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30 anos, viúva, 2 filhos

Ela foi buscar o exame médico do marido. Não resistiu e abriu-o. Sabia que não devia, mas tinha que saber a verdade. A resposta estava ali, à frente dos seus olhos e era má, muito má. Eram palavras complicadas, mas ela sabia descodificá-las. Telefonou à amiga. Choraram as duas. A notícia caiu que nem uma bomba. Era aquela palavra que ninguém quer ouvir, mas que existe, que gravita à nossa volta, que a queremos ignorar. A amiga tentou encontrar palavras que amenizassem o óbvio, que lhe dessem um pouco de esperança e de alento, mas chorou sozinha, lágrimas de compreensão e de muito sofrimento futuro.

Ele não aceitou bem a notícia. Era natural que assim o fosse. Não se queria tratar. Sabia que o inevitável teria de acontecer. Eles tinham dois filhos pequenos e os sonhos todos do mundo. Eram jovens, com planos de futuro e estavam a construir uma vida em comum. Aquela notícia era a bola de chumbo que lhe acertava e o derrubava. Mundo injusto. Exames e mais exames. Há a esperança da operação. Foi feita, mas os milagres não acontecem. A medicina não é magia, é ciência e não cura o que não pode ser curado. Foi um definhar a olhos vistos. Ela foi incansável e duma dedicação extrema que ultrapassou o limite do imaginável. Anulou-se e dedicou-se a ele. Agarrou-se à tábua de salvação, à ideia de que era só um mau momento. A realidade era dura e castigou-os. Ele não ia ver os meninos a crescerem, a serem pessoas grandes, a ouvir o pai, a olhar para ela, a serem acompanhados por aquele que também os desejou. Uma dor tão profunda, tão dilacerante que atacou todos os que os rodeavam.

Foi uma época difícil e muito complicada. Não havia condições para que ele ficasse em casa. Precisava de cuidados constantes e específicos. A casa estava mais vazia, mas a sua presença estava lá, todos os dias, para ela era o marido, para os meninos era o pai. Ela nunca o abandonou. Soube que pouco mais podia fazer, mas dava-lhe força, animava-o e passava-lhe a esperança que ele nunca teve. Todos os dias e sempre. Um dia tudo acabou. Ele fechou os olhos de vez e ela chorou-o magnífica e irrepreensivelmente. Fez tudo o que lhe tinha prometido e venerou a sua memória. Os meninos ficaram sem pai, mas ela ficou sem marido, a outra asa do seu voo quotidiano, a costela que a completava, o outro lado do seu eu. Chorou copiosamente e gastou todas as lágrimas.

Um dia arregaçou as mangas. Acabou o luto. A vida continua. Os meninos crescem e a ideia do pai nunca vai desaparecer. Ela precisava de viver, de sol, de luz, de claridade. Acabou a escuridão, o obscuro, o negrume, a infelicidade. Levantou a cabeça, olhou em redor e viu que a amavam, que a tinham sempre apoiado, que tinham lá estado sempre. Sorriu e viu que a cor continuava a existir. Lutou e lutou e nada faltou naquela casa. Ela sabia que as coisas teriam sentido, era só uma questão de tempo.

Ficou desempregada. Não foi fácil. Sem trabalho, sem marido e com filhos pequenos. Nada parecia correr bem. A nuvem negra não queria desaparecer de cima da sua cabeça. Insistia em ficar. Ela não desistia, nunca o pensou fazer. Era palavra que não constava do seu vocabulário. Persistiu e não cruzou os braços. Foi à luta bárbara do real que é a vida, sem tons de cor de rosa e azul celeste. Os meninos sempre à frente, ela atrás, a protegê-los. Foi ficando cada vez mais ela, foi-se encontrando, foi realizando tudo o que lhe faltava ainda. Ela cresceu, os meninos cresceram e o trabalho apareceu. Estava a nuvem a desaparecer, a ficar menos densa, mas ainda lá estava. Faltava preencher o coração. A cicatriz fica sempre, a marca persiste, mas ela precisava de mais, de calor, de fogo, de paixão na sua vida. Ela estava viva e tinha de ter ânimo para continuar.

Ele apareceu e a vida dela mudou, iluminou-se, encheu-se e completou-se. Não era o cavaleiro andante montando no seu cavalo branco, era um homem, de carne e osso, disposto a partilhar momentos a dois, a educar os seus filhos, a viver uma vida em pleno, com altos e baixos, com incertezas e insegurança, com sonhos e vontades, com passados que se uniam num presente que se pretendia futuro.

Tantas lágrimas que ela chorou que acabou por secar, tanta dor que ela viveu que acabou por endurecer, tanta injustiça que ela teve que enfrentar que ficou forte e destemida. Agora ela merece a recompensa, o seu lugar ao sol, a coroa de louros das batalhas ganhas, dos lugares conquistados, o podium da alegria, a medalha de ouro nestas olimpíadas da vida. E ela é a melhor candidata que existe e a mais merecedora de alcançar a felicidade.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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