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O aluimento no Big Sur

Se vos falar da Bixby Creek Bridge ninguém saberá do que se trata mas se mostrar uma imagem dessa ponte, arrisco que 8 em cada 10 pessoas já a viram algures. A Bixby Creek Bridge é apenas um postal da mais cénica estrada americana, não confundir com a Route 66, a mãe de todas as estradas cujo lugar na cultura e história é outro. Aqui fala-se da Highway 1, também conhecida como Pacific Coast Highway ou simplesmente All American Road.

A Bixby Creek Bridge

Com cerca de 1055 km é a maior estrada da Califórnia. Um extremo em Dana Point, sul da área metropolitana de Los Angeles, seguindo para norte atravessando a metrópole dos anjos para depois percorrer a costa do pacífico. Granjeia fama e carisma no sinuoso troço à beira mar entre Santa Mónica e Malibu. Tem o seu outro extremo já bem a norte de San Francisco, perto de Leggett, depois de atravessar a Bay area pela Golden Gate Bridge.

E há um troço muito especial que lhe deu a maior quota parte de fama, foi retratado por músicos e poetas, Jack Kerouac dedicou-lhe palavras reconhecidas, e permite-lhe com toda a justiça ostentar o título de a mais cénica estrada dos EUA. São os 140 km que serpenteiam as ravinas costeiras do Big Sur, a cerca de 200 km a sul de San Francisco. Oferece paisagens deslumbrantes, praias selvagens, e uma condução inigualável numa atmosfera única no mundo. Acontece que este troço está encerrado e não é a primeira vez (alguns dados dizem que é 54ª vez em cerca de 80 anos de existência da Highway 1).

A Highway 1 a serpentear a costa do Big Sur

Esta é uma zona de geologia muito específica constituída por rochas soltas, ravinas abruptas e uma grande exposição às tempestades oceânicas que fustigam aquela zona e aceleram a erosão. É também vítima frequente da Falha de Santo André e de frequentes abalos sísmicos que tornam as terras instáveis. O resultado são frequentes deslizamentos de terras que têm obrigado a constantes planos de intervenção neste troço da Highway 1.

Já muito se discutiu sobre se vale a pena continuar a investir no salvamento desta estrada. Os argumentos a favor, entre o turismo, o carisma e a história venceram sempre e um plano de recuperação estava a ser posto em prática pela Caltrans (California Department of Transportation). No entanto o último Inverno foi atípico e fustigou a região com chuvas intensas, muito acima das médias registadas no passado. Tal resultou num aluimento que danificou os pilares de uma pequena ponte em Pfeiffer Canyon, obrigando ao encerramento da famosa estrada. Após o Inverno iniciaram-se então trabalhos não só naquela ponte como noutros locais, de forma a sustentar as ravinas. Quando os trabalhos decorriam normalmente, em articulação com as necessidades de alguns habitantes locais, as autoridades ordenaram a interrupção das obras num dado local, Mudcreek. Uma semana depois Mudcreek praticamente já não existia.

Alguns quilómetros a sul da ponte encerrada, perto da pequena localidade de Gorda, em 20 de maio último, a montanha cedeu e soterrou cerca de 400 metros da Highway 1 com mais de um milhão de toneladas de rochas e lamas que avançaram mais de 20 metros para dentro do Pacífico. O cenário que ficou só se explica na sua dimensão pelas imagens e as consequências que ainda estão para se determinarem na totalidade.

Aquele que é o maior aluimento alguma vez registado no instável Big Sur obrigou a Caltrans a reformular os seus planos, sendo que a reabertura inicialmente apontada para o início de julho foi rapidamente anulada, aumentando exponencialmente os prejuízos não só para o estado como para uma região que concentra entre julho e setembro 70% dos ganhos anuais com o turismo.

Imagem aérea do grande aluimento12

Kirk Gafill fala de 300 mil dólares perdidos por si nestes três meses, ele que é dono do icónico e mundialmente famoso Nepenthe Restaurant, com a melhor cozinha e vistas do Big Sur. Actualmente está ao serviço de alguns locais que o acedem através de alguns trilhos de montanha. O Esalen Institut Retreat Center socorreu-se de um fundo de emergência para encerrar até data indeterminada. O Post Ranch Inn foi mais criativo e dirigiu os seus poucos quartos para um turismo de luxo, aumentando o preço das dormidas. Razão é que o espaço só é acedido de helicóptero, viagem essa oferecida aos hóspedes com o bónus de oferecer uma vista aérea para o local do aluimento.

Certo é que esta região do Big Sur e da Highway 1 vai-se modificar. As obras de remoção das terras do aluimento serão longas e dispendiosas, a região é património natural pelo que terão que ser depositadas longe. O comércio e habitantes irão definhar e correr riscos de “sobrevivência”, mas terão a certeza de que, quando a estrada reabrir, as condições de segurança estarão garantidas e os turistas, visitantes de longe e de perto, de todos os cantos do mundo, estarão de regresso porque a Highway 1 irá sobreviver como sempre, com o seu carisma e vistas deslumbrantes que irão aumentar o seu valor icónico e o seu papel na história e cultura californiana.

Novos músicos e novos poetas ainda irão inspirar-se ali.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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