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A vida a bordo das naus e caravelas

Há quinhentos anos, a ligação marítima entre Lisboa e a Índia permitiu as trocas comerciais entre Europa e a Ásia e o controlo efectivo das possessões territoriais. A viagem durava em média 6 meses, caso as condições meteorológicas e de navegação fossem favoráveis. O que nem sempre acontecia, provocando um considerável número de naufrágios. Pelo contrário, a viagem para o Brasil durava em média dois meses e as condições de navegação mais favoráveis.

O quotidiano a bordo não seria muito diferente em ambas as viagens, visto os problemas observados serem semelhantes. A alimentação era um deles. A sua preservação era uma das principais dificuldades, sendo por isso usados alimentos que permitissem a sua conservação durante largos meses e o seu uso racionado. O exíguo espaço das embarcações, naus e caravelas, era partilhado por centenas de pessoas, víveres e cargas. O número de passageiros era variável. Na carreira das Índias, podiam facilmente chegar aos 800 passageiros, ao passo que na carreira do Brasil, o número fosse substancialmente inferior. Para além da tripulação, grande parte composta por homens impreparados para a navegação, encontravam-se variados artificies, como barbeiros, cirurgiões, carpinteiros, mas também clérigos e soldados. O pouco espaço disponível, partilhado por um elevado número de pessoas, não favorecia nem a mobilidade, nem a privacidade, o que facilmente despoletaria situações conflituais. Para além disso, as condições sanitárias eram quase inexistentes. A higiene, já de si pouco generalizada, era comprometida pela escassez de água a bordo. À má nutrição, às condições climatéricas, juntava-se o mau saneamento, que facilitavam a disseminação de várias doenças e, consequentemente, de elevados níveis de mortalidade.

A tudo isto, acrescia ainda a necessidade de entretenimento desta população, colmatada em grande parte pela existência de religiosos a bordo. Para além da missa quotidiana, as mesmas festas que marcavam o calendário litúrgico em terra eram celebradas a bordo, sendo, por isso, efectuadas também procissões, ou peças teatrais de teor sacro.

Os jogos de azar, dados e cartas, ainda que condenados pelos clérigos, eram uma das formas mais comuns de entretenimento, a que se juntavam a simulação de touradas, empurrando-se cestos, ou, então, colocando no convés pequenos tubarões, conhecidos como tintureiras, que havia sido pescados. Desta forma, ao permitir-se que as tensões entre passageiros fossem atenuados através deste género de divertimento contribuía-se para que as duras condições em que tais viagens se realizavam fossem, de certa forma, reduzidas.

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Pedro Urbano

Nasceu em Lisboa em 1979, tendo frequentado o antigo Liceu de Setúbal. Licenciou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é actualmente doutorado em História pela mesma Universidade, onde também concluiu o mestrado em História Contemporânea.

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