uns braços para onde eu voltar. E tantas festas que eu sentia na minha cabeça e vozes, baixinhas, a contarem pequenas histórias que não entendia.

Acordei com um chamariz especial. Era comida que estava ao pé de mim. Que bonita, numa tigela só para mim, com um boneco ao lado. Tantos miminhos, tantas alegrias que eu estava a ter. Come. É para ti, é a tua comidinha. Vamos escolher um nome, pode ser? Depois. Agora come com calma. Penso que devorei tudo. Senti a minha barriga tão grande que parecia um melão. E tive outra vez sono. Dormi profundamente. Acordei nos teus braços e tu olhavas para mim de modo ternurento, uma profundidade de sentimentos que eu não conhecia nem sabia explicar. Era uma nova sensação e gostava muito dela.

Ficámos assim tanto tempo, a olhar um para o outro, a medir a nossa felicidade, a viver o momento, a gravar nas nossas memórias. Depois a tua voz ficou mais forte. Meu amigo vamos escolher um nome. Eu digo um e tu dizes se aprovas ou não. Bobby? Não, abanas a cabeça. Snoppy? Também não. Zé? Gostas? Então, fica Zé. E rimos muito os dois, numa cumplicidade que só quem tem um cachorrinho adoptado consegue entender.

E a vida mudou para os dois. Grandes passeios que davam e conversas que partilhavam. Era o vazio preenchido com alegria e compaixão. O Zé continuava a abanar muito a cauda, para mostrar que estava bem assim e o dono, enfim, o dono, nem cabia em si de contente. Foi uma parceria que durou anos, um laço que não se quebrou e que deixou tantas, mas tantas saudades, no dia em que o Zé decidiu ir embora, para o tal arco-íris onde estão todos os cães e gatos que já não conseguimos ver.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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